ORNITORRINCO

UMA SELEÇÃO SEM CABEÇA

Para além do futebol apresentado pelo Brasil na partida contra a Alemanha – ou da ausência dele –, há alguns anos que nos falta inteligência na seleção. Nem de longe esse foi o único ou mesmo o principal problema de nosso escrete – que começa fora de campo, na desorganização dos torneios nacionais e na regência criminosa de nosso futebol. Mas, junto de tudo isso, é notória a escassez de inteligência e personalidade nos personagens da equipe nacional.

Evidentemente que não estou considerando “inteligente” aquele que leu mais livros, possui mais diplomas ou ganhou mais dinheiro, mas sim o que demonstra autonomia na maneira de pensar, capacidade de compreender situações diversas, antecipar questões e oferecer soluções múltiplas – e, acima de tudo, de fugir do óbvio, tanto na forma de jogar, quanto de falar, de agir, de ser.

Pode parecer muito, mas a seleção, acreditem ou não, já foi formada por jogadores assim: Didi, Zico, Sócrates, Rivelino, Garrincha – sim, inteligentíssimo – Romário, Nilton Santos, Falcão, Rivaldo, Casagrande, Carlos Alberto Torres, Tostão, Amarildo e, é claro, Pelé – que compensava a aparente falta de inteligência fora do campo pela habilidade sobrenatural que tinha com a bola nos pés – entre muitos outros. Jogadores com personalidade, capazes de equilibrar razão e emoção, usando ambas em favor do time – como artistas, que sabem criar, pensar, improvisar.

Me marcou a cena do zagueiro David Luiz apontando aos céus assim que se deu o apito final, de maneira idêntica ao agradecimento que faz quando vence uma partida. Ele, é claro, não foi o único: a maioria dos jogadores brasileiros rezou ou citou deus em suas declarações. Crer em deus ou contar com ele em um jogo de futebol não é necessariamente sinônimo de falta de inteligência – ainda que não consiga entender como alguém acredita que deus seria tão injusto com os jogadores e torcedores do time derrotado ao interferir no resultado – mas é angustiante enxergar os vários óbvios motivos, táticos e estruturais, que levaram ao trágico ocorrido no Mineirão e, ainda assim, assistir aos jogadores citando deus como justificativa e, ao mesmo tempo, solução.

Além de mal falarem sobre futebol, como especialistas que deveriam ser – parece que não sabem se aprofundar minimamente sobre seu próprio trabalho – grande parte dos jogadores age como bonecos, fabricados industrialmente para jogar bola – no mero sentido mecânico da coisa – e enriquecer. Quando falam, é como se reproduzissem dois parágrafos do mesmo livro de autoajuda: um para a vitória, outro para a derrota. Alguns, como Neymar, ao menos compensam com a bola nos pés, mas personalidade é justamente o que permite que alguém cresça diante das adversidades, apresente soluções interessantes e até mesmo tombe com dignidade –  impedindo o lado emocional de transbordar e afundar um coletivo. Só teremos jogadores de criação se tivermos pessoas assim.

A excessiva importância do técnico é hoje um sintoma evidente dessa diluição da personalidade dos jogadores – e, consequentemente, do grupo. Não sei se o ego do Felipão impediu a presença de lideranças efetivas dentro dessa seleção, mas me parece impossível sequer pensar em um líder sem imaginar alguém que justamente fuja do óbvio, que seja capaz de se destacar da massa e chamar a responsabilidade pra si – não para deus ou qualquer outra opção metafísica. Alguém inteligente que goste de jogar futebol ao menos tanto quanto gosta de ganhar dinheiro.

Para completar o tiro na têmpora da seleção, não ajudaram em nada as declarações de que já estávamos com a mão na taça antes mesmo do mundial começar – o clima de que tínhamos a obrigação de ganhar a Copa em casa, ainda mais sobre um grupo que, em sua maioria, não passa dos vinte e poucos anos. Tais afirmações, vindas da própria comissão técnica brasileira, revelam a maneira quase transcendental com que nossa campanha foi tratada, como se tivéssemos que vencer para além da qualidade do nosso futebol. Só que Copa do Mundo é cruel, e, por isso, ainda resta no torneio certa beleza: é possível ganhar o título sem jogar o melhor futebol, como se deu com a Itália contra o Brasil em 1982. Mas é impossível que um time ruim seja campeão.

A pressão publicitária e a débil e excessiva cobertura midiática são talvez as peças fundamentais para entender essa equação. Se o verdadeiro assunto até no apoio a Neymar antes da partida contra a Alemanha era os cifrões, como esperar futebol de verdade de um grupo de publicitários? A derrota para Alemanha não me parece que será marcante como foi o Maracanazzo do Uruguai, porque o futebol hoje não tem mais a aura que tinha em 1950 – ainda que, no campo, não se compare: contra o Uruguai, nós ao menos disputamos o jogo. Porém, há muito tempo que o business venceu o sonho.

No entanto, não se pode esquecer que, mesmo ganhando cifras desumanas, os jogadores são os que menos têm culpa. São pessoas, ainda moleques – e, quero crer, que amam o esporte. Não deve ser fácil defender a camisa da CBF, como é cada vez mais difícil torcer por esse escudo. Talvez só mesmo deixando a cabeça em casa e colocando o coração na ponta da chuteira. Mas nem sempre o coração basta – às vezes, é preciso pensar.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

*Imagem: Cristophe Simon/AFP

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Publicado em 10/07/2014 por em Vitor Paiva.
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