ORNITORRINCO

A MAIS FICCIONAL DE TODAS AS COPAS (PARTE 2)

A tal Copa, aquela que já não está tendo, está perto de chegar ao fim. Sim, a Copa mais ficcional de todas as Copas se encaminha para um enigmático desenlance. Apesar da atmosfera insólita que ronda a Copa que já não teve, alguns jogos foram dignos dos jogos mais reais. Partidas envolvendo seleções como Holanda, Brasil, Alemanha, Chile, Uruguai, França, Costa Rica, Estados Unidos, México, Argentina e outras pareciam realíssimas diante da aturdida multidão da Copa que já não teve. Futebol e fiçção andam entrelaçados pela tal Copa do Mundo FIFA de 2014, a mais insólitas de todas as Copas. Nesta Copa, as representações do real estão, incontornavelmente, atreladas à ficção; a ficção se transformou mesmo na verdadeira Realidade.

Durante este período, talvez o que menos tenha chamado a atenção foram os momentos rasos de normalidade. Até o “renomado” jornalista Mário Sergio Conti aderiu à atmosfera abjeta da duplicidade do real. Ao entrevistar seriamente o sósia do técnico Scolari, Conti talvez tenha rompido com as margens que separam o real e seu duplo. Tal qual no filme fabular “F for Fake” narrado por Orson Welles, as fronteiras que demarcam o orginal e a cópia foram borradas e o que teria sobrado seria um quadro documental do caráter inapreensível do real. Curiosamente, o sósia de Scolari deu respostas mais sensatas e sóbrias do que o próprio. Será que se Conti encontrasse Inri Cristo com suas beatas diria que falou com Jesus ressurecto?

Outra cena interessantíssima foi a de uma cadeirante que voltou a andar em plena Arena Itaquerão durante jogo da seleção nacional. Isto sem falar nas defesas assombrosas do goleiros Howard, Ochoa e outros. Teve também o poste urinando no cachorro e a banana deglutindo o macaco com a surpreendente seleção da Costa Rica a matar o chamado “grupo da morte” entre Inglaterra, Itália e Uruguai.

Deveras lírico foi toda a metade desta lírica Copa supefaturada que teria custado a bagatela de R$ 28 bilhões de Surreais, sendo, assim, a Copa mais cara da História para uma FIFA que não pagará impostos. Tal qual um circo itinerante que leva sua tenda. Continuamos no plano mitológico dos discursos reais que tendem à ficção. Seguimos pelos traçados das verdades críticas, plásticas e permanentemente instáveis. Esperamos por mais inusitados lirismos de mulheres protegendo o baço para ir no FIFA FANfarronice FESTA, barrigas negativas das musas de plástico, Amor em tempos de cólera, Amor em tempos de Tinder; explosões químicas a ocorrer por toda parte, por onde quer que novos corpos se entrelaçem.

Mas, e o que seria desta Copa sem a a mordida canibal vanguardista do atacante uruguaio Luis Suárez? Inspirado em Hans Staden, Francis Picabia, Lautréamont e Oswald, o centroavante já tem um histórico eclético em dentadas em adversários: primeiro pelo mitológico Ajax batavo, segundo pela Liga Inglesa por onde jogava Suárez até o momento no beatlemaníaco esquete do Liver/pool. A terceira mordida do vampiro uruguaio veio logo em plena Copa 2014, comprovando que o dianteiro é um personagem reincidente em suas aventuras e, praticamente, um Nosferatu pós-moderno. No entanto, indiferente às metáforas do espetáculo, a FIFA (bastião de um mundo politicamente correto) resolveu expulsar o centroavante-sensação da Copa de 2014. Ainda assim, há uma festa em seu cérebro. Luisito Suarez sabe que não há genialidade possível sem doses de loucura; doses homeopáticas de loucura. Com diamantes em seus pés e lobos em seus olhos, Luis Suarez é até agora a grande figura desta Copa das Copas.

(To be continued)

Augusto Guimaraens Cavalcanti é romancista, poeta e doutorando em Ciências Sociais. 

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Publicado em 07/07/2014 por em Augusto Guimaraens Cavalcanti.
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