ORNITORRINCO

NOTAS SOBRE JOHN E GENA

Vamos falar de outra coisa.

O poeta Ismar Tirelli Neto esteve em Araraquara em companhia dos irmãos no último mês, terminando seu próximo livro. Caminhando pelas ruas dessa cidade que desconheço, ouviu uma transeunte ao telefone, segundo ele, “sem muito alarde, mas com voz firme, audível, articulando bem”, dizer:

– Eu quero o divórcio.

Love Streams é o último filme de John Cassavetes. Numa das cenas, a personagem de Gena Rowlands, Sarah, está diante de uma juíza, de seu advogado, de seu ex-marido (interpretado por Seymour Cassel), do advogado de seu ex-marido e de sua filha de 12 anos. O propósito do encontro é resolver as pendências do divórcio. Sarah ainda ama o ex-marido, tanto quanto ama sua filha. Ela ama a sua família que já não a admite porque Sarah tem problemas psiquiátricos. Num último suspiro de esperança, a personagem de Gena diz ao personagem de Seymour: 

– Não vamos nos separar. Eu já quase não estou mais maluca.

Os personagens que Cassavetes escreve para Rowlands sofrem quase todos do mesmo mal: amar demais. Vide Mabel de A Woman Under The Influence, talvez o filme em que Gena esteja mais bela de todos os longas de seu marido. Desamparada, de trejeitos caricatos, com longos cabelos louros despenteados, sorrindo e berrando, repleta de tiques de desespero. Sem filtros. Linda. Amando integralmente Nick, o personagem de Peter Falk, que também a ama inconsequentemente. O casal tem três filhos que só inspiram desamparo ao longo do filme. Parecem não caber na relação do casal, não caber naquela casa bagunçada. O amor é uma alegria dolorida. Um bem horrível, como diria Domenico Lancelotti, uma sucessão de intensidades aleatórias, como diria Maurice Pialat.

No primeiro filme de Cassavetes, Shadows, acontece o inverso do último filme. Talvez a frase mais marcante da película seja a da personagem interpretada por Lelia Goldoni, com olhos marejados e o peito cheio de angústia, após perder sua virgindade, de costas para o seu parceiro amoroso,  ela diz “Nunca pensei que poderia ser tão ruim.” John Cassavetes me parece ter sido um desses homens intensos, tomado pelas suas paixões, do início ao fim da vida, como Mário de Andrade pelos cigarros e pelos textos. Por conta disso, pensando no contraponto entre Love Streams e Shadows, um dos grandes ensinamentos de John é provar que o começo pode ser muito mais doloroso, melancólico e desamparador do que o final. Se para a personagem de Lelia o início de sua vida amorosa é um vazio aterrador, para a Sarah de Gena o final é um entupimento de amor, uma esperança mortal de que devemos doar tudo a esse sentimento avassalador. Perder a consciência, o dinheiro, o rumo, a razão, mas continuar sonhando até o final abrupto da vida. Os finais são mais completos e maduros do que os começos.

John e Gena começaram a namorar quatro anos antes da gravação de Shadows. Diz a lenda que John se destruía de ciúmes por ela. Diz a lenda que eles brigavam todos os dias pelo amor do outro e que esse foi o pacto que fizeram para manterem-se juntos até o dia da morte de Cassavetes, no dia três de fevereiro de 1989.

Sarah, de Love Streams, vai ao psicólogo e explica, de frente para ele, que o amor é uma corrente que nunca cessa. O psicólogo responde seco “Ora, mas é claro que acaba.” O psicólogo é interpretado pelo irmão de Gena.

John Cassavetes na abertura da série televisiva Johnny Staccato, na qual ele interpretou o personagem-título, aparece saindo de prédios, carros e becos com ar jovem e esbaforido. Jovialmente inconstante, em busca da volátil solidez que a relação com Gena proveria. John parecia um homem alto, mas não era. Na realidade ele abaixava o queixo e encarava todos com seus olhos faiscantes, onde ele guardou toda a sua potência, desde Johnny Staccato até Love Streams, filme em que é notável sua debilidade física provida pela cirrose hepática que o mataria poucos anos depois. Seus olhos e sua risada diabólica eram a resposta corporal de que ele ainda estava lá pelos seus filmes e por Gena.

A poeta Matilde Campilho mora em Cascais e outro dia escreveu que o rosto de Gena Rowlands não tem ligação nenhuma com o tempo físico. Michael Ventura, que acompanhou as gravações de Love Streams em Los Angeles, disse o mesmo. Disse que Gena tinha uma espécie de campo de força impenetrável enquanto se concentrava para entrar em cena. Todos a olhavam de uma distância respeitosa. Ventura disse também que Gena era a mais amável de todas no trato pessoal. A mais carinhosa e a mais reservada. Diz a lenda que Gena aprendeu durante dez anos a tocar piano e ninguém nunca soube, nem John. Um dia John chegou em casa e ouviu ela tocando uma peça lindíssima e perdeu o controle: 

– Como assim você está tocando piano?! O que está acontecendo!? Isso não tem cabimento! 
E os dois ficaram dez dias sem se falar. Quando voltaram, nunca mais tocaram no assunto. O amor é uma luta de todos os dias. Até o final redentor da vida.
Mariano Marovatto é escritor, cantor, compositor e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 21/07/2014 por em Mariano Marovatto.
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