ORNITORRINCO

PARA QUE A MORTE DO MEU IRMÃO NÃO SEJA EM VÃO

Há alguns dias atrás, meu irmão, meu ídolo, minha inspiração como artista, um exemplo como pai, como marido e como homem em muitos aspectos, tirou a própria vida com apenas 35 anos de idade. Por mais triste, terrível e doloroso que esteja sendo, sinto que devo expor um pouco dessa tragédia, de tudo que aprendi e estou aprendendo com ela.

Aprendi que é muito reconfortante, dá muita força e é fundamental em uma situação como essa receber carinho. É verdade, não tem muito o que ser dito, mas saiba que qualquer abraço, olhar ou mensagem como “estou aqui; me sensibilizo com sua dor, como vc está?” faz muita diferença para quem passa por algum tipo de situação dolorosa ou de perda. Por isso quero muito agradecer aos meus parentes, amigos que me ajudaram e apoiaram. Aos conhecidos, fãs, enfim, todos que se deram ao trabalho de conseguir meu telefone ou me escrever uma mensagem, seja por Facebook, Twitter ou Instagram. Pretendo em breve responder com calma cada uma das mensagens.

Aprendi a ter mais compaixão por todos que estão aqui nesse momento no mundo comigo. O suicídio do meu irmão, aliado ao carinho de tanta gente, me fez perceber algo que pra mim já era claro: estamos todos conectados.

Tinha acabado de receber a notícia do suicídio do meu irmão por telefone e estava absolutamente sozinho e bem longe de qualquer abraço conhecido. Eu estava voltando do Vale do Capão, na Chapada Diamantina, na rodoviária de Palmeiras esperando o ônibus sair. Seriam 7 horas até Salvador. Absorto no meu sofrimento, sentei no lugar onde uma senhora de uns 50 anos estava sentada. Ela foi super grosseira comigo me enxotando agressivamente do lugar dela. Eu não revidei, nem respondi, tive uma epifania naquele instante. Percebi que tinha que ser gentil e educado. Além de não ajudar em nada ali, uma resposta na mesma vibração negativa me deixaria emocionalmente ainda pior e espalharia mais energia negativa e rancor. Além disso, eu não sei o peso que havia pro trás daquele amargor e grosseria, bem como ela não sabia do peso que eu carregava naquele momento. Não sou profeta, mas, gentileza gera gentileza, compaixão gera compaixão e a gente precisa ter mais compaixão uns com os outros, todo o mundo só tem a ganhar com isso e isso só depende da atitude diária de cada um de nós.

Aprendi a ter mais amor e a resolver hoje, não amanhã, ou semana que vem, as pendências que eu tenho na minha vida. Nunca me dei mal com meu irmão, mas ele era muito tímido e fechado. Sempre tive desejo de ser mais amigo dele, e me sinto muito feliz de ter buscado e conseguido isso antes dele morrer. Tenho certeza que este momento agora seria muito mais difícil caso não tivesse buscado essa aproximação, caso eu não tivesse dito que amava ele, caso não tivesse conversado tanto nos últimos dias, caso não tivesse falado no domingo que ele não estava sozinho e que podia contar comigo pro que quisesse e precisasse. Não deixe pra amanhã a aproximação de quem está distante de você, a fala presa na garganta, porque o amanhã pode não existir.

Aprendi um significado mais profundo de livre arbítrio. Quando alguém próximo a você comete suicídio, quase todos que conheciam a pessoa tem a sensação de que poderiam ter salvado ela, caso tivessem feito ou deixado de fazer algo. 

Isso é um equívoco pois é um pensamento que só surge diante de uma perspectiva que não se tinha antes do ocorrido. Ninguém, absolutamente ninguém que tenha o mínimo apreço pela vida da pessoa que se matou, deixaria de ajuda-la, ou de tentar convencê-la a não fazer isso, caso já soubesse que a pessoa poderia de fato vir a se matar. Além disso, ouvi diversos casos de pessoas que perderam alguém através de um suicídio que demonstram que a determinação da pessoa é tamanha que não há quase nada que a impeça de tomar essa atitude. E o fato é: não aconteceria caso ela própria não escolhesse esse caminho. 
Existem diversas razões pela qual uma pessoa decide tirar a própria vida. Um deles é a depressão. Não pretendo entrar em detalhes dos sintomas e curas desta doença, mas quero deixar claro que é uma doença séria, que precisa de tratamento, e você pode tentar alertar as pessoas da seriedade de cuidar da cabeça, fazer de tudo pra ajudá-las, mas só a própria pessoa tem o livre arbítrio de andar com as próprias pernas até o consultório. Se hoje me elogiam pela minha serenidade e clareza em um momento tão duro, aceito e agradeço o elogio, mas o mérito é da fé, do amor e da psicologia. Fé e amor são experiências pessoais minhas, mas a psicologia é uma ciência ao alcance de todos.

Assim espero que se divulgue e se fale mais de como é saudável cuidarmos da nossa mente, que se fale mais da seriedade dessa doença, que as pessoas não deixem de buscar tratamento psicológico por preconceito e ignorância. Terapia e psicologia não é frescura, besteira, ou coisa pra quem é maluco como já ouvi de gente bronca, ela pode aliviar e até salvar muitas vidas.

Escrevo esse texto com o intuito de que minha mensagem atinja o maior número de pessoas possível. Para que não só eu, minha família e as pessoas diretamente conectadas ao Fausto aprendamos algo com essa situação trágica. Exponho um pouco da minha vida e da vida do meu irmão para que você não precise passar por algo traumático para entender isso, para que essa mensagem sirva de alento para quem já passou e não superou ou para quem venha a passar por essa mesma situação, escrevo para que a morte e o sofrimento do meu irmão não sejam em vão, para tentar passar um pouco desse amor que eu aprendi a ter ainda maior pela minha vida, pela vida dos meus familiares e amigos, pela vida de pessoas como você, leitor. Ainda que não nos conheçamos: estamos todos conectados.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 05/08/2014 por em Franco Fanti.
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