ORNITORRINCO

O CHAMADO DO BEIJA-FLOR

No último encontro dos escritores do ORNITORRINCO (sim, nos encontramos uma vez por semana, comemos lagosta em Ipanema e bebemos vinhos a partir de 369, RISOS), não sei porquê começamos a falar de depilação. Eu posso ter trazido o assunto. Ou foi a Maria? Ou foram os meninos? Dei pra perder a memória e não é velhice, é opção para poder me emocionar quando acontecer de novo. Não gastando, eu me guardo. Pois. Depilação. Lembrei do dia em que tive vergonha de ser depilada, o dia em que queria ser selvagem.

2005, mais perdida do que nunca, havia terminado meu curso de teatro na CAL, os amigos faziam testes para peças, novelas, eu achava que devia fazer algo além de interpretar ou me produzir. Tainá, grande amiga querida, que hoje em dia está há 6 meses pedalando pelo Nordeste inteiro com o amor dela, comentou comigo sobre um encontro que aconteceria na Chapada dos Veadeiros. “O Chamado do Beija-Flor”, era o nome. Minha gangue iria, eu vagava, sabia que não haveria solução sem ser a arte na minha vida, mas sair da CAL e fazer testes e testes me pareceu rápido demais, e sempre tive tendência holística, então quando soube que o encontro tinha pegada ecológica e mística, embarquei.

Chegando em Alto Paraíso, um mar de gente e barracas. Todos bem tranquilos, saias longas, aquele clima, a exata imagem que eu tinha na cabeça, acontecia. Hippies, entendia. Não aqueles cabeludinhos do Rio de Janeiro. O banheiro era um buraco no chão, onde de cócoras você cagava e depois jogava cal no buraco. Em volta de você e desse buraco tinha um tecido bem fino, e do seu lado um outro buraco, e depois outro buraco e isso era o banheiro. Pensei: “Fudeu”. Mas estava com bons amigos. Muitas descobertas, eu tinha acabado de começar a beber. Juro, fui beber tarde.

Chegamos e era preciso trocar nosso dinheiro. Reais viravam Cristais. Não cristais mesmo, a pedra, era um papel escrito Cristal. E assim eu comprava alguns doces de banana por 2 cristais. E cagava no mato vez ou outra, já que o banheiro me dava uma agonia.

A cozinha tinha um ambiente maravilhoso, hare krishnas cozinhavam na maior panela que já vi na minha vida, e que depois ajudei a lavar com meus amigos. Eles cantavam e cozinhavam, lavavam a louça e cantavam. Foi bonito isso. Mas chocólatra que sou, levei minha Nutella ou qualquer outro chocolate industrializado. Um rapaz de dread disse que aquilo era um absurdo, algo do gênero. Não cedi, disse que aquilo era muito gostoso e fui escovar meus dentes. Ele perguntou se eu queria a pasta de argila dele. Fui de Colgate mesmo.

Tinha um rio perto. As cachoeiras eram mais afastadas. Caminhadas lindas, e trocentas estrelas cadentes e muito amor. No rio que ficava perto, todos entravam nus. Eu já tirava o biquini embaixo d’água no Rio de Janeiro, porque assim nascemos e assim sentimos a água, o corpo, a água, o corpo. Mas ainda não tinha ficado peladona fora d’água. Assim, de boa, andando entre meus comparsas. Pois qual não foi minha surpresa ao perceber que apesar de querer ficar pelada, não conseguia, pois todas as mulheres que lá estavam, não se depilavam, nada. E eu, 23 aninhos, me depilava, daquele jeito que a mulher fazia na depilação, eu nem me metia muito, que absurdo. Meus próprios pentelhos! Mas na época eu entrava na cabine calada, aceitava, e pronto. E lá estava eu, doida pra ficar nua na natureza, virar bicho, mas fiquei com vergonha de ser depilada. Palmas para o roteirista. A mulherada lá linda e cabeluda. Eu só paguei peitinho mesmo, já foi bonito, já foi livre, já foi normal.

Essa mesma amiga, Tainá querida (um beijo, saudade) arrumou um romance por lá. Tainá foi a primeira a ficar pelada, a gente brinca com uma frase pra ela: “Influenciou toda uma geração”. O rapaz dela também ficava pelado, claro. E aquilo tudo era muito novo e curioso pra mim. E daí teve um dia muito engraçado que eu queria pular de uma pedra e o rapaz disse que sabia a trilha pra chegar na pedra, Tainá disse que ia fotografar. E lá fomos nós, eu e rapaz do sul, loirinho e querido. Ele na frente, sabia o caminho. De repente a trilha virou um mini rappel e quando eu olho pra frente, eu vejo o cu loiro do rapaz, as bolas, tudo ali quase na minha cara, Brasil. Demasiadamente forte para uma menina de 23 anos que estava desabrochando. Contei pra amiga, claro. “Olha, eu vi o cu do cara que você tá pegando”. Daquelas frases que a gente nunca pensa que vai falar na vida, sabe?

