ORNITORRINCO

RECUPERAR A DANÇA E O SORRISO DO FUTEBOL BRASILEIRO

“E quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias
de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”
— Eric Hobsbawm

Não vi jogar a seleção brasileira de futebol de 1982. Ela perdeu a Copa na Espanha. O título ficou com a marcação italiana que, diferente de nossa formação, não encantou o mundo. No entanto, a partir daí, como já foi apontado, começou a valer o discurso dominante de que o importante era vencer. Vencer nem que seja de meio a zero, nas palavras de nosso craque atual. Como se a vitória representasse toda a verdade sobre os fatos e como se apenas a vitória pudesse afirmar a auto estima que o esporte para tantos mimetiza.

Agora que perdemos com este futebol sofrível, achando que bastava vestir uma camisa amarela e o estereótipo (no que ele tem de falso e de verdadeiro) que nos colocam e nos colocamos, é bom recordarmos que acima de tudo o importante não é vencer, nem competir, é brincar. O que deve valer é o que canta a música de Naná Vasconcelos:

“Não deixe o futebol perder a dança / nem perca esse sorriso de criança / passe no peito, jogue de lado, / dê um sorriso e não pise na bola / dê carreirinha, fique parado / olhe pra gente que é essa escola”.

O importante é jogar bem, tranquilo, sereno, se divertindo, perdendo ou ganhando, sem se sentir obrigado a vencer mesmo quando se joga “em casa”. A Holanda nunca ganhou uma Copa, mas todos os que viram dizem que o time de 74 (o deste ano também assim me pareceu) promoveu uma experiência estética das mais belas que o futebol já proporcionou ao mundo. Conosco isso se deu com as seleções brasileiras vencedoras de 58, 62 e 70, mas também com a vencida e recalcada¹ seleção de 82.

Não acredito que o futebol deveria ou deve continuar a responder por todo o espaço que habita no imaginário nacional. Por conta de um destaque excessivo dado ao assunto, “escondemos”, sonegamos, outras manifestações de nossa cultura desportiva e nele simbolicamente é depositado por demais nosso senso de nacionalidade, às vezes necessário, mas que se fia numa premissa artificial. De qualquer forma, o Brasil precisa valorizar mais seus atletas de outras modalidades, e não só os campeões como Senna, Kuerten, Popó e Cielo.

Contudo, até para pleitear permanecer também como “o país do futebol”, o Brasil não pode seguir confiando apenas em sua história, e nem manterá este posto apenas conquistando títulos. O tempo se transforma e como diz com severidade a sentença popular: “quem vive de passado é museu”. Os organismos vivos precisam se renovar, aprender, rejuvenescer e até esquecer.

Mas as derrotas, frente a Alemanha e a Holanda, não devem significar que todo este time e toda esta geração de nossos futebolistas é desprezível. Nossa comissão técnica foi muito mais responsável: convocou mal e não propiciou equilíbrio emocional e tático para a equipe. No entanto, este momento está longe de ser o cenário de completa terra arrasada que alguns buscam apontar, tomados pelo calor do momento e pela velha tendência de maximizar a experiência pelos resultados (na vitória e na derrota), mesmo que nesse caso seja um resultado bastante indigesto.

Ainda assim, no cenário mais desolador, não se pode construir senão no mesmo ‘espaço’ dos escombros e seguimos com boas lembranças, e aqui não me refiro apenas as de nossas vitórias, mas as de nosso encanto.

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¹– 82 a seleção recalcada – artigo do psicanalista Tales A.M. Ab’Sáber

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 14/07/2014 por em Júlio Fisherman.
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