ORNITORRINCO

VIDA E PAIXÃO, DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

A professora da quarta-série distribuiu livros entre os alunos, alguns ganharam “Minhas memórias de Emília”, de Monteiro Lobato, outros ganharam “A árvore que dava dinheiro” de Domingos Pellegrini, eu e mais alguns ganhamos “Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel” de João Ubaldo Ribeiro. Tudo o que fizemos naquele momento foi olhar as ilustrações no meio dos textos, alguns, me lembro bem disso, trocaram os volumes entre si pois tinham simpatizado mais com a capa ou com o título do livro do colega, a professora falou alguns minutos sobre o Lobato, sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, depois a manhã seguiu como qualquer outra.

Chegando em casa mostrei o presente pra minha mãe: “legal”, ela disse, e continuou a lavar roupa. Dei uma folheada nas páginas brancas, gostei (gosto até hoje) do cheiro do livro novo, é algo único. Olhei de novo as ilustrações, fechei o volume, guardei numa gaveta e fui jogar “Super Mario”. Mais tarde, quando o sol estava baixo, o pessoal da rua se reuniu pra jogar bola. Fui com eles. De noite, na hora de dormir, eu já nem lembrava que tinha ganhado o livro do João.

Quatro anos se passaram, eu tinha catorze agora, curiosamente a mesma idade de Geraldo, o protagonista de “Vida e Paixão…” Durante esse tempo bati o olho no livro muitas vezes, arrumando o quarto, mudando as coisas de lugar, mas nunca vinha a vontade de ler e saber do que se tratava, sempre tinha tanta coisa pra se fazer na rua, tantos jogos pra se jogar no videogame. Mas num dia em que nada me animava e eu sofria de dor de cotovelo, resolvi abrir o livro e encarar aquele monte de palavras enfileiradas que deviam falar do que eu sentia. Ele cheirava a poeira agora, tinha orelhas, estava meio capenga de tanto pular de uma gaveta pra outra, os grampos que prendiam as páginas estavam enferrujados. Logo nas primeiras páginas percebi que não largaria aquele livro até que ele chegasse ao fim e quando ele chegou ao fim percebi que não o largaria nunca mais.

Geraldo era meu mais novo amigo, um cara bacana, esperto, sentimental, que, igualzinho a mim, tinha medos e preocupações. O seu alter ego, Pandonar, o Cruel, se tornou também o meu herói. Passei a falar dos personagens do livro nas conversas cotidianas, não importava o assunto, eu sempre dava um jeito de citar algum acontecimento do enredo, emprestava o livro pra quem se interessasse, mesmo tendo medo de perdê-lo, contava os dias pra que me devolvessem logo eu pudesse emprestar a outra pessoa, e depois a outra e mais outra. Queria que todos no mundo lessem, queria que todos conhecessem o Geraldo, queria que o Geraldo existisse pro maior número de pessoas possível.

Quando emprestei o livro a um amigo chamado Rogério, no dia seguinte, ele não falou em outra coisa, parecia íntimo dos personagens, senti um pouco de ciúmes; mas achei legal, pedi o livro de volta e ele me disse que tinha emprestado pra irmã, voltei pra casa preocupado, eu começava a achar que estava perdendo algo pessoal, algo que me pertencia não como um objeto mas como parte de mim. A essa altura “Vida e Paixão de Pandonar, o Cruel” não era mais um livro, era parte do meu organismo, da minha personalidade.

Rogério e eu criamos uma história em quadrinhos para o Pandonar, mas ela nunca chegou a ser desenhada. Depois descobrimos que havia outros livros, outras histórias tão boas e encantadoras quanto a do Geraldo, conhecemos “O grande Mentecapto”, “Dom Quixote”, “Robinson Crusoé”. Mas isso não me impediu de sentir saudades. Um dia perguntei onde estava o “Vida e Paixão…” e o Rogério disse que não sabia, que não podia me devolver. Tudo parecia acabado. Não me passava pela cabeça que aquele era apenas mais um exemplar da história, uma simples cópia de outras tantas impressas pela primeira vez em 1983 e reimpressas várias vezes desde então.

Também não me passava pela cabeça quem era João Ubaldo Ribeiro, o homem que tinha dado luz àqueles personagens e àquelas situações. Com o tempo eu soube quem quem ele é, soube dos outros, muitos outros livros que ele escreveu, soube da sua importância para a Literatura Brasileira e Universal. Mas soube, acima de tudo, de sua importância para mim e para tantas outras crianças e adolescentes que descobriram através de “Vida e Paixão…” as maravilhas que podem existir dentro de um livro. João Ubaldo Ribeiro morreu aos 73 anos, em 18 de Julho de 2014, mas sua vida, sua paixão, vão ficar para sempre: um monte de palavras enfileiradas que vão entrando devagarzinho na alma da gente.

Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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Publicado em 19/07/2014 por em Danilo Diógenes.
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