ORNITORRINCO

EDUARDO CAMPOS, 13 DE AGOSTO

Hoje, dia 14 de Agosto de 2014, tive algumas vezes ânsia de choro enquanto bebia meu café e lia o jornal. Passado o entorpecimento com a surpresa da notícia da morte do candidato Eduardo Campos, comecei a me deparar concretamente com o fato.

Diante da morte, as rivalidades se amenizam, os desafetos se tornam besteiras e as diferenças passam a ser vistas com bons olhos. Paletas de uma mesma aquarela que compõe a vida, que nos destaca das vestes negras da morte. A morte tem a estranha capacidade de resignificar as coisas.

Numa matéria no jornal ‘O Globo’, Gustavo Villela nos lembra que agosto é o mês das mortes trágicas de Getúlio e JK, da renúncia do presidente Jânio Quadros e da estranha coincidência entre as mortes do ex-governador Miguel Arraes e de seu neto Eduardo Campos, que aconteceram no dia 13 de Agosto, com um intervalo de nove anos.

Por um dia, ouvi centenas de piadas a respeito da morte trágica de Eduardo Campos; acredito que nenhuma delas valha a pena ser reproduzida. Não se trata de um respeito sacro ao morto, mas da falta de sentido e também da falta de graça nas piadas.

Acredito que o nosso sistema democrático representativo nos conduza a esse tipo de olhar: a corrupção, a injustiça social, a violência do Estado, a pequena política, a ambição irrefreada, a cobiça pelo poder. Tudo isso nos presenteia com descontentamento, desconfiança e descrença na política; nos distancia destas figuras públicas e da vida pública propriamente, haja visto que nosso dever democrático se encerra nas urnas (e minha ideia não é propor um contra-modelo, quero apenas pensar sobre o nosso).

O fato de estar em campanha presidencial transforma Eduardo Campos num “político”, uma classe de homens engravatados segregados das pessoas. Sua morte se torna um dado narrativo na história desta eleição. A política é feita pra homens de estômago forte, sempre foi assim.

Eduardo era, antes de qualquer coisa, um homem. Um jovem. Pai de cinco filhos. “A morte não melhora ninguém”, escreveu Quintana. No entanto, a morte me faz olhar para esse homem. Faz com que seus opositores falem de suas qualidades, escancara sua trajetória política, enaltece sua vida. A morte é lamentada pela presidenta, pela Casa Branca e pelo New York Times.

Há quem diga que com o seu falecimento, também morreu uma esperança de renovação política no Brasil, mas, apesar do luto oficial, o jogo continua. Não há vácuo na política, neste momento, e é bem provável que Dilma, Aécio e Marina estejam reunidos com a cúpula de seus partidos, re-organizando suas estratégias de campanha. Não os culpo, para estes, a vida segue. E, curiosamente, a morte de Campos é uma peça a mais no tabuleiro.

Rossini Viana Jr. é ator e estudante de Relações Internacionais. 
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Publicado em 14/08/2014 por em Rossini Viana Jr..
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