ORNITORRINCO

O HERÓI GREGO BRASILEIRO

O herói brasileiro é de pele morena, tem o cabelo pintado de loiro, joga futebol e atende pelo nome de Neymar. Ele é talentoso, simpático, sorridente, fofo e enche os brasileiros de orgulho e ternura. Assim como Pelé, Garrincha e outros heróis brasileiros de origem humilde, Neymar começou a carreira muito cedo. Do início da categoria de base do Santos até a polêmica transferência para o Barcelona no valor de R$ 57 milhões de euros, passou por muitos desafios, mas garantiu seu lugar de protagonista do Panteão, digo, seleção brasileira. Neymar é a personificação do filho pródigo.

Sua graça não tem fronteiras, ela encanta a todos, especialmente os europeus. Por aqui, Neymar é símbolo da cultura brasileira. Não tem Lula, Caetano, Gil, Zumbi dos Palmares que sobreviva a febre Neymar. A primeira coisa que todos os gringos mencionam quando descobrem que sou brasileiro é: eu amo o Neymar. Pena que não tive a ideia de trazer camisas da seleção para vender por aqui, teria ficado rico.

Entretanto, desde a partida de sexta-feira contra a Colômbia, a trajetória do herói parece ter encontrado um outro rumo: o infortúnio. A joelhada do jogador colombiano Zúñiga nas costas de Neymar doeu não só nele, mas no coração do magnífico coro de torcedores brasileiros que chorou vendo a imagem aérea do garoto prodígio saindo do estádio carregado na maca da equipe médica. Na manhã seguinte, a notícia de que o herói estaria fora do resto da competição soou como uma profecia do Oráculo de Delfos, o tão temido Templo do Deus Ápolo. E me fez lembrar do mito grego de Aquiles.

Aquiles é o protagonista da Ilíada, de Homero, que narra os acontecimentos do nono ano da Guerra de Tróia. Ele é filho de Peleu (mortal) e Tétis, uma Nereida, que visando fortalecer sua natureza, mergulhou-o ainda bebê nas águas do Rio Estige. No entanto, o banho que o teria feito imortal, deixou uma parte do seu corpo vulnerável, o calcanhar, por onde ela o teria segurado. Mais tarde, sua mãe profetiza que ele poderia escolher entre dois destinos: lutar em Troia e alcançar a glória eterna, mas morrer jovem, ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, mas sendo logo esquecido.

A glória eterna é um dos temas da narrativa clássica do mito de Aquiles e é também a grande busca de todo jogador de futebol. Todos eles aprendem desde início, que não é de dinheiro, nem de troféus que se vive um ídolo, mas dos seus gols inesquecíveis, dos seus dribles únicos, dos seus feitos, da sua glória. E assim como lutar em Tróia era para Aquiles sua chance de conquistar a glória eterna, é na Copa do Mundo e só nela, que o jogador de futebol tem sua chance de se eternizar.

Mas, segundo os gregos, a trajetória do herói não é fácil, ela é marcada por inúmeros desafios. Muito antes de alcançar sua glória morrendo em Tróia, com um flecha envenenada que atingiu seu calcanhar, Aquiles se afastou do campo de batalha devido a uma desavença com Agamenon, deixando seus mirmidões (lendário exército da Tessália) sem líder. A fratura de Neymar também o afasta da Copa deixando seus companheiros de combate sem liderança. Ela é uma complicação.

No jargão do roteiro de cinema, complicação é quando o protagonista passa por uma série de situações que modificam sua trajetória de forma irreparável, intensificando o conflito da história. Bom, basta saber desse pequeno aspecto da teledramaturgia, para saber porque a imagem da joelhada já foi mais veiculada na Rede Globo do que os episódios das novelas das seis e das setes somadas, segundo o site Uol. A emissora sabe muito bem que a imagem em questão produz um efeito tão apelativo pois revela a frágil condição de mortal do herói, tornando-o mais humanizado e aproximando-o dos dilemas do espectador.

Assim como Aquiles, Neymar não é um Deus, mas um mortal. A ele lhe foi concedido todas as qualidades e talentos que o tornam especial, e que por consequência exigem dele respeito e admiração pelos Deuses, se não quiser ser punido. Mas, a saída de Neymar da Copa não chega a ser uma punição dos Deuses, mas sim uma “complicação” em sua trajetória. Se Neymar tiver a coragem de enfrentar seus desafios como outros heróis fizeram – como o Fenômeno – talvez ele consiga atingir a glória.

Porém, essa conquista só será possível agora, se o exército sem liderança encontrar uma figura que substitua seu herói temporariamente. Na Ilíada, quando as tropas gregas estavam a beira da completa destruição, Pátrocolo liderou os mirmidões na batalha, passando-se por Aquiles, após vestir sua armadura. Ele obteve sucesso, mas acabou sendo morto por Heitor, causando a fúria de Aquiles e seu retorno a batalha. Se na partida de hoje contra a Alemanha, David Luiz conseguir se passar por Neymar, com sua crescente popularidade e carismática cabeleira, talvez o Brasil ainda tenha alguma chance de conseguir um desfecho feliz nessa história.

Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação ‘No Lugar’ no Teatro Ipanema.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 08/07/2014 por em Fabrício Belsoff.
%d blogueiros gostam disto: