ORNITORRINCO

O CORPO QUE CAI

Quando um bebê quase cai, eu sinto um gelado muito forte no meu corpo. Começa no cu e se instaura na barriga, lance voraz. Os bebês escapam de quinas e nem sabem disso. A gente congela o rabo, estômago e a própria espinha. E eles andam crentes que já sabem fazer isso há anos, não vacilam. Balançam, mas vão destemidos. Sinto saudades de andar assim nas ruas. Vacilando, mas temerária. Bebês miram um objeto de desejo, a bola, o cachorro, o embrulho do presente e migram, pá! A gente arregala o olho e samba perto para evitar uma tragediazinha. Não lembro a última vez que tive um objeto de desejo à minha frente e parei hipnotizada e caminhei até ele, arrastando minhas poucas gordurinhas, não tão gostosas como as dos bebês. Não lembro desse dia na minha vida. Não houve vestido-numa-vitrine ou homem-em-pé parado que me fizesse voltar a usar fraldas.

Falo muito da infância e não peço perdão por isso. Sou fascinada, não confundir com nostalgia. E não é egóico. Se você me falar que achou o caderno da alfabetização da sua vó, terei a mesma curiosidade que tenho com o meu. Outro dia coloquei minha camisa ao contrário. Ri um bocado, pois lembrei que em criança devo ter feito isso muitas vezes. Não lembro de uma cena exata, mas só o fato de me lembrar, já me emociona. Já vale.

Estou achando a vida rasa. E não sou dessas que sonha em se mudar para a Europa. Também raso. Se pudesse me mudar, gostaria de outra galáxia mesmo. O preço da existência está me assustando um bocado. Tanto a couve no mercado da zona sul, quanto a vida – seja da empresária, seja a do pedreiro –, o preço está exorbitante. O preço está fora da alma, fora do corpo. Chega uma hora que chega, não? Pra mim chegou. Permaneço, mas internamente liquidou.

Vejo meus sobrinhos, os filhos dos amigos, minhas priminhas e fico feliz com a coragem audaciosa e o amor supremo – sempre ele, em colocar um ser humano nesse planeta. Eu ainda devo. Gostaria muito, mas não sei se será nessa vida. As quinas de mesas, que tanto temo perto dos primeiros passos infantis, crescem incontrolavelmente e viram lanças quase malígnas de ódio e horror. E aí não tem tia ou vó que consiga sambar por perto e evitar o choque.

Dei para me preservar, dei para me guardar porque nós estamos todos brincando de viver. Não pode ser isso. Assim. Presto atenção e deliro, opto pelo sistema de sobrevivência – o delírio, mas até ele já está me fazendo um pouco mal. Se estou aqui, não posso estar em Saturno. Posso, até posso, mas a exigência física da Terra também chama e é preciso pagar contas.

Envelhecer tem sido bonito, apesar dos horrores, a preservação amorosa e fraterna que cultivo me ajuda a acordar. Aos poucos vou esquecendo da minha criança, essa parte dói um pouco, e até comecei a chorar agora, mundana que sou.

Nosso pisar ficou mais firme. Andamos nas ruas fingindo que sabemos aonde estamos indo. Ao banco, à um encontro, ao restaurante, ao trabalho. Somos firmes, até esbarramos, às vezes “desculpa”, às vezes “que cara mal educado”. Ando de um jeito muito particular, devia ter usado botinha, não sei. Piso pra dentro. Não, não é de modelo. Tento abrir os pés para fora, mas deve ser temor, e não consigo, miro o dedão pra dentro e piso. Não que ande com medo, meu porte me vale alguma elegância ou falsa força, mas inconscientemente estou achando a cidade pura lama. Areia movediça. Das mais lentas. Fosse rápido, talvez preferisse. Puro caos. Essa laminha que lentamente nos imobiliza e nos faz ficar feliz comprando couve cheia de veneno por um preço nojento, está me embrulhando o coração. E o que eu achava que era ansiedade, virou um bicho vivo dentro da minha barriga. Mas sem ser um bebê. Bicho abissal mesmo.

Sempre achei curioso meditar. Minha mãe, que é meu “Personal Buda”, medita. Pessoas já tinham me indicado, eu fugia, mas aos poucos fui inventando uma meditação e acho que todo mundo deveria. Se você achou um mestre, que bom, mas sempre tive problemas com hierarquia, risos (mais choros, mas ainda assim, sempre risos). A velocidade me assusta e quando percebo, eu mesma, já virei um monstro.

{Se falo muito de amor, é porque sempre tive muito ódio no coração [não sei se consigo explicar, mas você sabia que o John Lennon antes de ficar deitado na cama pedindo paz & amor, bateu na mulher dele?] se o serviço militar fosse obrigatório para mulheres, eu teria medo de mim (o amor me salvou, se você me acha mongol, é opção, lhe garanto, posso tentar conversa mais acadêmica e elaborada e teorias e análises, mas optei ser a mongol do amor), a cidade alimenta meu ódio e cada um ajuda como pode, se não fui nas últimas manifestações, me preservei e protegi aos outros, deusas sabem do que sou capaz, estou costurando uma pele muito fina com uma lã muito grossa no peito}. Daí inventei uma meditação que consiste em coisas que só cabem à mim, pois dinâmicas não se passam, modus operandis são únicos, e há quem encontre semelhantes, grupos, mas o que é bom pra mim, só é pra mim, pois essa vida é pura alquimia.

Para me ajudar com meu medo de altura, Lucas uma vez me disse para eu imaginar que se eu caísse, a queda seria em câmera lenta. Toda vez que me aproximava de um lugar muito alto e já me doía os dentes o nervoso da cena que eu projetava – caindo, de fato me acalmava quando eu me impunha uma nova velocidade. Estou caindo. Ok. Mas estou em câmera lenta. Não vai ser PÁ, porrada no chão. Eu delirava. Tinha esquecido dessa imagem. Vou voltar. Regressão natural em prol da sobrevivência com paz de espírito. Sou um bebê. Devo cair eventualmente. Mas vai ser em slow motion, Universo.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 22/07/2014 por em Letícia Novaes.
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