ORNITORRINCO

MEU TRISTE AMIGO CHARLIE BROWN

Na década de 50 o cartunista americano Charles M. Schulz criou a série Peanuts, protagonizada por Charlie Brown, um garoto que, segundo os biógrafos e o próprio Schulz, seria uma espécie de autorretrato do autor em sua infância. O personagem tímido, reduzido diante das situações em que se encontra, é filho de um barbeiro que fala alemão, assim como o autor, e, também como o seu criador, Charlie Brown assume sua condição de inexperiente, de um ser em permanente processo de evolução, ainda que essa evolução seja pouco visível e que a “sorte” ou o “destino” pesem do outro lado da balança e desequilibre a ordem do universo. Charlie Brown é um garoto azarado, de quem os outros zombam por ser pequeno e um tanto ingênuo, por não achar que tem tudo sob controle, por saber que ser um “fracassado” é a regra e não a exceção.

Schulz serviu ao exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, portanto, ao criar o cidadão americano Charlie Brown, ele sabia o quanto é complicado se vangloriar de conquistas militares ou mesmo individuais, pois há sempre alguém que perde – a grande maioria perde. Para que uma equipe de futebol seja campeã em um torneio, outras trinta equipes precisam perder, é triste, mas estamos presos ao espírito dos gladiadores pelo resto da eternidade, só os vencedores sobrevivem. Por outro lado, podemos escolher de que maneira nos posicionamos diante dessa realidade. O criador de Peanuts escolheu o humor, escolheu admitir irônicamente que é humano e que pode superar as intempéries da vida sem se transformar em um mestre do revide ou da autoajuda.

Em algumas poucas tiras, Charlie Brown chegou a”dar o troco” em Lucy – personagem que o perturba constantemente –, mas essas tiras não foram publicadas. O motivo parece óbvio: o cartunista não acreditava na máxima “olho por olho, dente por dente.” As tirinhas de Peanuts nos ensinam a refletir sobre acontecimentos cotidianos que envolvem a família, os amigos, a escola, os sentimentos, mas não caminham de maneira alguma no sentido de dar ao leitor a solução para um tal problema ou mostrar a porta de saída para um conflito ou o que quer que seja. Charles M. Schulz talvez percebesse que não era a melhor pessoa do mundo para dar conselhos, estava longe de ser um guru ou um psicólogo, e sua principal criação é a resposta positiva para essa hipótese. A característica mais marcante da personalidade de Charlie Brown é a frase “Oh! Good grief!”, comumente traduzida para o português como “Mas que puxa!”, uma expressão de admiração e lamento, e é realmente um pena que um garotinho tão adorável quanto ele se veja tão inferior em relação ao mundo. Seus sonhos estão distantes, a “Garotinha Ruiva” nem o percebe; às vezes ele tenta contar uma piada, mas os amigos não entendem e ele lamenta que eles não tenham senso de humor.

Charlie Brown é um carinha realmente muito triste, e o Benito di Paula, fã do personagem, tentou animá-lo com a canção “Charlie Brown”, prometendo que, se ele quisesse, mostraria para ele as maravilhas do Brasil. Acontece que nos EUA também há maravilhas, pessoas interessantes, locais bacanas, isso existe em todo lugar, até onde menos se espera. Não era disso que Charlie Brown ou Schulz se queixava. Então, do que era? 
Não há como saber ao certo. Charlie Brown é só uma criança, e, diferentemente da Mafalda, criação do gênio argentino Joaquín Salvador Lavado (Quino), o personagem de Schulz não mergulha em questões complexas e filosóficas. Os pensamentos de Charlie Brown medem do chão até o topo da sua cabeça, são aparentemente pequenos, aparentemente individuais, aparentemente insignificantes.
Caso um leitor se aventure no tempo e acompanhe Charlie Brown, Snoopy e o resto da turma ao longo dos anos, perceberá facilmente a evolução do estilo de Schulz, as mudanças na caracterização dos personagens, a preocupação com o que é passado ao público, tudo isso será facilmente percebido. Esse leitor também vai se divertir, afinal, esse é o principal propósito de Peanuts: fazer rir, mostrar o lado cômico de situações que às vezes beiram o absurdo, e isso faz com que por detrás do riso sempre fique algo um tanto indecifrável, uma espécie de incômodo, algo que não está passado a limpo. Essa sensação se intensifica pelo fato de não haver em Peanuts um respaldo político ou ideológico que nos dê pistas do lugar aonde estamos indo enquanto lemos.
Antes de morrer, Schulz deixou claro que não queria que outros cartunistas dessem prosseguimento à sua obra. A família respeitou sua decisão, preservando a individualidade do autor e sua íntima relação com os seus personagens. Na série, Charlie Brown segue sua infância entre contratempos e frustrações, mas felizmente ele não está sozinho. Junto com seus amigos, Snoopy, Linus, Lucy, Patty, Schroeder e muitos outros, ele aprende a lidar com as situações adversas, e isso acontece ao mesmo tempo em que Charles M. Schulz aprende a ironizar seus problemas pessoais e compartilha com os leitores um olhar sempre infantil e ingênuo mesmo a repeito de coisas que ele já conhecia e contratempos já superados. Schulz disse que “se tivesse a oportunidade de dar um presente às próximas gerações, seria a habilidade para cada indivíduo aprender a rir de si mesmo”, o que ele não disse é que cada uma das 18.000 tiras de Peanuts é uma parte, ainda que pequena, desse presente.

Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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Publicado em 30/07/2014 por em Danilo Diógenes.
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