ORNITORRINCO

O ESPETÁCULO DO ESPORTE

Em 2012 foi transmitida ao vivo, durante o programa “Esporte Espetacular”, da Rede Globo, a etapa final do Campeonato Mundial da FIFA, jogo eletrônico que detém a licença da Federação Internacional de Futebol. As transmissões tiveram a narração de Tiago Leifert e os comentários de Caio Ribeiro, como se fosse uma partida de futebol de verdade. Nesse horário, o público está acostumado a ver partidas de esportes “amadores” como o vôlei e o basquete dentro do programa. Quem assistiu deve ter ficado surpreso, afinal de contas, trata-se de um programa sobre Esportes e não sobre Videogames, e é nessa distinção entre uma coisa e outra que certas portas se abrem para a tentativa de compreender algo que está longe de ser novo, e que pode se tornar cada vez mais comum no futuro.

Nos anos oitenta, o programa de TV americano Starcade transmitia partidas de campeonatos locais de fliperama. O público era assíduo, mas quase inexpressivo, e a falta de uma audiência maior e de patrocinadores interrompeu o projeto que durou apenas dois anos. De lá pra cá muita água correu debaixo dessa ponte. Os campeonatos dos mais diversos jogos eletrônicos continuaram acontecendo, e gente interessada nas premiações e na diversão se empenhavam em dar o melhor de si, treinando horas e horas diariamente a fim de obter uma boa performance durante as partidas.

Tá bom, mas o que isso tem a ver com esporte? O dicionário Priberam da Língua Portuguesa define Esporte como: 1. Divertimento, recreio; 2. Qualquer exercício físico corporal ao ar livre (para recreio, ou demonstrar agilidade, destreza ou força; 3. Desenvolvimento físico.

Pois é, esporte não é sinônimo de competição, mas talvez isso se dê pelo fato de que, na Grécia Antiga, fazia parte do ritual de hospitalidade dos nobres a realização de jogos esportivos para entreter as visitas ilustres, e esses nobres distribuíam presentes aos participantes que mais se destacavam nas diversas atividades recreativas das quais eles dispunham na época. A realização de jogos esportivos também fazia parte do rito de passagem, vemos isso na Ilíada, quando Aquiles convoca seus homens a participarem de jogos recreativos durante o período de luto que se segue à morte do seu querido amigo Pátroclo e também oferece recompensas aos que se destacassem nas atividades. Além disso, vale lembrar os jogos Olímpicos, que tinham em sua origem uma conotação religiosa e a intenção de demonstrar aos deuses as mais diversas peripécias que um ser humano era capaz de realizar.

Certo, jogos eletrônicos são recreação e divertimento e hoje fazem parte dos nossos costumes, mas e quanto a serem uma atividade realizada ao ar livre? Nada impede que seja, mas vamos a demonstrações concretas.

Em 2013, o ginásio Staples Center, casa do Los Angeles Lakers, time de basquete da NBA, foi palco da final do Campeonato Mundial de “League of Legends”, jogo competitivo com milhares de fãs ao redor do mundo. O ginásio ficou lotado, o que significa que cerca de 18 mil pessoas assistiram o evento presencialmente, já pelas transmissões ao vivo, na internet, com direito a narradores e comentaristas, cerca de 32 milhões de espectadores acompanharam as partidas, o recorde de público de uma final da NBA é de 26 milhões. Em 2014, a final do Campeonato Brasileiro desse mesmo jogo será realizada no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, ginásio ao lado do Estádio Maracanã onde é realizada grande parte das partidas em destaque do jogos de voleibol e basquetebol no Brasil. E esses são apenas os exemplos máximos dos lugares que os esportes eletrônicos vêm ocupando atualmente.

Não se usa força para jogar jogos eletrônicos, assim como não se usa força no xadrez ou no poker, mas depende também do que entendemos como força e ao meu ver, os grandes gênios e craques do futebol nunca precisaram de força para armar suas jogadas, precisaram, sim, de raciocínio rápido, argúcia, engenho, sagacidade e agilidade, os outros é que precisavam e precisam usar a força a fim de parar o que o cérebro extraordinário desses jogadores pensam e os outros são incapazes de acompanhar.

Até que inventem jogos eletrônicos controlados pelo poder da mente, ainda se usa o corpo e o físico para se jogar, e dada a durabilidade das partidas, da maratona de jogos e dos intensos preparos, é bom que se esteja bem fisicamente. Assisti algumas partidas de “StarCraft” e “League of Legends” pela internet, e ao contrário do que se pode imaginar, o perfil desses jogadores, embora haja sim muitos obesos entre eles, não é majoritariamente esse. A crescente exposição dessas competições também tem levado os jogadores a se preocupar com sua imagem. Quanto a idade, a maioria começa a competir profissionalmente mais tarde do que os jogadores de futebol.

Um dado interessante, do SuperData, publicado no portal UOL, mostra que metade dos sul-coreanos jogam ou acompanham pela televisão o jogo eletrônico “StarCraft”, jogo de estratégia em que competidores se enfrentam em partidas 1 conta 1 ou em equipes, é óbvio que isso é fruto da forma como que se pensa uma sociedade, se os sul-coreanos decidiram no passado que seriam uma potência em questões tecnológicas, se decidiram que valorizariam e colocariam todo esse aparato à disposição dos seus cidadãos, dando-os também preparo para sua utilização, é natural que para eles “StarCraft” e outros jogos, ou esportes eletrônicos, como queiram, seja tão popular quanto o futebol é para nós, e isso se reflete no fato de que por lá os campeonatos têm o mesmo ou maior prestígio que os campeonatos de futebol têm por aqui, mantendo as devidas proporções, é claro.

Se você encontrar um sul-coreano perdido por aí, e que veio assistir a Copa do Mundo de Futebol, pergunte a ele: – “Você gosta de StarCraft?” Quem sabe ele possa dizer, se falar português ou você coreano (ou numa conversa em inglês) alguma coisa sobre o assunto.

Danilo Diógenes é estudante de Literatura. 

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Publicado em 11/07/2014 por em Danilo Diógenes.
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