ORNITORRINCO

AI QUE PREGUIÇA REVOLUCIONÁRIA!

“Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e beber, exceto em sermos preguiçosos”. É com essa citação tirada de um poeta alemão do século XVIII que Paul Lafargue começa seu ensaio Le droit à la paresse, “O direito à preguiça”, de 1883. Lafargue, que era genro de Marx, descreve um mundo sombrio, um lugar no qual até mesmo crianças eram jogadas em insanas jornadas de trabalho que podiam chegar a mais de dezesseis horas. O que parece um futuro distópico era o que ele encontrava a sua volta e o que podemos encontrar ainda hoje nas carvoarias do interior do Brasil ou nas megafábricas de industrializados chineses. Assim como seu sogro, Lafargue também desejava a revolução, mas achava que o caminho para ela era a preguiça.

Sempre fui um devoto da preguiça, praticando à exaustão esse pecado capital que talvez só perca em prazer para a luxúria. Sempre achei que o ócio de um domingo poderia salvar o mundo e, em me chamando Domingos, sempre me considerei o quinquagésimo terceiro guerreiro, me juntando aos outros cinquenta e dois domingos que um ano nos brinda. Encontrar alguém que tivesse pensado a preguiça de forma embasada, há quase 150 anos, foi um deleite. Lafargue considerava que a burguesia do final do século XIX usava a religião e a ética cristã para divinizar o trabalho, colocando-o como algo sagrado, como único caminho para apoiar a vida e alcançar a salvação. Uma espécie de santíssima trindade moderna que a crítica e curadora colombiana Ophelia Patrício Arrabal uma vez definiu como: trabalho pai, tecnologia filho e dinheiro espírito santo.

Para Lafargue, trabalho é escravidão do capital. Por isso a preguiça se torna um pecado capital e ao mesmo tempo a arma para combatê-lo. A ideia de uma vida dividida em terços de oito horas com um terço para o trabalho, outro para o lazer e outro para o descanso, lhe parecia uma ideia medíocre. O ser humano devia trabalhar apenas três horas por dia, deixando o resto do tempo para o descanso e o prazer. Segundo seus estudos, isso acabaria com um dos piores problemas do mundo: a superprodução.

Lafargue anteviu o quão mentirosa era a promessa de que a automação da produção nos traria mais tempo livre. Voltando à Grécia antiga ele cita Cícero, um poeta que cantou glórias ao moinho de água, pois a máquina faria o trabalho enquanto ele poderia dormir mesmo com o galo se esgoelando no quintal às cinco da manhã. Mas o moinho moía mais do que se podia consumir e desaguar essa produção dava um trabalhão.

O sonho de uma vida automatizada, com a máquina de lavar economizando tempo da dona de casa, com robôs construindo veículos automotivos, nos trouxe até aqui. Não existe medida para a superprodução, o excesso está em tudo, uma delícia de abundância que nos enche de endorfinas e serotoninas, mas nos engarrafa num turbilhão de muito mais do que podemos engolir. Produzindo mais do que se pode consumir é necessário que consumamos mais, que tudo se torne obsoleto logo, que a atualização do novo seja sempre o nosso próximo desejo.

Essa vida de excessos coloca por terra a sabedoria das redes indígenas, da sombra e da água fresca, daqueles que os portugueses consideravam preguiçosos por produzirem apenas o necessário para sobreviver. Esse pensamento tribal faz Lafargue citar, numa nota de rodapé, no melhor estilo etnografia de várzea do século XIX, uma suposta tribo de índios guerreiros do Brasil que matavam os velhos e inválidos, num gesto de afeto para com aqueles que não poderiam mais lutar, banquetear ou festejar. Não sou antropólogo e nem sei de onde ele tirou essa ideia, mas, ao citar essa prática exótica, mostra-se como muitas outras éticas são possíveis além da protestante, cristã, europeia, capitalista.

