ORNITORRINCO

SABER PERDER

A gente perdeu feio. Ninguém esperava. Mas quando alguém entra em uma partida pensando: hoje eu vou jogar pra sofrer uma linda derrota de 7×1, e amanhã quero perder de 3×0? É inocente não cogitar isso porque por mais que você seja do país do futebol da única seleção penta campeã que participou de todas as Copas, por mais que você seja o pica das galáxias, o Chico Buarque, o Justin Bieber o Brad Pitt ou a puta que o pariu uma coisa é certa: Você sempre pode sofrer uma derrota e inevitavelmente vai sofrer várias.

O brasileiro tem uma esperança linda, apesar de infantil, ingênua, quase burra. Existe esperança baseada em fatos e existe esperança de um milagre. A do brasileiro é essa segunda, meio mística, macumbeira, supersticiosa, que acredita que Mick Jagger e usar cueca repetida pode ganhar ou perder jogo. Esperança essa que não é muito concatenada com fatos e realidade. Milagres acontecem? Sim, e aconteceram nessa Copa. Por exemplo quando o Brasil tomou uma bola no travessão aos catorze do segundo tempo da prorrogação contra o Chile só pra citar um. Mas milagres só são milagres pela raridade que ocorrem, senão seriam rotina e não milagres.

O que se esperava ao querer que o Brasil ganhasse da Holanda ou da Alemanha ou qualquer grande time dessa Copa eram praticamente milagres, era essa esperança mística baseada em fatos nada concretos. Analisando tática, fria e imparcialmente, estava na cara que o Brasil não tinha time pra ganhar das grandes seleções dessa Copa. Basta comparar jogador contra jogador, ou coletivo contra coletivo, ou em termos de esquema tático, enfim, não dava. Às vezes um time tem um craque, como Neymar, que decide jogo e faz milagre. Mas mesmo assim, no futebol de hoje, uma andorinha só raramente faz verão. Mas a esperança é a última que morre né? Mesmo quando ela é essa esperança ingênua. O preço a se pagar por uma esperança ingênua é uma surpresa enorme, é a revolta, é a lágrima perplexa diante de uma derrota, mesmo quando ela era iminente, o preço é não saber perder.

Eu mesmo fui um que no início acreditei muito, acompanhei fielmente, torci apaixonadamente e por um instante fiquei um misto de surpreso, perplexo, com raiva, querendo achar culpados do Brasil estar perdendo de 5 x 0 pra Alemanha (nem era de 7 ainda). Isso quase se repetiu no Brasil perdendo de 2 a 0 da Holanda (nem era 3 ainda) e eu me conscientizei e optei por não sentir mais a raiva burra que estava sentindo. Não sou um Buddha, mas diante do estímulo “Brasil sofre derrota jogando mal” que me irritou, eu tenho opções de como reagir a isso que não são obrigatoriamente ter raiva. E assim me toquei de como essa raiva quando a gente perde é infantil, é não saber perder.

A primeira coisa que acho maravilhosa das nossas derrotas, que é muito característica de brasileiro, é essa nossa facilidade, agilidade e senso de humor de fazer piada da desgraça. O problema é que é um “rir pra não chorar” e não um “rir pra superar”. Porque mesmo com as piadas sinto que a derrota abala a autoestima de muito brasileiro bocó. Os bares vazios, milhares de pessoas tristes, chorando, revoltadas com muita raiva. Essa derrota é um retrato do nosso povo em campo, o Brasil não tem jeito, nem pro futebol a gente serve, ouvi essas frases idiotas derrotistas várias vezes. O que significa de fato perder de 7 ou de 3? Significa que eu ou você ou qualquer brasileiro é menor ou incompetente? Significa que nosso país é menos? O que tem a ver o ânus com as calças? Pra mim significa que 11 alemães e 11 holandeses jogaram melhor, estavam mais entrosados e mais bem preparados que 11 atletas brasileiros nesta partida de 90 minutos em 2014.

Concordo que o Brasil não só perdeu. Perdeu de forma humilhante, ridícula, jogando mal e amarelando em casa. Concordo também que futebol é mais do que “apenas futebol”. No caso do Brasil onde o futebol é parte do universo de representações culturais que o brasileiro têm de si mesmo, uma derrota de 7×1 justo na parte a gente se acha muito foda, é uma facada no rim. O maior vexame da história das copas, dizem. Mas aí eu digo: Existe maior oportunidade de aprendizado que um vexame? Tem melhor forma de crescer do que depois de uma humilhação? Depois do ridículo?

Falo de futebol, mas a real é que como qualquer outro acontecimento fora ou dentro do nosso controle: é a gente que determina na nossa cabeça a interpretação dos fatos e o que eles significam na visão única que cada um tem de mundo. E é por isso que eu digo que a raiva diante de uma derrota é um sentimento burro, é falta de recurso pra reagir diferente. Afinal tem alguém no universo que gosta ou acha legal sentir raiva? Alguém que curte ficar triste e no fundo do poço?

É quase impossível assistir e não se irritar sendo um apaixonado por futebol como eu. Mas não é a toa que também dizem que a paixão também é um sentimento infantil, adolescente e burro às vezes. A raiva diante da derrota é um sentimento apaixonado, é não admitir que o outro foi melhor que você, não aceitar que seu time foi pior. Por que ao invés de vaiar os nossos ou a si mesmo, a gente não aplaude e aprende com quem ou o que nos derrota?

Alguns sentem raiva de si mesmos diante da derrota. Acho ainda mais burro porque é não aceitar que você falhou, que você falha e vai falhar mais, é ser implacável demais consigo mesmo e em certa medida não se amar. Digo não se amar porque uma derrota não é uma catástrofe geral da sua existência, ela por si só não te define, como você reage a derrota sim te define.

Porque a derrota em si faz o que com a gente? Irrita? Entristece? Uma derrota diminui? Uma derrota não faz nada, quem faz é você. É você que pode abaixar a cabeça, se achar menor, se revoltar e se irritar. Depois de perder você tem a oportunidade de superar suas deficiências ou de ir pro fundo do poço. A escolha é sua.

Uma primeira forma positiva de olhar uma derrota é imaginar que sempre, sempre, sempre poderia ter sido pior. Ela podia ter dado pra outro cara na sua frente, você podia ter perdido tudo na sua aposta, e a derrota do Brasil podia ter sido de 7×0 pra Argentina…. Na final.

E depois sempre tem a hora de procurar o culpado pra derrota porque é sempre assim: o culpado é o Felipão, é o Fernandinho, é o Fred, é o Zuniga, é o caralho a quatro. Culpado pela derrota somos cada um de nós, se a gente não sabe assimilar o golpe, se a gente não entende que somos nós sim os culpados por como a gente reage a cada vez que a gente perde.

O negócio é que todos só queremos ser campeões em tudo, ostentar sorrisos, vitórias e títulos, difícil conhecer quem já levou porrada. A gente quer ser o único a vencer sempre e isso não é o futebol nem a vida. Não é não sentir ou ignorar que perdeu. Mas ter consciência que um 7 x 1 é sempre possível, bem como é reagir de forma diferente e usar a derrota como uma catalizador pra crescer.

Tento agradecer a todas a provas que não passei, todas as mulheres que me esnobaram, todos os jogos que perdi, a todos os nãos, a todos os 7×1 da vida que eu sofri, agradeço a todas as minhas derrotas. Nada ensina tanto quanto perder.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 15/07/2014 por em Franco Fanti.
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