ORNITORRINCO

O MISTÉRIO DA INSPIRAÇÃO

Sempre que ouço uma canção muito bonita, após a) arrebatamento, b) ficar matutando em cima de algum trecho específico, c) memorizar a melodia e repetí-la – chega uma hora em que sempre penso: para quem foi essa música? Quem é a musa ou muso desse(a) compositor(a)?

E isso se estende a poemas, artes plásticas, filmes ad infinitum. Como também autora-compositora, sei que nem todas as obras têm destinatário exclusivo. Até porque a inspiração pode estar tão mesclada, que tem música por aí que envolve três paixões, uma frase que sua vó disse quando você tinha nove anos e o fato da cor vermelha te emocionar bastante. Pense.

A inspiração é um troço misterioso demais. Quantas vezes viajei para meu retiro, preparei a mesa, o violão, o que fosse, e nada saía de mim? Quantos papéis amassados com letras sonâmbulas anotei no meio de um sonho, de um pesadelo? Ó, céus das variações, como sou grata a esse caldeirão maluco que habitamos.

Mas, vez ou outra, não é retiro, nem sonho. É outro ser humano. E seja paixão carnal ou fraterna, esse outro ser humano se mexe, gesticula, fala alguma coisa, faz uma coisa que você também faz, só que de outro jeito, só que igual, e um bichinho que vive dentro da gente, ora dormindo, ora à caça, desperta. O bichinho acorda e mesmo você sendo advogado ou geóloga, você sente uma vontade louca de desenhar um coração numa folha, num guardanapo. Você formula uma frase inédita. Você rouba um pedaço do Fernando Pessoa, mas você acrescenta uma frase que o ser amado te disse. Nem precisamos ser tão poéticos. Você mistura uma frase típica sua com algum personagem do Family Guy. Você mostra para o ser. O ser cora, ri, explode de alegria, se sente na capa da revista mais bacana do mundo.

Dei para não gostar muito da palavra “musa”, pelo uso excessivo dela – mas essa sou eu, implicante com o que está em voga desde 1982. Meus pais podem confirmar. Musas eram entidades mitológicas, filhas de Zeus, aquele eterno tarado e Mnemosine, deusa da memória que jamais conseguiremos memorizar seu nome ao certo. As musas tinham a capacidade de inspirar a criatividade da galera. Tinha musa para todos os gostos. Gêneros, não. A não ser que a moçoila gostasse de moçoila. Rapazes e moçoilas que curtiam rapazes deviam louvar Dioniso ou Apolo.

Apesar da minha escolha (escolha?) profissional, sou mais do tipo tímida que prefere ter musos do que ser uma. Já ganhei músicas, desenhos, poemas, flor em guardanapo, mas sempre fico extremamente sem jeito. Mesmo sem ter questão amorosa envolvida. Lembro até do conceito budista em se permitir ser feliz. Parece besteira, mas não. Sempre gostei mais de dar presentes do que de receber. Adoro escolher, embrulhar, fazer cartão, a pompa toda. A maioria das minhas obras têm musos e musas. Vamos falar musxs, colocando a letra X na letra a, que designa o sexo, que é como o povo que gosta de acolher todos os gêneros, fala. Você já leu por aí “Delx, queridx, amadxs”? Acho divertido. (Tenho dois irmãos mais velhos, e sempre ficava encucada ouvindo minha mãe no telefone dizendo “Sim, os meninos vão viajar”, e eu tinha que entender que eu era ‘os meninos’ também, mas meu quarto foi pintado de rosa. Ó, muro das lamentações classe-medianas…)

Depois que percebi que quase toda minha criação tinha força em algum objeto de desejo, comecei a ficar obcecada para saber se todos os criadores eram assim. Em pesquisas informais (leia-se papo de botequim), percebi que não só todos os criadores também tinham muito disso, mas também pessoas com empregos onde a criatividade não é o carro-chefe da situação. Que alívio humanístico, senti.

“A felicidade só é real quando compartilhada”, escreveu Chris Mccandless (que tem sua história contada no livro “Na Natureza Selvagem”), e também Tom Jobim em “Wave”, só que de outra maneira, claro. Somos e não somos espelhos. O mais importante: somos abertos (se você não, corre que ainda dá tempo). Estar aberto significa viver a possibilidade de uma porrada na cara ou de um arrebatamento emocionante. Amoroso, carnal, passional, o que for. Qualquer arrebatamento faz o sangue circular sinistramente por esse corpinho aí que você carrega. E carrega pra quê? Pra trabalhar e pagar conta? Por favor. Sendo arrebatados e deixando o sangue circular, a força interior vem à tona e nunca fomos tão sagazes e bonitos e criativos e eloquentes. Dois patinhos na lagoa. Pathos.

Terminei de ler “E a noite roda”, da portuguesa Alexandra Lucas Coelho e fiquei excitadíssima: mil referências musicais e de culinária em cenários bélicos (Jerusalém, Gaza) e paisagens que nunca vi (Barcelona, Roma). Claro que tem uma história de amor. Claro que entre idas e vindas, gozos e feridas, cheiros e desamor, eu não conseguia parar de pensar em quem era o muso da autora. Na dedicatória do livro, nenhuma pista, só um poema. Vez ou outra rola “Esse livro é teu, Alexandre” ou “Pra você, Maria”. Obviamente que o muso da história deve saber que é pra ele. Nem sempre precisa sair na capa da revista mais legal do mundo que algo foi criado por sua causa. Só de ter o conhecimento, já dá pra andar na rua de outra maneira. Sabe gente que atravessa sinal sorrindo? Então: ou nasceu o sobrinhx, ou é musx de alguém. E sabe disso.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 11/08/2014 por em Letícia Novaes.
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