ORNITORRINCO

À PROCURA DE UM AMOR PLATÔNICO

Meu primeiro amor foi um garoto do colégio, bom de bola, péssimo na escola, completamente diferente da menina nerd de trancinhas e óculos fundo de garrafa, ainda muito infantil, que eu era. Num dia de verão, quando eu estava arrependida de ter ido de shorts para escola, quando estávamos prestes a começar o futebol, ele me disse que eu tinha pernas bonitas. Ah, mas a paixão é engraçada. Olhando para trás agora, fico me recriminando por ter caído por algo tão barato assim.

Depois veio outro, ainda do colégio, que me deu um amuleto de gatinho japonês e disse um dia, sem mais nem menos, que ia me acompanhar até em casa. Tentou conversar comigo no curto trajeto, mas eu não disse nenhuma palavra. Estava com o coração saindo pela boca, tremendo até os ossos. Quando chegamos na minha casa, ele me ajudou a abrir o portão e entrei rápido sem dizer tchau, sem virar para trás, sem chamar ele para entrar. Entrando no meu quarto, peguei uma caixa de chocolates que tinha ganhado naquela semana e jurei para mim mesma: se ele se oferecer para me acompanhar amanhã, eu daria os chocolates para ele. Fiquei o dia inteiro pensando na saída, mas nunca veio uma segunda chance.

A visão da cabeleira loira foi o que veio primeiro. Não sabia seu nome, sua sala, nem gostava muito de loiros, mas o encanto foi instantâneo e brutal como todas as paixões o são em seus primeiros dias. Com as facilidades da internet, foi fácil conhecê-lo até onde eu estava disposta a conhecê-lo para não destruir a minha imagem idealizada. Ele era poeta. E não importava o quanto eu já havia ouvido falar sobre a sua canalhice, ele era poeta, poxa.

Ela tinha a cabeça raspada, no começo, e não usava sutiã nunca. Ao longo do ano, os cabelos cresceram, mas se mantiveram curtos e rebeldes. Vestia-se displicentemente e não acho que serei testemunha de um caos mais belo do que ela. Se atrasava para todas as aulas, faltava, metia-se em confusão e parecia sempre um pouco sonolenta, tranquila, mas, ao mesmo tempo, ciente de seus encantos letais. Pensei que tínhamos cruzado olhares uma vez, mas enquanto me mantinha presa à sua imagem, ela olhava para a janela atrás de mim.

Perdi anos com esses seres humanos, ganhei olheiras, fiz brotar lágrimas de olhos que se esforçaram para se mostrarem indiferentes a vida toda, mas não abri a boca. Vou ficar amando os mortos mesmo, é mais seguro. Não exige fidelidade, nem primeiro passo. Me beija, Johnnny Cash, me chama de sua, Françoise Dorléac, segura minha mão, Kafka. Fred Astaire, casa comigo.

Amélia Nakamura é estudante de História.
* Imagem do topo: Ona Trabal

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Publicado em 23/07/2014 por em Amélia Nakamura.
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