ORNITORRINCO

IMPEDIMENTO BRASILEIRO

O impedimento é um dos lances mais controversos da história do futebol. Ele pode tanto favorecer o seu clube quanto prejudica-lo. Lembro-me de inúmeros fatos ocorridos no decorrer das partidas e, se não fosse a bandeira do auxiliar, o resultado seria diferente. Este tempero, amargo em inúmeras situações, doce em outras tantas, contribue para o charme do futebol.

O que seria da mesa de bar se não houvesse essa discussão? Ou até mesmo a perda da razão dentro do estádio, olhando para o seu amigo e não entendendo os porquês da decisão tomada. Recordo-me de um jogo, Corinthians e Palmeiras, onde a bandeirinha anulou um gol legítimo do Timão. Das arquibancadas, pela televisão, rádio, ou até quem não pudesse acompanhar o jogo, era nítido o erro da auxiliar. E olha que ela tirou do resultado um golaço, do Tevez. Mesmo assim, apimentou a discussão entre rivais.

Mas a palavra, impedimento, pode servir para diversas outras coisas. Limitar, para ser mais exato. Impedir pessoas, gestos, articulações e atos também faz parte do vocabulário. Grave, e muitas vezes perigoso, me deparo com esse tipo de palavra sendo utilizado não somente dentro das quatro linhas, mas sim no chão empoeirado das arquibancadas, e até mesmo, nos seus arredores.

O Brasil apresenta uma cultura de impedimentos ao longo da história. Impede-se tudo quando o problema não consegue ser evitado. Medidas e critérios são instaurados e o ato de impedir, aos poucos, começa a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Recordando outro fato, deparo-me com o dia em que foram impedidas as vendas de sanduíches e cervejas na praça Charles Muller. Todo aquele cenário cativante, do samba atrás da barraca, a cerveja gelada e o pernil exalando seu cheiro, deixado de lado pela “falta de segurança” cada vez maior na cidade inteira. Impediram a continuidade da Geral no Maracanã, o Tropeiro no Mineirão, o acarajé na porta da Fonte Nova e, consequentemente, a entrada de todos os públicos nas arquibancadas!

Quando eu era criança, ou até mesmo adolescente, jogar futebol era um hábito necessário. Não precisava de muita coisa para a partida ser iniciada. Chamava um amigo, e até mesmo um “gol a gol” fazia valer a tarde. Mas 11 contra 11 era o auge das nossas brincadeiras. O posicionamento, o capitão, o ultimo a ser o goleiro e o camisa 10 eram discutidos ali, no meio do campo cheio de barro ou do asfalto desgastado, cada um com a mão no ombro do outro, fazendo da discussão uma imagem de incentivo. Nesse jogo não havia impedimento. Claro que não! A gente corria atrás da bola e deixava o futebol falar mais alto do que a regra. Como impedir 22 crianças de gritar, chutar, cair e levantar? Tá certo que em alguns casos a gente reclamava do “banheira” mas cogitar tirá-lo de campo era inimaginável.

Nesta época, crianças de até 12 anos também não precisavam pagar o ingresso para assistir os jogos no Pacaembu. Era o maior estímulo para os pequenos começarem a viver a paixão de torcedor, misturar-se com a população, podendo observar ali, pertinho dos ídolos, os lances e os dribles para usar no futebol do bairro. Esse impedimento nos estádios brasileiros só contribui para a falta de imaginação dos futuros adultos e, consequentemente, esfria os estádios num futuro não tão distante. Sendo assim, concluo com uma frase de criança esse problema: Impedimento é chato pra caralho!

Frederico Nercessian é escritor e redator.

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Publicado em 28/07/2014 por em Frederico Nercessian.
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