ORNITORRINCO

RAZÕES PARA AMAR UM CEMITÉRIO

Hoje passei de bike no cemitério em frente as Clínicas aqui em São Paulo. Não sei o nome, sei que é gigante e lindo. Eu acho, cemitérios em geral, lindos. Primeiro me agrada a arquitetura, me agrada ainda mais o silêncio sepulcral que ali jaz. Além disso, gosto de ver a data de nascimento e a data de morte das pessoas. Imaginar quem foi a Virginia Romero, essa “esposa exemplar e mãe afectuosa” que deixou “saudades eternas” à família Romero, que nasceu em 1863 e morreu em 1925. Como foi a vida dela? Morreu de quê? Onde está a família? Os amigos? Realizou tudo o que sonhou? Acima de tudo, amo cemitérios pela lembrança inevitável e óbvia da morte, por constatar quanta gente morta está ali. Não leia isso como algo mórbido ou triste. Não é.

Isso me lembra o Zé. Zé sempre foi um cara talentoso. Tudo o que se propunha a fazer, fazia bem e sem muito esforço. Mas o Zé tinha medo. Ele tinha o medo brazuca de ser bem sucedido e se destacar. Nunca soube bem porque ele tinha esse medo, mas isso é problema de cada um. Sei que ele sempre falou em como seria assustador abandonar Petrópolis, sua namorada que ele comia por exercício do hábito, sem amor, naquela relação meia boca que mantinha por medo de ficar sozinho. O medo de fazer a escolha errada lhe deixava estagnado. Até que um dia Zé decidiu mudar.

Zé, aos 30 anos (idade de Cristo, afinal 30 também foi idade de Cristo antes dele morrer aos 33) decidiu que era hora de tentar viver seu sonho de viajar o mundo e ser fotógrafo como sempre imaginou. Quando Zé estava começando a organizar a viagem, foi atingido por um retrovisor de ônibus que tinha a exata altura da cabeça dele e o pegou pelas costas, na nuca, enquanto caminhava pra sua casa em uma calçada de Petrópolis. Morte estúpida e inesperada. Mas qual morte não é estúpida? Qual morte é esperada? Essa história é real, e poderia ter sido comigo, com você ou com alguém que a gente ama.

Falei do medo “brazuca”do Zé, porque vivemos em um país que historicamente tem a alma estigmatizada pela mediocridade. O medíocre é top no Brasil, bem mais que em outros países que vivi e passei. O medíocre é exaltado, o medíocre faz sucesso frequentemente. Roberto da Matta no livro “O que faz o brasil Brasil?” diz que é um resquício atávico da época em que o Príncipe Regente confiscava as propriedades que interessavam à realeza com o PR na porta. Muitas vezes eram as casas de melhor qualidade, ou seja, de quem se destacava. Existe um paralelo com o Zé não querer se destacar, dessa síndrome de vira-lata. É melhor ser medíocre, melhor não acreditar e correr atrás do seu sonho de ser fotógrafo e viajar o mundo. Ser medíocre te faz ser parte da massa, te faz ser mais aceito, te faz ser igual, e é bom mesmo, porque daqui a pouco você está morto e morto todo mundo é igualzinho mesmo, tudo pó.

Eu falo do Brasil porque vejo isso mais forte aqui, mas é algo que vejo como universal. A história da humanidade é marcada muito mais por exemplos de Zés e Robertos e tantos outros zeros, tanto gado que vive bem pra manada, mas não pra si. Quais barreiras são essas que bloqueiam as pessoas de não chegarem perto do seu potencial máximo e dos seus sonhos antes de ir pro cemitério? E a resposta pra essa pergunta é outra pergunta: Qual é a característica mais universalmente inerente ao ser humano: medo ou preguiça?

