ORNITORRINCO

GAZA, A INDIFERENÇA MODERNA E O RESSURGIMENTO FASCISTA

A jornalista da rede americana CNN, Diana Magnay, foi afastada da cobertura que estava a fazer em Israel. Na semana passada, ela fez uma entrada ao vivo numa transmissão da rede do topo de uma colina onde israelenses observavam os ataques aéreos contra os palestinos exprimidos no gueto de Gaza.

Diana, que durante a própria transmissão já havia qualificado a situação como macabra, escreveu mais tarde no twitter: “Israelenses na colina acima da cidade de Sderot comemoram enquanto bombas caem em gaza; e estão ameaçando ‘destruir nosso carro caso eu diga algo errado’. Escória.”

Ela foi enviada para o velho novo estado inimigo dos EUA: a Rússia, antigo antro dos perigosos “comunistas” comedores de criancinhas. Mas que depois do esfacelamento da URSS, e de adotar até a medula o modelo neoliberal – com o auspício do democrático bombardeio do Congresso liderado por Bóris Yélstin em 1993 e apoiado pelos yankees –, o país transformou-se em solo aliado. Nestes últimos e recentes anos, porém, e como resultado do desastre social alcançado pela “terapia de choque” inoculada, se converteu no espaço onde passou a imperar as sequelas das oligarquias e dos grupos mafiosos – bem ao estilo da arcaica Rússia czarista – que estão virando as costas para o “oráculo/farol ocidental”.

Como estava a dizer, a repórter americana corre o risco de perder o emprego se tiver que ir de Moscou à vizinha Ucrânia para reportar a guerra civil em que está imersa este país. Porque é bem possível que em algum momento ela cite a presença de grupos fascistas em Kiev, a perseguir e intimidar russos, judeus e islâmicos, que cometeram o grave crime de terem a identidade que tem e não serem ucranianos “puro sangue” interessados numa integração de carne e unha com a Europa Ocidental.

Estes dois conflitos internacionais – que estão se desenrolando neste exato instante em meio há tantas outras situações preocupantes mundo a fora – são provas contundentes da indiferença generalizada com que o viver em sociedade mergulha e dos sinais de rouquidão do apelo por solidariedade frente aos tantos abusos que se sucedem.

Revelam o clima de incredulidade frente ao desafio de construir as alternativas de convivência social e abandonar o (res)seguro dos status, das hierarquias e dos símbolos de pertencimento a coletivos “fortes” (tudo muito bem sintetizado na figura do quase onipotente deus dinheiro) que garantem as narcísicas proteções contra tantas quanto inimagináveis intempéries e o desamor corrente.

Também demonstra a clara desintegração e o colapso da mítica lógica do progresso da humanidade assentado em lógicas de reprodução da vida social que, alheias a todo o conteúdo sensível do que desenvolvem, embrutecem as possibilidades de fraternidade entre os seres humanos e tratam de maneira predatória a utilização dos recursos (naturais) disponíveis. Tudo turbinado por uma educação e propaganda que disciplinam os corpos e as mentes para esta lógica concorrencial como a mais fundamental das mediações das relações e fundamenta o já onipresente clima de hostilidade e ressentimento, assim como as manifestações de violência, autoritarismo e infertilidade afetiva.

A afirmação de Adorno (1903-1969), o filósofo judeu, de que “Auschwitz não teria sido possível se não houvesse tamanha indiferença”, permanece uma constatação crucial já que a frieza encontra nas relações de eficiência tecno capitalistas um estímulo de motor contínuo para imprimir duráveis e perniciosas marcas na psicologia e intersubjetividade humana. Vale recordar também sua observação de que: “amanhã pode ser a vez de um outro grupo que não os judeus (…). O clima, e quero enfatizar esta questão, mais favorável a um tal ressurgimento é o nacionalismo ressurgente. Ele é tão raivoso justamente porque nesta época de comunicações internacionais e de blocos supranacionais já não é mais tão convicto, obrigando-se ao exagero desmesurado para convencer a si e aos outros que ainda têm substância. ”

Desde Auschwitz, amanhã segue sendo bastante frequente. No dia de hoje, os palestinos são o grupo “fraco”, perseguido. Mas há outros no mesmo curso, como é o caso dos bilhões de “derrotados” que não podem participar da ciranda consumista; dos russos perseguidos em Kiev por facções que não querem ouvir gente falando russo pelas esquinas, além dos insatisfeitos contra a lógica da coisificação humana que não se acomodam e seguem se mobilizando e não silenciando, como no caso da jornalista Diana Magnay e dos presos na operação “vidente” no Rio de Janeiro.

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 24/07/2014 por em Júlio Fisherman.
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