ORNITORRINCO

A MESA DE APOSTAS DA COPA DO MUNDO DA FIFA

Minha primeira lembrança de copas do mundo data de 1982. Quem lembra, sabe do prazer estético de ver um time jogando daquele jeito, e também sabe da dor de perder sendo o melhor. Futebol é um jogo. Nem sempre o melhor ganha, e essa é uma das graças da coisa. Este jogo, o futebol, foi inventado por um povo que adora jogos, especulação, apostas. São características da cultura inglesa. E de tanto treinar, eles aparecem com jogos realmente notáveis, capazes de penetrar em outras culturas e eventualmente ser reinventados por outros povos. O Brasil trouxe para o futebol uma leitura jamais imaginada pelos seus criadores e este jogo virou um Frankenstein pelo mundo a fora, não apenas no Brasil. Isso é o belo em futebol. Você vê na cultura local uma forma de encarar a coisa, fazer estratégias, desenvolver um certo tipo de habilidade e inteligência na condução de uma bola. É lindo e simples, como os Beatles, que também são ingleses. Realmente ingleses conseguem comunicar muitas coisas de maneira universal. São um povo curioso, de fato.

Numa copa do mundo temos a expressão máxima deste fenômeno de reinvenção cultural através do futebol. É a chance de vermos sotaques de bola. O jeito sul-americano, o jeito europeu, asiático, africano. Todos juntos uns contra os outros nessa ritualização do combate, simbologia e sublimação da guerra. Uma válvula de escape para a tendência agressiva entre congêneres que é extremamente ameaçadora a humanidade. Tudo bem que vez por outra a coisa vai às vias de fato e não tem nada de simbólico num tornozelo pendurado, dentadas, vértebras quebradas, agressões de torcida e tudo mais. Mas isso também faz parte do jogo, e essa fronteira entre o leal e o desleal, o ilegal e o legal é um lugar por vezes desfocado que serve como tempero fundamental de tudo que envolve o futebol. Todos os interessados, torcedores, jogadores, imprensa e etc estão envolvidos com jogo em todas as suas estratificações.

Temos que entender que os que organizam os torneios também são jogadores, no lato senso da palavra. Os ingleses tem uma palavra para diferenciar o jogador que joga à bola do jogador que está na atividade da jogatina. O segundo eles chamam de gambler, e é desse jogador que falo agora. Os caras da FIFA, por exemplo. E é preciso entender que muitas vezes o jogo sujo, dentro e fora de campo, é preservado como conduta já que as pessoas envolvidas na produção do evento como um todo, são pessoas, por assim dizer, sujas. Como todos nós sabemos a FIFA é tipo pau de galinheiro. A limpeza não é o forte dessa associação. É uma questão de lógica simples: não é possível ter um evento pleno de honestidade e transparência se as pessoas que se encarregam dele praticam o oposto disso em todas as etapas de sua realização.

Dei-me conta disso pela primeira vez em 2006, na copa da Alemanha. Tive a oportunidade de viajar para Berlim durante o torneio, para uma apresentação. Na época fazia parte da banda de Arnaldo Antunes como guitarrista. A emoção de poder simplesmente estar no local da copa foi muito grande, afinal ”A Copa do Mundo FIFA™ é aonde todos querem estar”. E assim eles, os jogadores (gamblers) querem que seja, seja ela aonde for. Não é mais um caso de se o lugar é tão legal assim, ou se representa o futebol de alguma forma, mas sim aonde é a Copa do Mundo FIFA™. Há uma inversão básica de valores aí nessa publicidade. Mas na época, eu ainda não tinha tido essa luz, e achava que o legal mesmo era estar onde estava a Copa do Mundo FIFA™. Ainda mais em Berlim, cidade que adoro e tenho uma relação já antiga. Era pra ser realmente um momento único. E foi. Para o bem e para o mal. E o mal nessa história não é nada assim, mal. É, na verdade, uma tomada de consciência de que o grande circo armado pela senhora FIFA é uma festa para muitos, e uma lástima na vida de outros milhares. Geralmente os segundos são os moradores de onde a Copa do Mundo FIFA™ se instala. A maneira como me dei conta disso foi realmente curiosa.

