ORNITORRINCO

BOEING 777 MALAYSIA AIRLINES

A história do mundo se constrói todo dia por todos nós, atores. E as guerras são recursos que, acionados, fazem esse roteiro seguir, contribuindo com turning points para a narrativa, criando heróis e ciclos, escolhendo os protagonistas dos próximos capítulos. Ler a história do tempo presente enquanto ficção, enredo da nossa existência na Terra, é só o que nos é possível e eu espero chegar a essa conclusão ao fim desse texto.

Argumento

Nas últimas 48 horas, o mundo está passando por uma reviravolta. Um míssil antiaéreo é disparado pouco depois das 2 da tarde e tem como alvo um avião que está a 10 mil metros de altitude e a 900 km por hora. A mira é uma aeronave militar que adentra o espaço aéreo no leste da Ucrânia, zona de conflito entre Kiev e Moscou, patrocinador de rebeldes separatistas que pedem a anexação da região da Criméia ao território russo. Nas horas que se sucedem ao incidente, a CNN anuncia que o avião era, na realidade, um avião civil: um Boeing 777 da Malaysia Airlines, a mesma companhia que teve uma aeronave desaparecida em março de 2014 com 238 passageiros a bordo. O voo MH17, que ia de Amsterdã para Kuala Lumpur e teve fim em solo ucraniano, carregava 295 pessoas, entre elas 108 pesquisadores da Aids, a epidemia que desde 1981 matou 33 milhões de pessoas no mundo. Com o respaldo dos Estados Unidos, a Ucrânia se torna o epicentro da Parte II da Guerra Fria.

Episódio 1

17 de julho de 2014. O repórter da CNN Anderson Cooper entra no ar para uma breaking news: oficiais militares americanos afirmam que o avião da Malaysia Airlines foi abatido. Baseados em imagens não divulgadas de um radar americano que mostra o rastro de um míssil seguido de um sinal de calor e o sumiço do voo MH17, os americanos acusam a Rússia, que tem fronteiras a 50 km do local da queda, de fornecer o sistema antimíssil a combatentes ucranianos.

Em um telefonema para o colega ucraniano, Petro Poroshenko, o presidente americano, Barack  Obama, oferece o apoio de seu país. A ligação dura 30 minutos e é fotografada pela assessoria de comunicação da Casa Branca, que envia nota de comprometimento do envio de funcionários do National Transportation Safety Board (NTSB) a Kiev em regime de urgência. Passaram-se apenas 15 horas desde a queda. As investigações começam no local, que está tomado por jornalistas, curiosos, cinegrafistas amadores. Enviados ao campo verde onde agora pesa uma tragédia, os repórteres denunciam o descaso de autoridades ucranianas, que não isolaram a área. Vídeos no YouTube mostram corpos, engrenagens, objetos pessoais e passaportes. Sophie Charlotte, nascida em 2001, é um deles.

Episódio 2

18 de julho de 2014, Kiev. O ministério da Defesa da Ucrânia lança uma nota em que responsabiliza rebeldes separatistas pelo o que o governo chama de “ataque terrorista”. No texto, a Defesa ucraniana diz acreditar se tratar de um sistema antiaéreo conhecido como Buk. Desenvolvido na União Soviética na década de 70, o Buk é uma arma complexa, composta por três veículos: dois deles transportam, cada um, quatro mísseis de cinco metros de comprimento e o terceiro conta com uma cabine de comando e uma radar.

Diretor de Projeto de Defesa e Inteligência da Universidade de Harvard, o militar aposentado Kevin Ryan, é consultado ao longo do dia por diversas redes de notícias. O especialista, um veterano polêmico, afastado do cargo na organização Underwriters Laboratories por fazer afirmações incriminadoras sobre as vigas de aço usadas na construção do World Trade Center, confirma, de sua sala de paredes condecoradas em Harvard, que os mísseis disparados pelo Buk são mais do que capazes de derrubar um Boeing, a ponto de não precisarem atingir o alvo. Basta que sua ogiva, com 70 quilos de explosivos, seja detonada nas proximidades da aeronave para que a tripulação não note a ameaça até o momento do impacto. No entanto, tamanha operação não poderia ser orquestrada por combatentes, muito menos por apenas um, como a CNN sugeriu, enquanto escrevo. É necessário ser um exército para ostentar medalhas como um sistema de mísseis anteaéreos.

Na ONU, o Conselho de Segurança se encontra reunido em caráter de emergência ao final do dia. Os EUA acusam o presidente russo, Vladimir Putin, de ter suas mãos sujas de sangue – metáfora frequente entre chefes de Estados.

Enquanto o Ocidente à paisana tenta dormir, o Rio de Janeiro tem um pesadelo coletivo e Israel segue na sua incursão por terra à Faixa de Gaza, o local onde o Boeing 777 da Malaysia Airlines se encontra é alvo, agora, de saques. Funcionários de equipes de resgate são vistos fazendo selfies ao lado de todo tipo de destroço. A denúncia é feita por jornalistas da Austrália, país que é sede da conferência internacional sobre a Aids este ano.

Episódio 3

18 de julho de 2014. A Rússia exige provas. Vice-ministro da Defesa da Rússia, Anatoly Antonov – um homem de 1,90 metros de altura, nascido em 1955 no Omsk, na extinta URSS, cobra evidências de Kiev e do mundo, que se encontra reunido em Manhattan.

Quem também cobra ação são os filhos de Joep Lange, um dos maiores especialistas em Aids no mundo. Pai de cinco filhos, Lange estava a bordo do MH17 com a mulher. Fundador da “PharmAccess Foundation”, uma organização sem fins lucrativos que busca a quebra de patentes e o acesso a medicamentos por pacientes soropositivos em países em desenvolvimento, Lange se foi junto com 107 outros cientistas, numa explosão que durou 40 segundos, segundo especialistas em armas de guerra ouvidos nas horas seguintes ao fato.

Rapidamente, em fóruns de discussão na internet, um outro nome ligado a Aids voltou a aparecer. Robert Gallo, o homem que em 1984, o ano que George Orwell antecipou, anunciou a descoberta do vírus que ele chamou de HIV e patenteou o teste para identificá-lo.

As patentes são o ponto em comum entre os dois incidentes envolvendo aviões da Malaysia Airlines nos sites de teorias conspiratórias no vasto pasto da internet. O desaparecimento dos quatro outros membros da patente de um microchip no voo MH370, em março deste ano, fez de Jacob Rothschild o único dono. Conhecido como IV Barão Rothschild, Jacob é membro da família Rothschild de banqueiros. Com origem em Hamburgo, na Alemanha, a família judia estabeleceu uma dinastia bancária na Europa e ganhou o título de maior fortuna privada do mundo no século XIX.

Fim

A guerra está só começando. Ou está só continuando. Podemos colocar todas essas peças de lado, jogar fora essas imagens e esses predicados na lixeira digital onde os anos 2000 estão sendo arquivados. Mesmo que lancemos uma lupa só sobre o microcosmo – a zona de conflito na Criméia, a rivalidade histórica entre a Casa Branca e o Kremlin – o que fica é o papel narrativo desses fetiches para a manutenção do mundo da forma como ele é hoje, infelizmente o único mundo que a gente vai conhecer.

Desvendar a origem do míssil ou o mistério do primeiro avião da Malaysia Airlines não nos revela a verdade do tempo presente. A história é mais complexa, a história feita por seres humanos, é feita de mentiras. A história é ficção.

Clara Cavour é documentarista e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 19/07/2014 por em Clara Cavour.
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