ORNITORRINCO

DESCONECTAR PARA CONECTAR

No princípio, era o verbo. E nada me emocionou tanto nesses últimos dias do que essa frase – uma frase bíblica. Quando me deparei com ela, foi como se eu quase conseguisse entender tudo – existir, essa coisa louca. Senti vontade de ler o texto todo, mas não tenho a bíblia e antes que pensasse em achar uma versão digital dela para ter mais dessa faísca que a frase me provocou, eu já tinha esquecido o assunto.

Recentemente, passei uma semana desconectada. Quem imagina algo assim nos dias de hoje? Ok, sei que gostamos de pensar que já passamos pela fase “cabeças penduradas” e estamos procurando um jeito de nos desvencilhar do digital. É hype ser off agora, quem diria. Só que não costumo pensar nisso. Gosto do meu super-telefone. Gosto que meus pais tenham um também, levando a comunicação entre nós a um nível que vai além da voz, acho até que estamos nos comunicando melhor sem nos ouvir o tempo todo, o que me faz pensar que a voz não faz mais jus à palavra. Nem sempre dizemos o que queremos e escrever parece ser mais fácil. Por quê será?

Bom, foi nesses dias sem 3G que compreendi o que aquela frase bíblica quer dizer. E não foi por ter feito mais contato “humano”, como pede o clichê. Foi mais pelo contato “universal” mesmo; por sorte eu estava no meio do Cariri, com outros barulhos e estímulos e bichos e sentidos e seres. Um lugar que conheço muito bem, tenho que dizer. Uma paisagem de pedras, cactos, marmeleiros e baraúnas que fala tanto sobre mim e comigo, com tantos outros sons, com uma dinâmica existencial completamente distinta daquela que estou (estava) acostumada que o insight me pegou de jeito.

Enquanto escrevo este relato me preocupo em não parecer mais um desses textos hippies sobre a fuga da cidade ou sobre como se é mais feliz no campo. Eu não acredito nisso, gostaria que ficasse claro. Ou talvez acredite um pouquinho: se não na mudança física, na entrega mental – não na fuga mental, mas em uma espécie de elevar a nossa atenção. As armadilhas são tantas, né?

Ao chegar lá, na fazenda da minha família materna, me preocupei em dizer oi para os símbolos da minha infância. Eu achei que ia adentrar naquele ambiente e ia esperar um tempo até que me sentisse ali de verdade. Que nada. Cheguei, e o cheiro de tudo já era o cheiro de casa e rapidamente passei o olho e continuava tudo ali, como se o tempo não houvesse passado. E não passa mesmo. Parece que lá, as horas estão fazendo o mesmo que nós: estão a contemplar os milhares de movimentos de tudo que nos cerca. Fazer o café da manhã, sair para uma caminhada ou cavalgada, admirar a beleza simples do sol batendo na água do açude, ou ainda, poder ver um bando de beija-flores, escutar um bando de beija-flores.

O silêncio da natureza é muito mais caótico do que imaginamos e é nesse ponto que a cidade nos aliena. Não é que ela seja opressora por excesso de estímulos, é que ela é repetitiva no que nos mostra dia após dia. As redes sociais. As liquidações. O último modelo de telefone. O networking. O corpo da vez. A festa que não se pode perder. Ser alguém. Ter.

Lá, no meio do mato, eu tinha um telefone e, sem sinal, usava-o bastante para tirar fotos. Essa foi a função dele. Mas teve um dia que sai à cavalo com minha mãe e resolvi não registrar. Resolvi que era um dia para carregar nada. Foi o melhor momento da viagem e não tenho o que possa, um dia, ser objeto de recordação. Eu e minha mãe juntas, em um passeio mágico, fazendo caminhos incertos por dentro de uma fazenda vizinha. Minha mãe a contar histórias de família, tão linda e jovem… Nós duas ali, nos conectando de verdade, daquele jeito que dá vontade de ter uma fotografia para guardar. Não temos. Mesmo assim, está tudo fresco, jamais esquecerei. Eu estava pronta para isso, para estar completa. E quem está inteira não esquece.

Então a hora exata que me senti atenta e conectada de verdade foi em uma brincadeira de imaginar que os barulhinhos da escuridão eram fantasmas. Quando estávamos todos juntos, unidos pelo medo e pela curiosidade, rindo de nervoso e chorando um pouco pelo excesso de adrenalina, eu entendi, relembrei, me coloquei no princípio de tudo. Finalmente saquei o que é o amor.

Marília Valengo é redatora.

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Publicado em 16/07/2014 por em Marília Valengo.
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