Desde a chegada da banda a Berlim, todos estávamos extasiados com o clima de celebração intenso. Uma atmosfera realmente muito festiva. Mesas de totó públicas e equipamentos temáticos de futebol de todos os tipos se espalhavam pela cidade, grupos espontâneos de transeuntes se formavam pra bater um futebol de salão, um chute a gol, tomar cerveja e comer lingüiça, tudo muitíssimo civilizado e respeitoso, e ainda assim caloroso e bem humorado. Uma coisa bonita mesmo de se ver. Pra quem chega, tudo é festa. Para os que moram, nem tanto. Na condição de turistas, esquecemos que todo aquele circo que domina vastas áreas públicas, é a própria cidade dominada por algo que lucra cada centavo daquela profusão de consumo. Se você é morador e não curte nada disso você perdeu, playboy. A cidade não é mais sua. Mas para a horda que chega para a festa, isso sequer é levado em consideração. O hype é grande demais e a festa demasiado intensa para você se importar com isso. Além do mais, quando chegamos para uma festa, não é normal questionar se os moradores do local são ou não a favor da festa. A própria realização da festa, pressupõe que todos estavam de acordo a respeito de sua realização, certo? Os grandes eventos garantem-se nessa premissa fundamental para fazerem o que querem, e essa é uma arma quase infalível.

Portanto, para ser um gringo bem gringo, desses que fazemos chacota quando vemos pela rua, sem noção, basta você estar no lugar certo na hora certa. Qualquer um de nós se torna gringo sem noção dependendo do contexto, e comigo não foi diferente em Berlim. Após receber de presente um bonezinho da Copa do Mundo FIFA™ (afinal de contas estava trabalhando para o evento) um crachá, tickets de alimentação e chope, você está totalmente integrado no esquema e não vai sair dele até a hora de entrar no avião de volta para sua terra.

Porém, para minha surpresa, os acontecimentos me levaram a um contexto que desnudou tudo isso. Apos o show, algumas pessoas da platéia convidaram-nos para um passeio e uma cerveja, o que fizemos de bicicleta. A rua cheia de gente, no melhor estilo verão europeu, e acabamos parando no Club der Visionaeren, um pequeno bar à beira de um canal, meio escondido embaixo de uma ponte. Uma cena nada mainstream, muito pelo contrário. O clima ótimo ao ar livre, música boa, cerveja meio quente, e reparei que ninguém no recinto recebeu com bons olhares a chegada de gringos (nós) com indumentárias da Copa do Mundo FIFA™ fossem elas bonés ou camisetas. Mas sinceramente achei meio paranóia e não liguei num primeiro momento. Cerveja vai cerveja vem e uma moça mais entusiasmada, com concentração etílica já um bocado elevada no seu sangue, veio a mim e a um amigo e nos arrastou pelo braço pra a mesa onde ela estava, falando coisas que não entendi muito bem.

No embalo do oba oba germânico achamos graça e sentamos à mesa esperando interagir com os locais quando percebemos de imediato os olhares fulminantes de reprimenda tanto para a moça (que aparentemente querendo provocar o seu grupo levou os supostos gringos-FIFA™-fans para a mesa) quanto para nós, os próprios gringos sem noção, personificando a invasão de privacidade que os citadinos sofriam naquele momento, naquela tomada da cidade. Estávamos num local de refúgio da Copa para aqueles Berlinenses e importunamo-los num dos poucos locais onde estavam alheios a toda a festa. Involuntariamente fizemos isso. Camisas e bonés da FIFA™ certamente não ajudaram a amenizar a hostilidade, ao contrario, nos credenciaram negativamente. Eu, pessoa sensível e observadora por natureza, compreendi tudo isso sem que tivéssemos que trocar uma só palavra sequer. Foram apenas olhares. Oito pessoas e seus olhares de constrangimento por poucos segundos. Fui capaz apenas de pronunciar entschuldigung, um pedido de desculpas na língua local, levantar da mesa, passar no balcão para pegar uma outra cerveja meio quente e deixar meu boné da FIFA™ no lixo. Naquele momento solidarizei-me com os insatisfeitos e descobri, por tudo que observei e vivi que não gostaria que uma copa fosse realizada na minha cidade. Isso foi há 8 anos atrás, e nada mudou na minha opinião sobre este assunto desde então. Aliás, só se intensificou. Ficamos no bar até o amanhecer. Foi uma noite linda. Não esperava aprender tanto numa copa, e descobri que gosto mesmo é do jogo, mas não sou um gambler.

Bartolo é músico. 
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Publicado em 13/07/2014 por em Bartolo.
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