ORNITORRINCO

"O TEOREMA ZERO" DE TERRY GILLIAM, O MESTRE DA DISTOPIA

Como adentrar o turbilhão de uma mente como a de Terry Gilliam? Como, ao menos, tentar? Quem já assistiu à algum de seus filmes sabe que Gilliam é um daqueles cineastas que levam o cinema para outras dimensões a que o espectador comum não está acostumado. Seus filmes fogem do modelo preponderante nas montanhas sagradas de Holly/Wood que lidam com histórias narrativas baseadas em enredos novelescos, catárticos e pseudo-realistas. Não à toa, alguns críticos fílmicos o chamam de “surrealista americano”, junto à David Lynch. Sim, por mais incrível que possa parecer, nos casos de Lynch e Gilliam ainda estamos, felizmente, falando de “cinema de autor” em pleno século XXI.

“O teorema Zero” (2013) é um filme que, aparantemente, encerra um ciclo de películas/manifestos terrygillianos sobre um sentido ultrafantástico do microcotidiano humano, no sentido de descobrir que o quanto mais um homem olha para sua natureza mais recôndita, mais estrangeiro e fictício se sente. Na realidade, quase todas as obras de Gilliam seguem fios narrativos que giram em torno de um humor cáustico sobre a existência e um aparente caráter onírico e descontínuo da vida. São filmes ex-cêntricos que poderiam até serem designados de “ficções científicas” mas que, no mundo atual, já não parecem tão mais absurdos assim em um cenário onde quase nada é privado e quase toda intimidade é pública.

À luz potente de holofotes de um mundo vigiado por câmeras e distopias, o personagem principal Qohen é um homem anônimo e careca – hacker existencial – incubido de descobrir o sentido da vida através do desvendamento do número Zero, como se a existência humana pudesse ser desvendada a partir de uma fórmula matemática. Para tal incubência o buscador Qohen se isola num mosteiro franciscano em uma anônima grande metrópole futurista. Sua misteriosa pesquisa é financiada por uma empresa que controla e lucra com a domesticação do Caos a partir de um chefe misterioso e onisciente que mais parece um pequeno Grande Deus. No entanto, ao longo de todo o filme sua busca existencial vai se mostrando frustrada e ineficaz em um mundo pós-utópico permeado de pessoas descartáveis, anúncios desencontrados, sentimentos matemáticos, novas paisagens velhas, modernidades retrô, hipertextos, publicidades que atulham o mundo de informações em profusão que, por ocorrerem em tamanha profusão, já perdem logo de saida seu sentido de informar algo. Em um mundo em que nos comunicamos vinte quatro dias por hora ninguém mais tem tempo de estar só, só com seus sonhos, tormentos, delírios e imaginações.

Segundo constam alguns anais históricos, o número Zero teria sido inventado na Índia pelos védicos e hindus para designar a grande piada cósmica de um caos encapsulado na nulidade de um número material. Para os primeiros humanos que o nomearam, o Zero deveria parecer um imenso paradoxo, como houvesse então uma forma possível de nomear o nada. Tomado por similar espanto, “O teorema Zero” é mais um filme a corroborar com o doce niilismo de um mundo desolado a rodar, volver e voltar. De caos à caos, caminhamos pelos desertos abissais do real. Nós, inexplicavelmente, humanos e desmedidos a andar pelas searas de universos permanentemente em expansão. Terry Gilliam (este extra-terrestre do Minnesota) é um orquestrador de caos, um maestro de extra-polações, um regente dos precipícios que igualam tudo que é vivo num só e mesmo rebanho de flutuações. Um homem só e o caos a girar ao seu redor. Ao redor deste homem tudo seria borda; beira de abismo, encosta de ilusão, beirada de mundo, beirada de imensidão.

Augusto Guimaraens Cavalcanti é romancista,  doutorando em Ciências Sociais e colunista do ORNITORRINCO. 

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Publicado em 25/07/2014 por em Augusto Guimaraens Cavalcanti.
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