ORNITORRINCO

ABRAÇANDO PEDRAS

Hoje eu dei uma abraço no Antonio. Uma coisa que eu não achava que conseguiria fazer, dei um abraço no Antonio.

Minha namorada ficou de passar na minha casa antes de ir pro trabalho, pra deixar umas coisas e disse que ia me acordar com amor. A gente briga de uma a três vezes por semana, geralmente às quintas às 21h ou algum outro horário de nossa escolha, de preferência bem tarde da noite. Sou irônico aqui pra deixar claro que tenho uma relação longe de perfeitinha, é bem truncada, mas quando se ama é muito amor também. Adoro ser acordado com amor. Acho que todo mundo gosta. Até o Antonio deve gostar.

Fiquei meio dormindo meio acordado na cama esperando, cheio de amor pra dar e receber. Ela entra no trabalho às 10 horas, quando vi já eram 9h45 ouvi o barulho do elevador ainda deitado. Me levantei rápido e fui pra trás da porta pra dar um amor surpresa lateral pra minha namorada. Não era ela. Liguei, não deu pra ela ir e já estava no trabalho. Então decidi que tinha que fazer alguma coisa produtiva com aquele amor.

Tem uma história que li que fala do discípulo que foi reclamar com o mestre: “Mestre, eu tenho tentado de várias maneiras, mas não consigo falar com Deus, como faço?”, e o Mestre muito mestrosamente: “Em vez de me pedir o telefone de Deus, seria melhor você desocupar o seu telefone, porque Ele tenta ligar para você direto, mas tua linha tá sempre ocupada”. Um guru desses aí, fala que o coração é uma central telefônica. E não é a central escrota tipo a da TIM, mas uma que sempre tem linha disponível para atender quem liga, só que quem escolhe desocupar as linhas somos nós.

A gente poderia estar aberto para dar muito mais amor do que dá. Por que a gente não distribui mais amor? De graça, sem querer nada em troca, nos dias que a gente tem pra dar. Difícil, né? As pessoas dizem que acreditam no amor, mas quando você oferece amor grátis, elas desconfiam, debocham e duvidam.

E se existe um lugar de incredulidade encalacrada no amor é o carnaval.

No meu último carnaval solteiro em 2011 eu saí pintando todo mundo e abrindo chakras pacas. O quarto chakra é o do coração, do amor. Quando você abre o peito e abre seu chakra, rapaz, tem muito amor pra dar ali, se você quiser. Pra mim começou assim, fazendo yoga, abrindo o peito e indo pro carnaval. Parece contraditório, mas não é.

Eu fazia uma brincadeira muito séria, que não era balela, para beijar 700 bocas até porque a brincadeira sempre repelia as mulheres, que me achavam muito louco, apesar de eu estar bem são do que estava fazendo, que era a seguinte:

— Você deixa eu te amar por 30 segundos? — Sabe quantas mulheres se deixaram amar?

Até a quarta feira de cinzas, quando uma mulher se deixou amar. E o mais legal da história é que essa mulher também tinha sua frase de carnaval que repelia homens. Em resposta à pergunta escrotinha “deixa eu te beijar?”, ela falava:

— Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã? — Sabe quantos quiseram beijar ela?

Até que a gente se encontrou no Baixo Gávea na quarta-feira de cinzas.
— Você deixa eu te amar por 30 segundos?
— Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã?

A gente olhou no olho, não falou nada, se abraçou forte e se beijou gostoso. Ela é a minha namorada que ia vir me acordar hoje.

Tem um exercício que li num livro do Osho que é pra você praticar e cultivar o sentimento do amor incondicional, pelo simples fato do sentimento dentro de você, que te faz mais feliz e você irradia isso e isso se irradia e isso é bom pra todo mundo. Ele fala pra você sentar ao lado de uma pedra e ser amoroso com ela, beijar, abraçar e fazer carinho. Melhor fazer isso sozinhho porque senão parece meio ridículo e coisa de hippie, mas funciona ao ponto que você cultiva tanto amor que transborda. Lógico que não sou assim o tempo todo, mas hoje estava com esse amor transbordando pra dar pra minha namorada que vinha me acordar e acabei repassando pro Antonio.

Sim, o Antônio. No dia que eu estava fazendo minha mudança pro prédio onde moro, discuti agressiva e violentamente com o Antonio, pois ele conseguiu me emputecer muito e dificultar minha mudança. O Antonio é um dos porteiros mais ranzinzas, de mais má vontade pra trabalhar que eu já vi. Tudo que é regra do prédio que ele puder usar para complicar tua vida, ele usa. Antonio me parece um cara amargurado, sempre olhando pra fora da portaria de cara fechada, como se fosse um passarinho preso na gaiola, um escravo do próprio destino. Ele resmunga alguma coisa tipo “Béah” que considero que é ele respondendo bom dia quando eu dou bom dia.

Hoje Antonio tava em pé na frente da portaria com a sua tradicional cara de ânus. Depois que minha namorada não veio me acordar, desci até o térreo, me aproximei e falei:

— Antonio — ele virou — dá um abraço aqui.

Dei um abraço surpresa nele. Ele ficou meio constrangido, arredio e sem entender, eu também achei meio estranho, mas foi a primeira vez que vi o Antonio abrir um sorrisão.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 23/07/2014 por em Franco Fanti.
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