O sol se pondo no cemitério das Clínicas – São Paulo.
O medo não é necessariamente ruim. Um medo pode ser uma reação saudável a algo que represente perigo, real ou psicológico. Quando a gente era homem da caverna ok, estou com medo desse animal porque ele pode me comer vivo, mas a gente não é mais homem das cavernas e aquela mulher ali que pode ser o amor da sua vida não vai te comer. Mas ela te comer é bom e não se tem medo a ponto de paralizar quando você acredita muito que o resultado melhor e positivo vai acontecer. A gente não sentiria medo de abandonar um carreira pra investir em outra aos 32 anos se a gente tivesse certeza absoluta, ou talvez um contrato escrito em pedra garantindo que iria dar certo, a gente não teria medo de expor os sentimentos pra uma mulher que a gente está afim, se tivesse de alguma forma certeza que é recíproco. E aí é que está: a gente tem medo do desconhecido, de não saber o que vai acontecer. O fato é que a gente nunca sabe, mas quantas vezes deixa de tentar pela simples insegurança do resultado desconhecido? Que seu sonho não vai acontecer se você nada fizer isso sim é 100% garantido.

Na verdade o medo em si, não é problema, mas como reagimos a ele pode ser. Existem 3 reações principais a uma situação que você sente medo: paralizar, agir ou fugir. Todas as três podem ser adequadas, dependendo da situação, e esse é o ponto: reagir de forma adequada ao que te causa medo. O adequado quem sabe é você, porque você vai sentir satisfação por ter escolhido como reagir e sentir que reagiu de forma adequada. Não existem garantias, tanto pode dar tudo certo, como tudo errado, mas o que não dá é imaginar como teria sido sua vida se você tivesse vivido aquele amor que te deu medo de tentar.

Você pode me dizer que somos humanos e precisamos pensar nas consequências. E se você não for capaz de conviver com as consequências da sua escolha? E se o caminho for pedreira? E se você errar? E se? E se? Foda-se o “e se”. “E se” não existe, é uma realidade que não há, é nossa imaginação do possível que não é necessariamente a realidade e que em geral são projeções pessimistas e ansiosas. Porque você não pensa “e se” eu largar minha namorada e começar um relacionamento muito mais foda. Não se trata de ignorar as consequências, mas de acolher e viver cada uma delas. Que bom que você tomou as rédeas da sua vida e escolheu. Só escolhas. O tempo todo na vida é uma escolha e cada escolha é um caminho. Não existe escolha errada, quer dizer, tem sim: não escolher. Existe zona de conforto e não escolher por medo, ou por preguiça… E existe o cemitério te esperando.

E é por isso que eu e o Sr. Franco, um senhor de 80 e poucos que tem o mesmo nome que o meu e ia na mesma psicóloga no horário antes do meu, sempre concordamos que o nosso lugar favorito era o cemitério. Visitar um lugar onde jaz tanta gente morta, me faz me sentir muito vivo, me faz ver como é precioso esse fato, me faz agradecer que minha mãe ainda está viva e não é a Virginia Romero do início do texto, mas me lembra que um dia será, todos nós seremos. O cemitério me faz ter menos medo de tentar, me faz querer mais e mais abolir o “e se” nefasto que atravanca e mata antes de morrer, leva pro cemitério todas as nossas vidas e sonhos preciosos que vão ficar só no imaginário. Sr. Franco brincava que o cemitério é um lugar precioso e cheio de tesouros por isso. Imagine quantos amores não vividos estão enterrados ali, quantos sonhos não realizados, quantas vidas que não foram vividas por medo ou preguiça ou “e se”. Deixa pra amanhã. Deixa pra lá, dá muito trabalho.

A preguiça é o verdadeiro plano do diabo para tornar o mundo o inferno, dizia Jung. Deixa pra amanhã, pro mês que vem, deixa pra depois. Relaxa. Não corre atrás dos teus sonhos não. Aí toma um retrovisor de ônibus na nuca, vira comida de minhoca e é enterrado com o sonho de ter viajado o mundo como fotógrafo. Mas pode deixar que eu vou lá no cemitério te visitar e me lembrar como minha vida é preciosa.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 07/07/2014 por em Franco Fanti.
%d blogueiros gostam disto: