ORNITORRINCO

SÓ A ARGENTINA PODE VINGAR O BRASIL

Ainda de ressaca da derrota humilhante para a Alemanha e ainda confuso com as reflexões surgidas desde então, o brasileiro se depara com mais um dilema diante da classificação da Argentina para a final: torcer ou não torcer?

Sabe-se que a velocidade com que a seleção alemã fez cinco gols em vinte minutos será inversamente proporcional a nossa capacidade de superar essa derrota. Apesar disso, alguns esforços estão sendo feitos para tentar esquecer essa dor. Com a saída da Holanda na quarta-feira, receio que a maioria dos torcedores brasileiros não assistam mais nenhuma partida desse campeonato.

A disputa pelo terceiro lugar corre o risco de ser completamente ignorada. Não pelo receio de ver repetido contra a Holanda o resultado da partida anterior, mas porque existe algo de muito problemático na nossa cultura esportiva que não valoriza nada que não seja a vitória. A medalha de prata e de bronze só tem gosto amargo de derrota pra quem não entende nada de esporte. Essa falta de noção do que é o espírito esportivo é o que nos faz esquecer tão rapidamente de atletas como Yara Marques (1º medalha de bronze no pentatlo moderno) ou nos lembrar do Rubinho Barrichello com tanto cinismo.

Embora no segundo tempo contra a Alemanha, os jogadores brasileiros tenham jogado melhor, as imagens dos torcedores abandonando o estádio antes do fim da partida refletiu a mentalidade covarde de toda a torcida brasileira, que a essa altura do jogo só torcia para que ele acabasse. Mais agonizante que o segundo tempo contra a Alemanha será a partida inteira contra a Holanda. E é por essa razão que talvez nossos jogadores disputem o terceiro lugar diante de um estádio minguado e sem o apoio de que precisam.

Já o motivo porque o brasileiro talvez não assista a final é mais complexo porque mistura dois sentimentos: orgulho e inveja. Em primeiro lugar, a simples visão dos habilidosos jogadores alemães se movimentando pelo gramado será insuportável para o orgulho ferido do brasileiro. Depois, nosso ódio sem explicação contra os argentinos não vai mudar só porque Messi e seus companheiros juraram nos vingar. O brasileiro é invejoso e não quer que um time das Américas vença, porque sabe o que isso representa: perdemos nosso posto de melhores do mundo para nossos “hermanos”. A vitória da Argentina deflagraria que o antagonismo do melhor futebol não está polarizado entre eficiência européia e talento latino e provaria que o futebol não precisa deixar de ser bonito e espontâneo pra vencer.

Por isso, lamento que os brasileiros nos próximos dias vão se distanciar completamente do assunto Copa. Será como se a Copa já tivesse acabado. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não vão dirigir sua atenção aos assuntos sérios como eleição ou os bombardeios da faixa de Gaza. Vão voltar sua atenção a coisas banais; a um filme que vai passar no SBT, ou a boa e velha trama das oito, porque o cinismo é a melhor forma de exercer a arrogância de quem não tem mais chance de ganhar. O torcedor brasileiro torce e grita com toda força sua vitória, mas quando perde não sabe o que fazer. Parece que não nos foi ensinado que mesmo na derrota se aplaude um time, se reconhece os erros sem caçar um culpado, e principalmente, não se queima a bandeira.

Nossa maior vergonha dessa copa não vai ser a derrota humilhante para Alemanha, nem o escândalo da máfia dos ingressos, mas a nossa falta de cordialidade e espírito esportivo. Não é de se espantar que Podolski tenha chamado atenção por ter publicado no twitter um comentário em que reconhecia a importância do futebol brasileiro e saldava o adversário. Não estamos falando de um jogador experiente, mas de um “garoto” de 29 anos que sabe como é importante para um atleta ter esse senso de respeito. Aliás, tal atitude também se reflete na torcida alemã. Após a derrota pensei que seria escurraçado pelas ruas de berlim só por ser brasileiro, mas curiosamente, os alemães se desculpavam por terem promovido tamanho sofrimento.

Felizmente, acredito que alguns torcedores brasileiros vão deixar o orgulho de lado e vão oferecer o prestígio que a seleção brasileira precisa para enfrentar a Holanda na disputa do terceiro lugar, e não repetir a vergonha de 74 quando perdemos para Polônia. Já o dilema da final, talvez seja mais difícil de ser resolvido racionalmente, mas os verdadeiros amantes do futebol sabem que ignorar esse jogo seria uma estupidez. Quem gosta de futebol sabe que Alemanha e Argentina possuem uma tradição de confrontos em finais (primeira vez em 86, no México, quando a Argentina foi tricampeã, e na Copa seguinte na Itália, quando a Alemanha igualou o feito). E por isso, imagino que irão lotar o Maracanã no maior confronto do futebol do século XXI, em que uma das seleções quebrará o jejum de mais de 20 anos e se tornará tetracampeã.

Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação ‘No Lugar’ no Teatro Ipanema.

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Publicado em 12/07/2014 por em Fabrício Belsoff.
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