ORNITORRINCO

A DERROTA QUE GANHA

Não dá para não falar da seleção brasileira e da “catástrofe” que se deu nessa Copa do Mundo de 2014. Nós tínhamos vontade e esperança, precisávamos desse título, depois de tanta angústia, de tanto medo, achando que o país não teria condições de organizar o Mundial. Bem, o país teve, mas, o principal não foi organizado, o futebol. Tudo o que o governo queria é que nós ganhássemos, quem não queria? Então seria uma festa. Ficaríamos desligados ao menos até as eleições, e quem sabe não nos esquecêssemos do fato de que, de tudo o que prometeram para a Copa, apenas os estádios ficaram prontos e algumas poucas obras de infraestrutura e urbanismo se concretizaram, outras ainda estão na reta final, atrasadas, é o caso do viaduto que desabou em Belo Horizonte. Ainda assim, eu ficaria feliz com o Hexa (e acredito que muitos outros também) e torcia de verdade por Oscar, Fred e pelo resto da moçada. Gostaria que ganhássemos, mesmo que não merecêssemos. Pelo trabalho e pela organização ao lidar com o futebol, muitos mereceriam o título mais do que nós, inclusive os EUA, país que a cada ano se apaixona mais e mais pelo Soccer e que tem utilizado de maneira encantadora os espólios da Copa realizada por lá em 94.

Mas nós perdemos, e o pior, saímos da Copa de maneira “vergonhosa”, “humilhante”, como fazem questão de afirmar e reafirmar todos os jornais da Via Láctea. O que torna esse trauma mais difícil de ser superado. Já dizia o velho ditado: “Quanto mais alto, maior a queda.” Esperávamos muito, queríamos muito, era nossa grande esperança de alegria nesse ano conturbado, repleto de feriados, greves, manifestações.
Mas sempre acreditei que, no esporte, e em outras áreas da vida, até mesmo os que perdem ganham de alguma forma, desde que não se deixem abater. Devemos cultivar nossos jardins, sim, Voltaire tinha razão, precisamos ter nas mãos ou por perto o que nos é agradável e belo, e a vitória sempre é. Mas quando deixamos de enxergar na derrota a humanidade que existe em nós, regida pela compaixão, que só não opera nas emoções dos psicopatas, devemos também questionar nossa capacidade de ajudar alguém que precise de nós ou nossa capacidade de ajudar a nós mesmos. Sentir-se envergonhado, sentir-se humilhado por conta de uma derrota não só no futebol, mas em qualquer esporte, revela no ser humano o sentimento de uma inferioridade que muitas vezes, quase sempre, não existe. Não falo do jogo em si, dentro de campo, o futebol brasileiro foi inferior ao de muitas equipes que participaram do torneiro, mas isso não significa que nossos jogadores, nem o nosso técnico sejam seres humanos desprezíveis, dos quais devemos nos envergonhar. Precisamos aprender a ganhar mesmo perdendo, para que não aconteça casos como o da criança que atirou pela janela seu álbum de figurinhas da Copa e disse que não iria mais à escola depois da derrota brasileira por 7 a 1 na partida contra a Alemanha nas semifinais. Para que o filho do atacante holandês Robben não chore mais como chorou ao ver o time do pai perder contra a Argentina, mas para que ele aplauda e se orgulhe do jogador que certamente está entre os que melhor se apresentaram no torneio. 
Dom Quixote, o mais querido fracassado dentre os personagens da Literatura já nos ensinou essa lição, a de que pode haver beleza, poesia e valor em ser derrotado. Cervantes pintou as derrotas do Cavaleiro da Triste Figura com humor. E o poeta, crítico e ensaísta Marco Lucchesi, em capítulo dedicado ao Quixote em sua livro “A memória de Ulisses”, diz que “a derrota no Quixote atinge o sublime. E como soa estranho nos dias atuais, de insossas vitórias curriculares, e nanotriunfalismos, apontar o sublime da derrota.”
Os jogadores brasileiros eram onze cavaleiros andantes tentando vencer um gigante ilusório, à procura de uma glória ilusória, que nós construímos para eles e obrigamo-los a conquistá-la, para desentortar os tortos, para salvar a nação e as crianças, simplesmente ganhando um torneio de futebol. Mas perderam, o gigante atirou-os para longe, estraçalhando suas lanças e deixando-os contorcidos. Foi uma derrota sublime, mas preferimos nos envergonhar dos nossos atletas, e vaiá-los ao final das partidas, do que ajudá-los a se reerguer, a montar outra vez no cavalo e seguir para novas aventuras, tristes, engraçadas, comoventes.
Danilo Diógenes é estudante de Literatura. 
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Publicado em 17/07/2014 por em Danilo Diógenes.
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