N’o Chamado do Beija-Flor, vi uma palestra sobre permacultura, curiosa mas muito utópica. Tentava visualizar como encaixar tudo isso na minha vida e pensava que teria que sair da cidade, só se fosse assim. Também fiz um workshop de massagem com uma galera. O professor era brasileiro, tinha uma mulher gringa, e uma filha que tinha acabado de nascer por ali, meio que isso. Era um neném fofo, eu lembro. O papo de parto natural começava a vir com força, e eu que nunca tinha questionado não ter um filho fora d’o Hospital fiquei intrigada.

Dei logo um topada no pé, pois sou estabanadíssima e me levaram na “farmácia” do encontro. Lá soube que muitas pessoas estavam vomitando e com diarreia. A pessoa responsável pela farmácia dizia que aquilo era normal, afinal embaixo daquela terra há uma enorme placa geológica de milhões de toneladas de cristal de quartzo, e isso nos afeta. Rolou até uma piada entre a gente que era “Você ainda não vomitou? Você ainda não tá cagando água? Você ainda não chegou ao Chamado”. Aos poucos fomos percebendo que o encontro era confuso, e que somos pollyanos mas que se organizar é complicado mesmo e a vida é contraditória pra dedéu e é melhor assumir do que disfarçar. Chegou um rapaz que tinha sido assaltado ou roubado. Ficou sem a mochila, roupas, dinheiro. O organizador disse a ele que ele tinha que trabalhar o desapego. Ponto. Fiquei meio incrédula. A vida não poderia ser só isso.

Nossas barracas ficavam no alto de uma colina. A primeira lua cheia foi enlouquecedora, fogueira, música, força. Tinha uma fita que dividia a terra, uma amiga botou a barraca do outro lado da faixa de Gaza. Risos. Logo reclamaram: aquela terra estava separada para os índios. Que nunca chegaram (ou chegaram depois? Amigos, ajudem minha memória?) Carol disse que a avó era índia, mas não adiantou. Paz & amor, mas saí daí! A gente delirava, nem fazia mais parte, íamos nas cachoeiras, conversámos sobre a existência, bebíamos cervejinha no pequeno povoado, eu brincava com umas crianças locais. Teve um dia que teve uma sauna, Temazcal. Experiências xamânicas. Tinha o Vinícius, menino intenso, amigo de amigos, disse que estava ali para sair do Rio um pouco, pois estava vivendo uma vida muito intensa sexo-drogas-rock’nroll e queria se limpar um pouco. O olhinho do Vini não negava que ele tinha um vício. Gargalhava intensamente, ríamos um bocado. Uns dois meses depois da viagem, ele morreu num acidente de carro, triste.

A lua foi minguando e sentimos que era hora de partir, o encontro continuaria, mas aquilo não era a gente, puramente. Meu amor pela natureza só se acentuava, a compreensão de que somos monstros se aproximava, mas o mundo é composto por luzes e trevas. Opto pela luz quase sempre, mas se o processo para Nutella ter sido feita, foi meio trevas, perdão, mundo, eu pequei. Tento ficar ligada, claro. Há 10 meses não como frango, carne vermelha como quando estou menstruada, meus produtos de beleza não foram testados em animais, minha alimentação é rica em produtos orgânicos e por aí vai. A gente tenta. Mas outras tentações também pintam e nada pode ser tão fechado, restrito e rígido. O Universo abençoe o gole de Coca-Cola que tomei hoje de ressaca. Hoje em dia gargalho pensando que as hippies cabeludas veriam minha depilação e se aproximariam de mim dizendo “Irmã, por que sofres?” Mas também foda-se se eu sou do tipo que tem nojo a cabelo (nem é o caso, mas conheço tipos, meu irmão Bernardo por exemplo, desde criança morria se eu deixasse um fio colado na parede no box) e me depilo e mesmo assim quero entrar pelada na cachoeira. Eu era nova e boba. Hoje em dia, respeito vontades, admiro bizolinhos, e tenho fases. Fases que me curto mulamba, cabeluda, um ninho no cabelo que não vê pente há semanas, e de repente do nada fico no humor de me cuidar. E digo humor, porque na boa, eu só me cuido com humor. Eu não me cuido pra ficar gostosa ou ter saúde (ok, são consequências bacanas), eu me cuido por humor. Porque acho hilário passar um creme em volta dos olhos para eu não ter tantas rugas (já tenho), e quando eu tiver 71 anos, parecerei ter 70. Só rindo. Mas passo. Estou nessa fase de passar. Daqui a pouco esqueço.

Fomos embora do encontro, rumo a São Jorge, Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, as águas termais, o Vale da Lua. Dia de Cosme e Damião mais forte da minha vida. Aí o texto fica quilométrico e o cheiro de incenso invade sua casa sem você nem pedir. Perdão. Termino então com uma recomendação real para que você conheça esses lugares, de extrema importância brasileira. Pode ficar no hotel, com privada. De boa.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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* Imagem de capa e da cachoeira: Tainá Del Negri
Imagem do Sanitário: Iuri Kothe

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Informação

Publicado em 28/07/2014 por em Letícia Novaes.
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