ORNITORRINCO

ALEMANHA 7 X 1 BRASIL – "EXPLICAR O INEXPLICÁVEL É MUITO COMPLICADO"

Durante a coletiva de imprensa, realizada após a goleada da seleção alemã sobre a brasileira nesta Copa de 2014, um jornalista estrangeiro perguntou ao técnico Luiz Felipe Scolari, de quem é a culpa pela trágica derrota. Felipão respondeu que não adianta dizerem que foi uma falha do coletivo, que eles não jogaram bem, a verdade é que a culpa era sua, pois foi ele que convocou aquela seleção e ensinou sua tática e técnica, a responsabilidade pelo resultado catastrófico era dele.

Certo e errado. Eu gosto do Felipão. Horas antes da derrocada brasileira eu estava bêbado emocionado dizendo que votaria no Felipão para presidente do país (obviamente eu estava fora de si, mas quem nunca). Gosto da sua seriedade, de como não se deixa afetar pelo sensacionalismo da mídia, nem pela condição de celebridade a que lhe impõem, por ser técnico da seleção pentacampeã. Não se inclinando às futilidades, ele executa seu trabalho com a dosagem certa de paixão, dedicação e comprometimento. Também gosto de vê-lo dando entrevistas, sempre preparado para rebater o fanatismo, assumindo suas respostas com consciência do seu trabalho e da sua importância. Pois, ele acerta mais uma vez quando diz que é sua a responsabilidade em ter perdido para a Alemanha com essa goleada (a maior já sofrida pelo Brasil, e a maior dessa Copa até agora). Mas não apenas dele.

Era previsível que a Alemanha iria ganhar esse jogo. Só não viu quem não quis. A seleção do técnico alemão Joachim Low é mais experiente. Eles jogam há mais tempo juntos, tanto nos times do país quanto na própria seleção. Estão afinados uns com os outros e preparados para enfrentar as rivalidades com a segurança de um exército. A Alemanha enfrentou dificuldades nessa Copa mas sempre jogou com firmeza, sem se abalar. O mesmo não pode-se dizer da seleção brasileira, formada por garotos jovens que experienciavam sua primeira Copa do Mundo. Era vísivel como jogavam sem ritmo, de forma capenga, tentando se encontrar em campo, ganhando com sufoco de seleções não tão fortes assim. A Alemanha foi o primeiro competidor de peso que o Brasil pegou nesta Copa, nosso time não estava em condições de enfrentar de igual para igual.

Fora a perceptível qualidade técnica do time europeu, eles ainda têm uma outra vantagem: não sofrem a mesma pressão psicológica da equipe brasileira. A Alemanha jogou bola com os índios, tomou banho de mar em Porto Seguro, andou à cavalo, enquanto isso, o grupo brasileiro não saiu da Granja Comary, cercados por jornalistas de todos os lados que viviam lhes tratando como príncipes, realezas do futebol, como se já estivessem destinados à taça de ouro. Juntando a imaturidade dos jogadores, a intimidação de carregar o escudo da CBF, o peso da história do futebol, a importância de ser o país sede, e a pressão da mídia e do povo, tudo isso, frente a frente com a frieza do futebol de Schweinsteiger, Klose, Kroos, Özil e Müller, os nossos brasileiros em campo se desmancharam. O chororô dos jogadores, por mais bonito e revelador de um espírito sensível, demonstra essa imaturidade, a falta de competência em lidar com o lado emocional de uma Copa. É difícil pra caralho.

Bom, entender que o Brasil não tinha condições de ganhar da Alemanha é uma coisa, mas esse resultado de 7 x 1 realmente me deixou de queixo caído. A seleção alemã está preparada para competir uma Copa do Mundo. A seleção brasileira parece estar só preparada para os comerciais.

Em 30 minutos, a Alemanha fez cinco gols. Voltaram para o segundo tempo, sentiram uma resistência no início mas depois fizeram mais dois gols e sofreram um. Pode-se dizer que os alemães passaram quase 90 minutos fazendo o que queriam.

Me lembrei de quando era adolescente e jogava Fifa Soccer no Playstation contra um amigo que tinha o jogo e jogava melhor. Ele sabia os comandos e eu ainda estava entendendo o controle, tocava pra fora, dava passes errados, chutava por cima do gol, e acabava perdendo de goleada

Aquele primeiro tempo onde ocorreram os 5 gols serão inesquecíveis para quem assistiu. O primeiro, vá lá, a gente pensa: dá pra virar. O segundo, a gente pensa, ficou mais complicado, mas vai. O terceiro e o quarto e o quinto, eu olhava para os amigos do lado com a certeza de que estávamos presenciando uma cena surreal, sem volta. De repente vinha um riso nervoso, desconcertante, parecendo vir de um lado estranho do cérebro, um humor que poucos humoristas sabem despertar.

O esporte não é só feito de vitórias. O melhor do mundo não vai ser o melhor do mundo para sempre. Saber reconhecer isso e entender o que há de grandioso nessas derrotas, é importante para o amadurecimento. A concorrência é feroz e onde há alguém que se destaca, há outro estudando como ser melhor do que ele. Confiar na fama é aceitar viver uma ilusão. A derrota desta semi-final foi um tapa de realidade, “Olha aqui, Brasil, vocês não são melhores do que ninguém”. Não era um Neymar, nem um Thiago Silva que ia salvar isso não. Talvez diminuíssem o vexame, mas não iria resolver o time. Pode ser que esse time seja diferente daqui a quatro anos, pois futebol na Copa do Mundo também é isso, é aprender a jogar a Copa, jogando.

Encontrar respostas para Qual é o projeto do futebol brasileiro? Será que estamos formando jogadores de forma correta? Onde fica a parte psicológica? Por que cavamos tantas faltas? Por que os melhores são vendidos para clubes estrangeiros?

Este artigo surgiu da vontade de responder ao excelente goleiro Julio Cesar, que no final da partida disse ao repórter da TV, “Explicar o inexplicável é muito complicado.”

Por fim, sejamos otimistas. Pelo menos não teremos mais que ouvir todos os dias aquele jingle babaca “Marca pra gente, Brasil”.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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*Imagem: AP

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Publicado em 09/07/2014 por em Gabriel Pardal.
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