ORNITORRINCO

AGRURAS DE UM VAGABUNDO ESCRITOR

A dificuldade mais perturbadora da minha paz nos últimos anos tem sido a necessidade de trabalhar. Ter ideias nada pragmáticas e muita vontade de colocá-las pra frente por acreditar nelas e se divertir com elas: nada disso tem encaixe fácil na lógica da remuneração. Até agora não consegui configurar meus planos inúteis na teia mercadológica. E me desespero porque não me enquadro. Antes de ser justo ou honesto, é urgente ser prático e focado. Pior, é preciso sobreviver a tudo.

Um adolescente que goste de equações pode estudar matemática, investir seus esforços na carreira acadêmica e seguir como professor e pesquisador. Por outro lado, se sua ideia mais forte, por exemplo, é tirar fotografias em casa, e se essas fotos não têm valor artístico nem jornalístico, então o que se pode fazer? E se ele também gosta de escrever, tenta emplacar textos em revistas no esforço de juntar talento & remuneração, mas nunca consegue?
Minha vida está ancorada em fracassos, e a curto prazo só me resta falar sobre eles.
Contas, comida, transporte – sobreviver custa muito. Mas se sua inclinação tende a algo inútil e os seus esforços em vender o produto da sua inclinação não dão resultado financeiro suficiente? E se você tem pressa em se realizar e não aguenta mais vender o seu tempo pra outras finalidades enquanto a chance de se dedicar àquilo pelo que você vive míngua, míngua, míngua?
É por isso que o sustento tem sido a maior questão na minha vida desde que precisei me sustentar pela primeira vez. Estou de frente para essas questões. Tudo o que gosto de fazer é vagabundar, encontrar meus amigos, ler, às vezes escrever e fotografar. Semana que vem talvez meus interesses mudem, antes que eu tenha tempo de me tornar especialista em um deles.
Por que eu não passo um ano trabalhando de padeiro? E no ano que vem presto serviços de jardineiro? E depois uma temporada como caseiro num sítio? E mais pra frente volto a escrever, trabalho por um ano como escrevente e vendo meus textos? O que é que nos segura aqui e não ali, onde tudo o que queremos se realizaria? E por que parece tão difícil se tornar outra coisa ou se libertar da obrigação carreirista pra finalmente viver de adubar as ideias que se têm, por mais vagabundas que elas sejam? No mínimo, eu teria de encaixar cada uma dessas ideias em “projetos” e inscrevê-las em editais. É uma via possível. Mas por que não podemos ser apenas livres e desleixados? Por que afinal flertamos tanto com a ideia de liberdade, se ela nos é tão aprisionante e nos deixa obcecados ao invés de livres?
O padrão de vida dos nossos tempos não suporta qualquer ocupação. Se você tem um aluguel a pagar, se você usa gás de cozinha, se acende uma luz à noite, se precisa pegar um transporte pra se consultar com um médico, se precisa comprar comida, se vive numa metrópole – então você fica preso. 
“Bem, o problema é seu, o caminho quem tomou foi você.” Ok, mas o tipo de mundo em que nascemos não foi escolha minha nem sua, as experiências que testemunhei não foram decididas por mim. Aquele papo de uma borboleta bater asa aqui e o mundo se modificar acolá é bastante alegórico, mas pouco verossímil.
Minha preocupação agora consiste em ser capaz de me dedicar completamente ao que me é legítimo, não importa o quanto minhas ideias sejam inúteis. Minha dificuldade é administrativa, e esta questão é tão urgente e nebulosa que toma a frente de todas as outras, e eu já ando sem vontade de fazer nada.
— Não mande seu texto pra essa revista, normalmente são eles que convidam. 
— É melhor você segurar o seu livro inédito, hoje em dia são as editoras que entram em contato com os escritores.
— Essa coisa de mandar originais às cegas queima o seu filme.
Bem, então o que me resta? Se eu devo continuar fazendo tudo por conta própria, não posso abandonar meu emprego, afinal quem iria bancar as minhas refeições? E ai de mim se gastar dinheiro nesse autopatrocínio, porque não haverá ninguém além de mim pra cobrir o desfalque no meu salário.
Afinal, por que é tão impossível me dedicar ao que quero? Se eu não precisasse de dinheiro, talvez nem me preocupasse com a divulgação do meu trabalho. Talvez, com tempo livre, me voltasse às raízes do fazer por fazer, e me transformasse num zen.
— Tenta uma vida que não conte tanto com o dinheiro!
— Que tal plantar legumes em casa pra colher e comer? 
Eu não pratico isto por uma razão simples: o tempo que preciso para me dedicar ao meu trabalho remunerado não permite que eu me entregue aos cuidados necessários à agricultura de subsistência. Pois certamente o que eu plantasse na quitinete em que moro não me nutriria por completo e não pagaria meu aluguel, e então eu teria duas opções: ou trocar com alguém uma parte do que colhi – eu teria que achar um sujeito disposto a isto –, ou comprar os demais ingredientes de uma dieta saudável – e aí novamente precisaria de dinheiro.
Tenho a impressão de que muita gente hoje defende um ideal de vida mais vinculado à troca e à autossustentação. Eu mesmo sou muito simpático a esse ideal, e sinto me aproximar dele quando fico mais crítico do outro extremo, do consumo e do design de tudo. O que não se pode ignorar nessa proposta é o quanto ela exige de dedicação e de conhecimento. Quem levanta essa bandeira precisa ter o que dizer quanto a isto. Ainda não passei por nenhum pedaço de chão nesse mundo em que o dinheiro não se fizesse necessário em alguma instância.
A imagem de um homem vazio tem aparecido pra mim como um ideal válido, ainda que em choque constante com a lógica urbana e os hábitos civis. Quem sabe o exercício de esvaziamento não nos ajude a ser menos presos ao nosso ideal de liberdade? É possível e interessante viver com o mínimo e se desfazer cada vez mais de livros, panelas, estantes, roupas, mesas. 
Ao esvaziar-se, o homem fica aberto a acreditar e recebe as coisas sem precisar distinguir o que é bom do que é ruim. Ele é atravessado pelo que há de mais puro e imediato, ele testemunha os acontecimentos mais banais e nota que esta é a sua dádiva. O homem vazio não exige distinção entre falso e verdadeiro. Tudo é acontecimento. Um fato no mundo, ao ser testemunhado por um homem vazio, é como uma semente que, em seu abandono, está disposta a inspirar um crescimento, basta que a terra lhe seja hospitaleira, assim como o acaso.
O ideal do homem vazio é consolador, mas agora eu olho ao meu redor e vejo trabalhos pra entregar, ponto eletrônico pra bater, uma saúde mental por sustentar, o futuro, a falta de estrutura financeira, não posso fechar portas profissionais, meu vale-refeição acabou semana passada, minha mãe me pediu 50 reais. Por ora, continuo aqui, ativista da marmita e conectado às redes sociais por vício & escape, até que uma leitura de poema ou twitter em flagrante me leve à demissão. Acho que vou me mudar pra um quarto ainda menor e mais barato. Preciso diminuir meus custos. Estar vivo tem seu preço.

Thiago Barbalho é escritor e editor da Revista Rosa.
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Informação

Publicado em 24/07/2014 por em Thiago Barbalho.
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