ORNITORRINCO

ARTE E HERANÇA DA ESCRAVIDÃO

Sentado no lobby do hotel no Porto, em Portugal, enquanto esperava a conclusão do check in, notei uma estatueta na mesinha a minha frente. É uma pequena peça de uns 40 centímetros, um negro escravo altivo carregando uma bacia. Na bacia, o hotel oferece algumas balinhas de goma como cortesia aos clientes.

Paro pra pensar nesta figura, nesta pequena estatueta. Vem-me à mente o comentário de Spike Lee, que ao criticar negativamente “Django livre”, filme de Quentin Tarantino, dizia ser a escravidão não um faroeste, mas um holocausto. Por conta da palavra usada por Lee, imediatamente retorno minha mente para o que está à minha frente e me pergunto: e se essa estatueta fosse a de um judeu com o uniforme listrado no campo de concentração?
A resposta é óbvia. Ninguém teria o mal gosto de manter uma peça dessas à mostra como decoração – talvez num museu, como parte de um acervo, mas nunca num hotel.
Exatamente por isso, minha pergunta inicial se mantém: o uso deste tipo de artefato como decoração é questionável?
Um poderia argumentar que a peça é histórica e por isso representa um momento da história e não uma fetichização da figura do escravo. Pois sim, a escravidão faz parte da História, foi o motor e símbolo da economia colonial por séculos. E é claro, nesse contexto, muita arte foi produzida. Em muitas dessas obras, os escravos estão retratados como parte histórica da sociedade da época, em especial na obra do francês Jean-Baptiste Debret, cujas pinturas servem como documentos da opressão dos colonos. Mas passados todos esses anos, como reagir quando uma obra com a representatividade desta estatueta é usada fora do contexto histórico, como artefato de decoração de um hotel grã-fino?

Como o amigo leitor pode acompanhar na foto acima, a peça traz um homem negro forte, quase nobre, semblante plácido e cabeça em pé. E ele abre os braços para oferecer o seu trabalho e traz nos pulsos, tornozelos e pescoço argolas douradas. Os aros das correntes?
O leitor também já deve ter percebido que nessas linhas há mais interrogações que respostas. Talvez eu devesse ter questionado a gerência sobre a peça em questão. Talvez eu devesse ter perguntado à única família negra hospedada no hotel o que eles achavam do assunto. Talvez eu esteja exagerando. Ou talvez ainda não pensemos a escravidão como o holocausto de um povo, como definiu Spike Lee. E talvez devêssemos.
As questões são muitas. E não pretendo trazer verdades aqui.
A única verdade é que esta obra segue ao lado de uma taça de vinho oferecida como boas-vindas, decorando a salinha de estar do lobby do hotel Palácio do Freixo.
Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.
* Imagem do topo: Mestiço – Portinari
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 05/08/2014 por em Lucas Gutierrez.
%d blogueiros gostam disto: