ORNITORRINCO

CONVERSA COM DOSTOIÉVSKI E OUTROS FANTASMAS

Estar sozinha em uma cidade grande é a melhor coisa que inventaram nos últimos tempos. Eu inventei isso desde que comecei a frequentar as cidades grandes. Foi a melhor coisa que inventei. Estar sozinha em uma cidade grande é estar rodeada por rostos estranhos que não me obrigam a encontrar assunto, nem é preciso sorrir quando a conversa me entedia. Estar sozinha em uma cidade grande é ficar na minha melhor companhia sem que ninguém se importe com a minha companhia.

No café da Rua XV estou acompanhada da última cena que acabei de ver na sessão das 14hrs, no shopping do centro. Não sei se foi uma epifania, mas vim de lá para cá com uma sensação de dever cumprido, acertei no programa de segunda à tarde, aliás, estar desempregada em uma segunda à tarde foi a melhor decisão que tomei desde o último dia que trabalhei, sexta passada. Nunca estive desempregada, sempre achei que seria um fracasso, que bobinha, está sendo uma experiência incrível. Talvez isso aconteça pelo fato do desemprego ter acontecido por livre e espontânea vontade, poder ir ao cinema em uma segunda à tarde e pagar um café na Rua XV. Deve ser coisa de classe média – tá na moda citar a classe média, melhor fazer essa inclusão, pode melhorar o rankeamento no Google. 
Ontem estava conversando com Dostoiévski e ele me disse que a consciência exagerada é uma doença. Ainda me assegurou que as pessoas comuns são aquelas que têm consciência suficiente para não chegar ao limite da insatisfação. Fui levada a concordar com ele. Estou pensando em ser comum. 
A consciência exagerada das emoções me levou a perder a razão daquilo que sempre prezei, ficar assim, só comigo. Resolvi ficar sozinha pelo fato de já ter abraçado a paixão, ter sentido ao mesmo tempo o ódio e o amor – achei que fosse transtorno bipolar afetivo. Foi bom, não nego, estar absurdamente apaixonada é um sentimento agridoce, parece um mousse de limão, doce e azedo. 
Hoje não faço mais nada, não que não sinta nada, não me entenda mal, só não faço nada por espontânea preguiça. Agora sou uma preguiçosa. Não fico insatisfeita com objetivos inalcançáveis, nem com perguntas mal respondidas ou respostas de perguntas mal feitas. Espero sem a ansiedade dos jovens, nem a falta de tempo dos velhos. Vivo em uma cidade grande, às vezes sento em uma padaria qualquer e peço mais um mousse de limão, com café para viagem, por favor.
Aline Vaz é professora e escritora.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 21/07/2014 por em Aline Vaz.
%d blogueiros gostam disto: