ORNITORRINCO

DERROTA PADRÃO FIFA

Existem derrotas e derrotas. Essa foi trágica, inesquecível. Se em 1950 o técnico Flavio, ao ser derrotado por 2×1 em pleno Maracanã, disse: “assim é o esporte”, Felipão em 2014, no centenário da seleção brasileira, não pode dizer o mesmo. Assim não é o esporte porque não teve jogo, teve um atropelamento, um caminhão desgovernado solto na banguela em ladeira íngreme. Em 27 anos de estádio não me lembro de uma derrota assim. Mas assim é o futebol, o mais ilógico dos esportes, fundamentado não numa lógica, mas numa mitológica.

No ônibus, voltando do Mineirão pro Rio, recorri à memória para lembrar uma derrota tão devastadora da seleção e a única que me veio foi um 5×1 pra Argentina, em são Januário, na Copa Roca de 1939. Sei dela pelo relato de Mario de Andrade, que foi ao jogo e escreveu a crônica da partida. “Ora o que é que se via desde aquele início? O que se viu, se me permitirem a imagem, foi assim como uma raspadeira mecânica, perfeitamente azeitada, avançando para o lado de onze beija-flores”. A imagem do Mario diz muito sobre esse Alemanha 7 x 1 Brasil. E pensando melhor vejo que esses 11 beija-flores já souberam bailar na frente de muita máquina mortífera, bagunçando sua previsão cirúrgica. Uma arte que com certeza nos faltou hoje.

A Copa do Mundo vai acabando pro Brasil, resta um jogo de consolação na disputa do terceiro lugar. Nesse processo de sete anos, desde que nos tornamos o país sede, o pior não é perder, e sim percebermos que fomos colonizados. Colonizados pela FIFA e seu modelo impositivo. Chegam aqui mandam e desmandam, mudam as leis, querem nos ensinar como torcer e como devem ser nossos estádios. A torcida pouco carismática, sem aquela pressão que as torcidas dos clubes brasileiros têm, vem disso, de uma transformação do estádio de futebol num salão de baile da alta sociedade. Tivemos pouca, ou nenhuma resistência antropofágica, para lidar com isso. Não digerimos nada, tudo foi socado goela abaixo como esses sete dolorosos gols de ontem. E o mais dilacerante é ver Alemanha e Holanda, além de Espanha até o ano passado, devorando a seleção Brasileira. Não digo só com vitórias, mas deglutindo nosso estilo de jogo e transformando em algo deles.

A seleção brasileira ensinou o mundo a jogar futebol e por isso ela se tornou uma certa entidade supranacional. Os ingleses ficam loucos quando o Brasil não joga bonito, o holandês Cruyff vocifera contra o excesso de volantes marcadores, Beckenbauer sai em defesa do futebol arte e enquanto isso, o Romário, mesmo com sua aguçada visão crítica, não tá nem aí se qualquer outro time, além do Brasil, tá jogando feio ou bonito. Enfim, a seleção brasileira é um termômetro do futebol no mundo e essa derrota acachapante bagunça tudo.

Todo boleiro sabe que existe aquele dia no qual tudo dá errado pra você e certo pra eles. Essa terça-feira fatídica também foi um dia assim. O apagão da seleção foi aquele que os governantes temem que aconteça com o sistema elétrico brasileiro, um lance digno de apocalipse. Junto disso, a superioridade do time alemão foi incontestável e no 7 x 0 só me restou levantar e aplaudir. Erros banais e gols de pelada se sucederam, fossem num treino, teriam feito o Felipão entrar em campo e parar a bagunça pra arrumar a casa. Mas na hora que tá valendo é muito difícil fazer isso, quando o pessoal piscou já estava 5×0 e a torcida alemã, muito bem humorada, cantava Yellow Submarine.

Afundamos. O cavalo de Tróia alemão finalmente funcionava. Eles se hospedaram numa simpática vila do sul da Bahia, foram amáveis com todos, torceram pro Brasil avançar, queriam esse confronto, vestiram a camisa do time mais popular do país e de noite, quando todos dormiam bêbados, espetaram a gente. O Mineirão calou fundo num silêncio apenas rompido pela animadinha música da FIFA e seus anunciantes, um som insensível que não deixava nem espaço para que os ali presentes vivenciassem o tamanho daquele drama. A FIFA não entende nada de futebol, nem na vitória, nem na derrota.

Não vou perder tempo com análises táticas ou dizer o que deveria ter sido feito. Consumada a tragédia, o que fazer? Quem é boleiro também sabe que em toda derrota você pega a bola no fundo do gol e bota no meio pra dar nova saída.

Em 1989 o Chile deixou o Maracanã no meio de uma partida contra o Brasil alegando que um rojão havia acertado seu goleiro. Rojas saiu do gramado sangrando e o Chile pretendia conseguir os pontos do jogo, e a classificação pra Copa do Mundo, no tribunal. Porém, as imagens mostraram que o rojão não passou nem perto do goleiro e que o seu sangue era fruto de um corte, auto imposto, com a ajuda de uma lâmina que ele carregava dentro da luva. Meus amigos chilenos sempre me disseram como esse jogo foi importante e impactante pra o país. Saindo da ditadura sangrenta do Pinochet aquele papelão no Maracanã era a metáfora maior de que não dava mais para resolver as coisas num esquema bisonho, com lâmina e sangue, futebol se ganha no campo.

Essa derrota pra Alemanha, humilhante como foi, me faz pensar que estamos diante de um divisor de águas político. Depois das derrotas de 82 e 86, seleções de refinados toques de bola, o Brasil entrou para o mundo do pragmatismo do futebol. Parreira, em 1994, entendeu que todo mundo já sabia jogar contra o Brasil, mudou nosso estilo de jogo e ganhamos uma Copa sem dar espaços ao adversário, mantendo a posse da bola, mas sem muito brilho e espetáculo fora a genialidade da dupla Bebeto e Romário. Há vinte anos criamos times competitivos, aprendemos a defender, o que é do jogo, exportamos zagueiros agora. É possível até montar mais um time ajeitadinho e ganhar a Copa de 2018. Mas resta a pergunta: é assim que queremos?

De ônibus, saindo de Belo Horizonte, a noite é fria e cortante. Tenho medo que os viadutos caiam na minha cabeça, tenho medo de desabar com eles. Há um caminho sem viadutos? Que legado da Copa é esse? Desde o início parece que organizamos o mundial assim, como um burocrático time sem muito brilho, mas que vai pra cima no abafa, do jeito que dá. Nessa toada muita gente é atropelada por remoções, obras ficam inconclusas e a Copa acontece num esforço de guerra, com um país funcionando na canetada de feriados alucinados com a polícia virando noite em plantões loucos, sentando o cacete em quem não gostar do esquema.

A reinvenção do futebol brasileiro passa por uma reinvenção política. Há muitos anos os times europeus entenderam que seu trabalho de base deveria ser diferente, as categorias inferiores do futebol servem de escola para que se aprenda como jogar e não como ganhar. A competitividade exagerada tomou conta do Brasil e garotos de nove anos, no infantil, já entram no tapa pra ganhar um campeonato. Fico pensando que nossas escolas são também um pouco assim. Ninguém se pergunta que cidadão queremos formar, o que queremos ensinar? Desejamos apenas um resultado maravilhoso lá na ponta, seja um notão no Enem, seja um título da seleção. E assim vamos vivendo numa lógica invertida. Não é porque a cidade tem uma boa mobilidade urbana, saneamento básico, bons estádios, que se faz uma Copa do mundo ali. Mas já que vai ter uma Copa arruma um esquema com um monte de empreiteiras e enche esse lugar de obra pra parecer que a vida vai ficar melhor.

Mudar isso não é tarefa fácil, buscar o fim dos velhos métodos políticos viciados é algo que requer grande esforço e leva tempo. Há 20 anos também estamos aprendendo a lidar com a democracia e temos visto o quão repressora ela pode ser e o quanto ela precisa de nossa participação diária. A mudança do futebol deve passar por uma profunda transformação da CBF. Hoje a entidade vive como um cafetão, vendendo a seleção feito uma puta. Riquíssimo, pois a puta teve seus dias de glória, conserva a fama e ainda dá um caldo, o cafetão deixa o campeonato brasileiro, os regionais, as categorias de base e o futebol feminino viverem à mingua, como se não fizessem parte da construção mitológica e lógica do que é o futebol. José Maria Marin, presidente da confederação, era um político da ARENA em plena ditadura militar, um daqueles governadores biônicos de São Paulo, um sujeito que não me provoca nenhuma simpatia, fico feliz de estar na conta dele esses 7 x 1. Precisamos afastar a CBF, e o futebol como um todo, dessas alas mais conservadoras e reacionárias do país. Chega de máfia, por favor!

As derrotas expõem todas as feridas e é preciso senti-las na carne. Fiquei até o fim no Mineirão e sei que contarei esse dia trágico para meus filhos e netos. No final o atacante Müller voltou a campo com um prato de feijão tropeiro, se divertiu com sua torcida, jantaram a gente. O maior campeão da história das Copas segue sem um título em casa. A maior perdedora de finais de Copa avança para sua oitava decisão. O futebol é só um jogo, com muitas metáforas sobre a vida, se soubermos lê-lo talvez ele sirva pra repensarmos o país. Uma derrota é só uma derrota, mas essa ferida vai demorar pra fechar. Ninguém morreu, mas a bala tá ali alojada, em toda noite fria ela vai doer.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Imagem: Robert Cianflone / Getty Images

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Publicado em 09/07/2014 por em Domingos Guimaraens.
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