ORNITORRINCO

O ABATEDOURO DO TRABALHO

Quinze para o meio dia: sinto fome. Preciso repor as energias para continuar o meu trabalho. Pego o elevador, desço ao térreo e vou até a lanchonete mais próxima. O horário de almoço, apesar de estipular o tempo de uma hora, hoje será mais curto. Devo fazer muitas coisas, não posso ficar enrolando. Tanta coisa para entregar, para fazer. Um lanche rápido e pronto, volto para o escritório. Lá, pelo menos tem café.

A rapidez estipulada pela vida me tornou uma pessoa diferente do meu instinto. Preciso, devo e necessito em excesso. Palavras estimulam o agir sem pensar. Sinto-me atordoado com tantas coisas necessárias. Fui colocado em um abatedouro, apertado, fétido, sofrendo pelas injeções dadas em meu corpo, repleto de medicamentos de estímulo muscular, precisando superar as expectativas dos outros.

São 7 bilhões de pessoas e o esperado por elas é o mesmo: agilidade. Menos é mais, e assim caminhamos, procriando, sobrevivendo, encontrando afazeres, maiores do que o permitido pelo corpo, saindo do aceitável e vivendo num sistema inabitável, fora dos padrões. Mas e a liberdade individual, o atingimento de metas próprias, reflexivas? O descobrimento do eu? Quem sabe lá na frente.

Governo, fazendeiros e população não percebem o caminho tortuoso que está ocorrendo. Dizem ser necessário para a sobrevivência da espécie, pouco importando as maneiras de atingir os objetivos. Tratados entre países, burocracia do comércio interno, atendimento de demanda, lucro, desejo populacional e, claro, fome. Em todos os exemplos enxergo atordoamento. Sinto a cada corrida um estrangulamento, uma falta de espaço, caminhando em círculos, com um chicote estalando em minhas costas a cada parada para descanso. Água? Quem dera houvesse para todos. Logo será inventado algo, dentro de um laboratório, que atinja os objetivos. A saúde? Nós vamos morrer, quem se importa?

Onde está a liberdade? A igualdade? Sou apenas mais um, mas gostaria de ser respeitado. Há quem diga que precisamos pensar no futuro e que ele vem à galope. Será? Os galopes já não são mais iguais a antigamente. Injetaram proteína, cresci de maneira desproporcional, tornando o animal numa experiência. A única coisa que faço é correr e correr, e tropeçar, cair, pedir ajuda e não sair do mesmo lugar. É fato: nunca supero minhas expectativas. Nunca conseguirei.

O respeito em relação aos seres vivos tornou-se pífio. Existe desculpa para qualquer agressão. Perdeu-se a moral e a ética em detrimento do progresso. As forças são usadas somente para acelerar a produção do rebanho, abater os mais frágeis e receber congratulações. Os seres vivos vivem perto da extinção. Mas como enxergar se o próximo passo será dado com a cabeça baixa, iludido pela ideia de superação e controlada por medicamentos, maus tratos e desrespeito? O instinto não justifica a exploração dos demais.

Frederico Nercessian é escritor e redator.
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Publicado em 04/08/2014 por em Frederico Nercessian.
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