Evidente que é quase impossível voltar a um estilo de vida tribal, com população reduzida, vivendo de plantios módicos e caças esparsas, mais difícil ainda é comparar a vida nas cidades europeias, lugares frios, com brutais oscilações térmicas anuais que pedem o acúmulo nos tempos quentes para sobreviver à crueza dos tempos frios, com uma vida tribal nos trópicos, terras de abundância e uma quase monotemática estação climática. Que sentido faz ler a A cigarra e a formiga em Recife? Quando aquele inverno inclemente chegará matando a Nação Zumbi? Eles podem cantar o ano inteiro. Mas é através dessa inocente fábula que somos introduzidos à ética cristã, europeia, capitalista.

Mesmo com muitas semelhanças com o que vivemos hoje o texto contém também muitas discrepâncias. Naquele momento o consumo era feito pela burguesia que detinha os meios de produção, os trabalhadores viviam numa outra ordem dentro das distintas esferas do capital. Hoje quem trabalha para produzir também consome muito. E a tal ascensão da classe C mostrou o poder econômico de quem ganha pouco, trabalha muito com orgulho e quer ter tudo aquilo que foi sempre vendido como símbolo de status e riqueza. Viva o funk ostentação como crônica daquilo que Lafargue já antecipava em 1883.

São mesmo questões complexas, pois escrevo tudo isso num computador, ouvindo um som que sai de um ipod, com um ar-condicionado logo acima da minha cabeça, o barulho da máquina de lavar centrifugando as roupas, com o celular pipocando mensagens que ainda não li, depois de ter estacionado meu carro na garagem. Tendo tudo isso à mão, fica fácil criticar a sociedade de consumo e chegar nesse clima hippie pedindo pro pessoal acreditar na preguiça como método de trabalho. Mas mesmo com as contradições da vida pulsando em cada fibra do meu corpo, eu sinto que essa luta não é só de Lafargue e minha. John Lennon me ensinou muito com os versos: “Everybody seems to think I’m lazy / I don’t mind, I think they’re crazy / Running everywhere at such a speed / Till they find there’s no need.” Daí vê-se como muita gente boa segue essa trilha, de nosso herói Macunaíma que ficou seis anos sem falar para murmurar: “Ai, que preguiça!”, passando por Bertrand Russel e seu Elogio ao Ócio, Domenico De Masi com o Ócio Criativo e até mesmo Mario Quintana que explica o progresso pela via da preguiça dizendo que: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda. Não poderia viajar pelo mundo inteiro”.

A defesa da preguiça também tem como advogado o doutor pop Dráuzio Varella. Segundo ele, o exercício da preguiça é mais natural do que o exercício físico. “Descontadas as brincadeiras da infância, fase de aprendizado, nenhum animal desperdiça energia. Só o fazem atrás de alimento, sexo ou para escapar de predadores. Satisfeitas as três necessidades, permanecem em repouso até que uma delas volte a ser premente.” Sua tese pode ser facilmente observada no reino animal. Você não vê uma onça dando uma volta na lagoa para manter a forma. Ou um chimpanzé, com quem compartilhamos 99% dos nossos genes, correndo para perder a barriga, malhando braço e perna. “É tão difícil abandonar a vida sedentária, porque malbaratar energia vai contra a natureza humana. Os planos para andar, correr ou ir à academia naufragam no dia seguinte sob o peso dos seis milhões de anos de evolução, que desaba sobre nossos ombros.”

Todo o pensamento desse pessoal preguiçoso e mentiroso, porque no fim das contas trabalhavam pra caralho, calam fundo na minha alma. E assistindo um mundo que cada vez mais é acelerado e insano fico pensando na preguiça, numa forma qualquer de pisar no freio e tentar distribuir tudo isso que o universo nos oferece de forma mais igualitária. Outra ordem para nossas vidas que talvez não seja o desejo das três horas de trabalhos do genro do Marx. Uma revolução que seja agora mais orgânica, sub-reptícia e até preguiçosa, que de mansinho vá nos mostrando outra forma de vivermos juntos, quem sabe num mundo no qual não seja mais preciso dividir a vida em terços de oito horas, num lugar onde poderemos trabalhar, estudar, se divertir e se espreguiçar ao mesmo tempo, sem fronteiras tão rígidas entre esses entreatos da vida. Um cantinho no qual tenhamos mais tempo para produzir excessos dedicados à carne e às paixões.

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*Imagem: Ramon Casas i Carbó

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 18/08/2014 por em Domingos Guimaraens.
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