ORNITORRINCO

QUANDO NOSSOS OLHARES SE CRUZAM

Agnès Varda pertenceu ao movimento da Nouvelle Vague, fotografou Godard sem os óculos escuros, expondo o olhar do cineasta além da obra, dirigiu e roteirizou o indicado ao Palma de Ouro, “Cléo de cinq à sept”, e vive a perceber o mundo.

Assistindo ao documentário “Les plages d’Agnès”, percebo que Agnès é a própria câmera stylo (câmera caneta), que observa e representa o outro em sua obra. As fotografias, instalações e documentários são imagens que habitam a realizadora: ficção, uma vez que a memória é inventada. Varda sente que sua vida é um cinema, o mundo da invenção. Filmar o real é uma leitura de fatos, um sistema de pensamentos que movido pelo desejo, a falta que nos move, pertence à ordem do irrepresentável, a arte é o simulacro da vida, o olhar do outro que nos constitui, uma escuta psicanalítica, que nos permite ouvir nossos traumas.

Segundo Agnès, habitamos paisagens dentro de nós. A praia é a sua paisagem. Penso se existe uma praia em mim, talvez sim, alguns dias sinto-me aquecida, às vezes bate uma brisa que refresca os pensamentos, como uma conversa de bar. Outros dias sinto-me solitária como uma praia em dia de inverno. O ar melancólico da areia vazia e o mar agitado, que torna tudo confuso aqui dentro, prestes a receber uma tempestade, destruindo tudo que foi esquecido, pelos veranistas à beira mar.

Talvez todos sejamos praias, ilhas desertas ou piscinas de hotéis caros e impessoais. Tem dias que somos lagos, outros mares, mas estamos sempre em movimento, alguns dias a água se agita, em outros apenas contempla o céu.

Os fotogramas colocados em sequência também nos dão impressão de movimento. Agnès utiliza de diversas estratégias de abordagem do movimento, mesmo quando explora imagens estáticas em suas fotografias. Em entrevista realizada no festival de cinema francês “Cinefrancia” (2003), Varda diz que graças à sua experiência com fotografia, antes de qualquer outra coisa, ela aprendeu a “ver”. O olhar que buscamos fixar na tela do cinema é o mesmo que caminha perdido entre as multidões a buscar um ponto de encontro entre os olhares que nos rodeiam. Ao cruzar o olhar daquele que te olha, alcança-se o estado orgástico, daquele que se apaixona pela própria imagem refletida na tela (s).

Como expressa o pensamento ampliado de Kant, é preciso pensar colocando-se no lugar do outro, num movimento de retorno a nós mesmos, como se partíssemos do exterior, para enxergar nossos próprios julgamentos e valores do ponto de vista que deveria ser o dos outros. Para tomar consciência é preciso estar distante de si mesmo, contemplando o mundo como um espectador interessado.

Procuramos espelhos que criam simulacros de nós mesmos e nos compreendemos em imagens que nos habitam, rememorando crenças, eventos e amores que inventamos de verdade, para que sejamos artistas da nossa realidade em movimento. O desejo de ver-se no olhar do outro bagunça e instiga as relações humanas. Está aí uma das finalidades da existência: a experiência da ampliação de nós, da abertura da visão e do horizonte que se situa.

Em um movimento imprevisto do olhar a gente se vê, a gente se encontra e dividimos nossas dúvidas.

Aline Vaz é professora e escritora.

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Publicado em 19/08/2014 por em Aline Vaz.
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