ORNITORRINCO

A CULTURA DA VIOLÊNCIA

Paris, maio de 1968, um jovem sorri diante de um policial no meio de uma explosão de manifestações populares. Uma das fotos mais emblemáticas daquela época, um sorriso diante do opressor. Uma imagem forte de um embate entre violência e invenção. O estudante e ativista Daniel Cohn-Bendit ri, gostosamente, na cara dos que o agrediam. “Ah! Em Paris é mole, queria ver na Maré!” diz o estúpido que acredita que a violência contra a pobreza se justifica.

Rio de janeiro, 2014, uma câmera de uma viatura de polícia grava imagens do planejamento de um crime brutal. “Ah, mas aqueles meninos jogados do alto do Sumaré eram mesmo ladrõezinhos” diz o reacionário idiota de plantão. O mais impressionante é ver a tranquilidade e a certeza da impunidade nos rostos dos PMs e a ideia de que, fossem os meninos ladrõezinhos, mereciam ser executados. Dez minutos cruciais do vídeo desapareceram, mas um dos menores sobreviveu e testemunhou contra os policiais. Sinistro ter que contar com o acaso para descobrir ações tenebrosas que são diariamente praticadas.

A cidade segue sua batida frenética, uma mulher vai ao banco na porta de casa e é assassinada ao ser roubada na Gávea. “Ah! Mas ela reagiu” diz sem jeito o imbecil que quer fingir que tudo lhe é alheio e distante. O que assusta é ela levar a culpa, na naturalização da ideia de um crime bárbaro, como se uma reação diferente a pudesse ter salvado.

Enquanto a violência vem dos criminosos fardados e dos sem farda, todos largados no meio dessa miséria humana que nos cerca, o estado imagina uma forma de pacificar as ruas.

Numa manhã qualquer vinte e três ativistas recebem mandado de prisão, expedido por conta de supostos atos criminosos que ainda cometeriam. Philip K. Dick, escritor americano de ficção científica, autor de Blade Runner, escreveu isso no conto Minority Report – que virou filme nas mãos do Steven Spielberg. Seres humanos, conhecidos como Precogs, têm o poder de prever o futuro visualizando crimes e passando as informações para a polícia que impede os crimes de acontecerem. A taxa de criminalidade cai drasticamente, tudo parece muito bom na superfície, mas o próprio policial que prendia os criminosos, através do sistema de antevisão, descobre que cometerá um assassinato. Sua vontade de transformar o futuro o faz descobrir uma série de “relatórios minoritários”, documentos que mostram divergências entre a previsão dos Precogs, o que acaba mostrando a existência de vários futuros em potencial e não apenas um único, como julgava essa divisão anticrimes manipuladora e ditatorial.

No Rio de Janeiro de 2014 é assim, vinte e três pessoas foram presas por crimes que supostamente iriam cometer. Precogs estão nos quadros da PM e do Ministério Público agora. A internet, e tudo que aparece escrito nela, vira uma receita de um futuro que alguém quer se arvorar do direito de impedir que aconteça. Um futuro que é vendido como um tempo único, cheio de violência e medo, para que acreditemos que deva ser interrompido.

Durante a corridinha matinal do pessoal do Batalhão de Operações Especiais o pessoal escuta: “Homens de preto qual é sua missão? Subir favela deixar corpo no chão”. Tomando por base a prisão dos ativistas acho que esse canto de guerra é o suficiente pra prender todos esses soldados do BOPE.

A importância das manifestações de junho de 2013 é imensa. Elas trouxeram à pauta questões que antes eram pouquíssimo comentadas nas esferas municipal, estadual ou federal. Um exemplo simples é ver como a mobilidade urbana, ponto crucial para o início das manifestações, virou agora um ponto central nas propostas de um monte de candidatos que estão pedindo nosso voto por aí.

A vontade do estado de criminalizar organizações sociais e políticas transformando-as em quadrilhas é mais um caminho de uma política coercitiva que vai da UPP e chega ao MP. O policial não teme matar, o ladrão não teme matar. Mas quem sai às ruas para lutar por direitos sofre sanções pesadas. Mais surrealismo sobre a realidade. As prisões arbitrárias de ativistas, que não têm acesso nem mesmo aos processos, são de ordem política e não criminal. Esse é o maior crime.

Sinto o cheiro da violência mesmo dormindo. No papel que estampa manchetes nas bancas de jornal quando acordo, na sede de vingança dos que querem a morte dos “bandidos vagabundos” durante a tarde, na brutalidade policial durante a noite, na violência do Estado criminalizando ativistas na madrugada.

O que fazer? Devemos buscar outro caminho. Não acredito na violência como uma via para combater a violência. A ideia de pensar militarmente uma revolução, mesmo no meio de nossa democracia precária, não me atrai. Quero estar o mais distante possível do policial assassino, do ladrão violento, do juiz que quer cercear a liberdade de manifestantes e das práticas militares. Mas é fundamental que sejamos livres para exigir nossos direitos. Precisamos de novas mentes, novas ideias, um novo caminho que fuja dessa cultura da violência que se alastra por todas as esferas. Outro pensar que nos aponte estradas de cooperação, diálogo e invenção.

O sorriso de Daniel Cohn-Bendit, diante do policial agressivo, é pra mim inspirador.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Imagem: Yasuyoshi Chiba/AFP

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Publicado em 22/07/2014 por em Domingos Guimaraens.
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