ORNITORRINCO

LINGUAS E EXPRESSÕES

A experiência de viajar para um país de outra língua costuma sempre ser estimulante, excitante e, para alguns, um grande desafio, principalmente, quando não se sabe nada da língua do lugar, nem mesmo dizer “obrigado”. E não me refiro a dificuldade envolvida em aprender húngaro, tcheco ou russo. Para o brasileiro, por exemplo, viajar pode ser uma grande aventura até mesmo quando o destino é Buenos Aires. Infelizmente, o inglês e o espanhol são aprendidos de qualquer maneira nas escolas, e essa não é uma falha dos professores, nem dos educadores, mas dos alunos que têm preguiça, que argumentam que aprender português já é muito difícil e que só não matam as aulas com mais frequência porque sabem que precisam de algum conhecimento básico para passar no vestibular.

Na Suécia a coisa é bem diferente, o jovem estudante quando chega no último ano escolhe um país da Europa para passar o verão estudando outra língua e com isso aumentar sua média e conseguir uma vaga na faculdade. Ou seja, o aprendizado de uma outra língua não é uma obrigação chata, mas uma ferramenta útil, que o guia até a faculdade e aumenta suas chances de trabalho no futuro. Quem me conta isso é Olenka, uma jovem sueca de 18 anos que quer ser engenheira e trabalhar na Alemanha quando se formar. Além dela, centenas de outros jovens da mesma idade da França, Holanda e Finlândia estão em Berlim fazendo a mesma coisa: aprendendo alemão 6 horas por dia de segunda a sexta em pleno verão.

Uma nova língua aproxima os interesses. Com ela se descobrem novas bandas, novos autores, novas comidas, novos costumes. A língua só é uma barreira pra quem tem preguiça, porque sua grande beleza é conectar lugares completamente diferentes num mesmo conjunto de referências históricas e culturais, sem que eles percam sua identidade. Por exemplo, Munique, Viena e Zurique são cidades de países diferentes, mas que falam a mesma língua. Passeando por elas é possível perceber as peculiaridades de cada tradição e ver como elas se cruzam e se entrelaçam. Esses pontos de contato estão na arquitetura, no comportamento, na culinária e principalmente na arte.

Da língua expressionista

Nos museus Lenbachhaus, Pinakotkee der Moderne (Munique), Leopold (Viena) e Kunsthaus (Zurique) encontram-se os trabalhos dos principais artistas pós-impressionistas, fauvistas, dadaístas, cubistas e principalmente expressionistas, do início do século XX. Pelos seus corredores, é possível ver os trabalhos de lendas como Klimt, Picasso, Klee, Dali e outros, mas o que mais chama atenção é poder acompanhar com detalhes os processos criativos de três artistas: Schiele, Kirchner e Kandinsky. Três gênios, que escreveram, cada um a sua maneira, a história do expressionismo alemão.

Mas, o que muitas vezes passa despercebido é que quando se diz expressionismo alemão, na verdade se está dizendo “da língua alemã“, e não “nacional”. Ou seja, esse movimento tão influente na história da arte não tem nada de nacionalista, pelo contrário, a arte criada por esses artistas não possuía fronteiras geográficas. Egon Schiele, por exemplo, era austríaco, desenvolveu sua obra ainda muito jovem, e seus auto-retratos e paisagens chamaram a atenção, devido ao uso de cores fortes e pesadas que não correspondiam a realidade. Precursor do Expressionismo, ele foi o primeiro a dar uma visão subjetiva da realidade a sua volta transmitindo a angústia do autor. A atmosfera pesada da Áustria antes e durante a Primeira Guerra Mundial encontra sua maior expressão nos seus quadros. Ironicamente, o jovem pintor morreria de gripe espanhola no dia da Anistia da Guerra.

Kirchner era alemão, nasceu numa cidade pequena chamada Aschaffenburg e em 1095, durante o período que estudou na escola técnica de Dresden, formou o grupo “Die Brücke” (A Ponte). Ao contrário do que de costume se pensa sobre a maneira como os artistas expressionistas criavam seus quadros, Kirchner não pintava rápido para “dar conta de emoção”. Ao contrário, era obcecado pelos detalhes e desenhava milhares de vezes uma mesma cena antes de começar a elaborar a composição do quadro e escolher as cores. Essas sempre contrastantes e assumindo cada vez mais uma forma abstrata e não decorativa. Os temas preferidos eram cenas comuns do dia a dia das cidades. Se apaixonou por Berlim e sua vida noturna, buscando inspiração em bares, cabarés e shows de music hall. Pintou inúmeros quadros de mulheres nuas dançando, explorando o aspecto do movimento como abstração da figura humana. Durante a guerra, essa abstração se transformaria em destruição, e passaria a se retratar como doente ou decepado em seus auto-retratos. Atormentado, Kirchner foi aconselhado pelos amigos a se mudar para Suíça.

O russo Wassily Kandinsky se mudou para Munique para estudar pintura e na década de 10, realizou com alguns colegas artistas uma visita a uma pequena cidade chamada Murnau. Lá encontraram nas cores das casas e na atmosfera bucólica os temas de uma pintura que buscava a radicalidade da cor e das formas. De volta a Munique, fundaram o “Der Blaue Reiter” (O Cavalheiro Azul) um grupo expressionista que se opunha a idéia racionalista do cubismo, e que buscava ver a natureza e o homem a partir das sensações. Anos mais tarde, com o fim do grupo em 1914 (ano do início da guerra), Kandinsky se dedicaria com ainda mais radicalidade a abstração das cores e formas, e passaria a classificar suas obras em três categorias: inspirações, improvisações e combinações. Na primeira delas, ele mantinha o ideal expressionista de pintar o mundo exterior dando uma forma subjetiva. Os temas das telas ainda podiam ser reconhecidos de alguma forma. Nas improvisações, o que passava a ser representado não era mais o mundo exterior, mas a interioridade da natureza, buscando o seu lado místico e espiritual e não científico. Um bom exemplo, é o quadro que pinta a experiência sonora da apresentação do músico austríaco dodecafono Schoenberg, em Munique. E por fim, nas combinações, o pintor desenvolveu telas em que misturava os dois conceitos anteriores. Kandinsky é a ultima fronteira do expressionismo, ele se apropria com tanta intensidade das ideias do movimento, que cria o seu próprio: o abstracionismo.

Agora, é fascinante constatar que esses artistas, que viveram e produziram sua arte durante o mesmo período, se comunicavam e trocavam suas ideias e certezas por meio de publicações, cartas, quando não, realizando exposições em lugares diferentes para apresentar o que estavam fazendo. É claro, que o motivo de tamanha pluralidade e efervescência criativa foi a comunicação entre esses sujeitos pensantes. Viajar, estudar em outro lugar, conhecer novos lugares, falar diferentes línguas, tudo isso era muito comum na Europa do início do sec XX e continua sendo até hoje.

Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação ‘No Lugar’ no Teatro Ipanema.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 25/07/2014 por em Fabrício Belsoff.
%d blogueiros gostam disto: