ORNITORRINCO

O FOTÓGRAFO E A CÂMERA

Tantas fotos pra ver que não me dizem nada. São quase dez anos investigando os pequenos detalhes da fotografia, tentando mediar minhas pílulas de conhecimento técnico com o olhar fotográfico que desenvolvo, mas a realização da maioria das ideias fica sem futuro. Talvez este seja o pecado do fotógrafo: uma vez que a foto foi realizada, movemos para o próximo click, sem pensar muito sobre o que estamos registrando. A foto fica bonita, ela foi feita para arrecadar curtidas, comentários e compartilhamentos, mas não há nada de especial nela: ela fica incompleta, ruim.

Na minha linha do tempo do Facebook, Twitter, Instagram e dos leitores de RSS, dificilmente vejo uma foto boa tecnicamente. Diria que 90% das que vejo foram feitas por pessoas comuns, sem conhecimento nenhum de fotografia, que acharam algo interessante e resolveram ali compartilhar aquele cigarrinho virtual contigo. “Olha esse pôr-do-sol, que lindo“, “Eu e ele #hashtag-qualquer-coisa“, “Treino de hoje foi pesado“. Antes de condenar as imagens eu me pergunto se todo mundo sabe exatamente o que está fazendo. Se até mesmo (e principalmente) fotógrafos profissionais erram muito nas regras básicas de composição de imagem, como exigir de ou me irritar com tantas imagens que não fazem questão de me dizer nada?

Outro dia compartilhei uma foto de um bombardeio na faixa de Gaza. Achei a imagem forte, era o exato momento em que diversos mísseis chegavam num prédio e a reação de pedestres ao ver os rastros luminosos, que devem ser tão comuns por lá, foi algo que nunca tinha visto antes. Ela se apresentou por inteira, a imagem. “Isso foi“, já diria Barthes decifrando o noema da fotografia, e por ser fotojornalística acreditei não ser necessário tanto texto para suscitar aquela comoção homeopática facebookiana. É uma imagem bem composta? Está dentro de regras de composição e exposição? Não. É uma imagem mal tratada, realmente, mas é única por se tratar de um momento difícil de ser registrado e claro, estamos diante do futuro do pretérito: A foto foi tirada no passado, mas o que conseguimos pensar é no futuro daquelas pessoas. Será que morreram? Onde estariam agora? Assim é a fotografia de guerra, mesmo desobedecendo as regras de composição ela é forte o suficiente para gerar emoção. Estamos falando do “momento decisivo” de Bresson. Mohammed Abed estava lá e conseguiu a imagem, mesmo com toda dificuldade que esse ambiente apresenta pro fotógrafo.

Foto: Mohammed Abed/FP

O problema está aí. Todo mundo acha que está fazendo um registro muito foda, muito lindo, mas ninguém que eu conheça está na guerra. As imagens de Ipanema precisam hoje de técnica muito apurada e uma luz maravilhosa (mais do que a normal) para que elas se tornem inesquecíveis, não basta apenas você e seu amor e o Arpoador. Estamos esquecendo que existe uma quantidade enorme de regras, estudos e técnicas de composição de imagem. A maioria desses estudos está na rede mas ninguém que diz se importar com fotografia (amadores, profissionais e ocasionais) realmente os lê ou absorve. Pior: tem gente que tem conhecimento e é capaz de julgar o trabalho do outro sob a luz do mesmo mas não pratica em seu próprio benefício. “A teoria na prática é outra” e na fotografia isso se chama burrice.

Para subverter as regras fotográficas, você primeiro precisa dominá-las. Não adianta dizer que você quis fazer de um jeito se você não saber fazer de outro. Lógico, sua câmera vai ter limitações, mas você faz o melhor que pode com o conhecimento que tem. Sem conhecimento, a melhor câmera do mundo não serve de nada, blá, blá, blá… Isso é verdade. Um amigo meu, também fotógrafo, fica indignado com alguns profissionais do ramo por não possuírem ou utilizarem as técnicas mais simples de composição. Ora, estariam eles buscando seu próprio olhar, aquela identidade artística que o diferenciaria dos demais? Não. Técnica é diferente de olhar. Você pode fotografar muito bem e não dizer nada com suas fotos do mesmo jeito que pode fazer imagens incríveis sem técnica nenhuma, através da emoção do momento. Agora vou deixar claro: sem técnica fica muito difícil desenvolver um olhar.

Olhando para o lado, vejo os pequenos detalhes que diferenciam um fotojornalista qualquer de um grande fotógrafo, aquele que busca o melhor ângulo com a melhor luz no melhor momento. Eles estão em todos os ramos da fotografia, possuem personalidades e visões distintas do mundo, sem deixar que a técnica os homogeneízem ou impeçam de achar e desenvolver sua maneira de ver o mundo.

Acredito que 99% das fotos são pornográficas, mas não necessariamente têm sexo como tema. Elas existem mas não dizem nada, servem apenas pra que você ou alguma pessoa participe da masturbação coletiva que virou sua existência em redes sociais. Quer um conselho? Vá estudar fotografia, deixe de viagem e procure simplificar suas imagens pra que elas “falem“ o que você quer.

A arte fotográfica completa hoje 175 anos (oficialmente) e é necessário muito conhecimento na área pra que a gente comece a ver a beleza de selfies em funerais.
Camilo Lobo é fotógrafo e colaborador oficial do ORNITORRINCO.
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Publicado em 19/08/2014 por em Camilo Lobo.
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