ORNITORRINCO

VERFREMDUNGSEFFEKT GOL

Minhas lembranças mais remotas me dizem que a Copa do Mundo sempre foi um período especial, alegre e cheio de emoções para mim e para todos os outros brasileiros. Com a chegada desse período tão aguardado, surge uma rara oportunidade de enchermos a boca para dizermos o quanto somos bons: pentacampeões. Eu mesmo fico besta quando digo que já vi o Brasil ser campeão do mundo duas vezes, e que meus pais já viram três, e que tem avô de amigo que é velho que nem o Zagallo e acompanhou todas as conquistas. Jura? Quem me dera ser Deca! Acho que é o que todo brasileiro pensa, ver o Brasil bater todos os recordes e ser o único país dez vezes campeão da copa do mundo. No fundo, o que todo brasileiro quer é fazer parte da história.

Agora, assistindo ao campeonato daqui da Alemanha, me sinto carregado de certo Verfremdungseffekt, o tal efeito de estranhamento/estrangeiramento (em alemão, “fremd” significa estranho e estrangeiro ao mesmo tempo) que Brecht conceituou como o modo de fazer o espectador assistir a um espetáculo como um estrangeiro vê um cidade pela primeira vez, ou seja, com distanciamento crítico. E penso que a coisa ficou ainda mais emotiva e histérica, afinal a cada toque de bola, a cada cobrança de pênalti as pessoas parecem ser tomadas não só pelas suas próprias emoções, como também pelas alheias, transmitidas por milhares de torcedores ao redor do país através de seus celulares e aplicativos, cada um tentando comemorar o gol com um gesto particular. Cada um tentando imortalizar o momento que fará parte de mais uma página da história do seu país: o hexacampeonato.

Mas o quanto disso tem valor? Seriam os austríacos piores porque comemoram até hoje a Copa de 1982, a única da qual eles participaram? É claro que não, afinal eles se orgulham de outras coisas como Freud, Reich, Schoenberg, Viena (capital cultural da música clássica, escolhida como moradia por Mozart e Beethoven) e uma arquitetura riquíssima, que vai do período Barroco ao Gótico. O futebol passa longe de ser uma ferramenta de afirmação histórica pros austríacos. Aliás, a história tem um gosto amargo, afinal eles foram responsáveis pelas duas grandes guerras mundiais; declararam a primeira, em 1914, quando o herdeiro do império austríaco Franz Ferdinand (sim, não é só um nome de uma banda de rock) foi assassinado na Tchecoslováquia, (república checa) e na segunda, de forma indireta, pois Hitler não era alemão, mas austríaco. E essa história é bem conhecida e eles estudam bem direitinho, não tentam se esquecer, como costumamos fazer no Brasil com os casos em que sentimos vergonha, como nossa ditadura.

Em 1970, a imagem de Pelé pulando e socando o ar resumia num único gesto a angústia de uma nação marcada por uma ditadura militar que já durava seis anos, junto com o grito de vitória preso na garganta desde 1962. Agora, agora todo mundo parece estar pulando no ar e socando e chutando pra todos os lados! Talvez, essa seja a marca da nossa geração no Brasil: nos tornamos reféns das nossas emoções e não sabemos nem mesmo porque torcemos por um país, cuja ditadura durou 21 anos, e que até hoje não puniu seus torturadores.

E mesmo que o jovem intelectual brasileiro argumente que a oposição entre emoção e razão é velha e ultrapassada, que nossa cultura do espontâneo, do samba e do futebol é tão relevante quanto a tradição letrada, que a Copa do Mundo é o exemplo da superação das contradições hegelianas, me pergunto se isso não é só mais um clichê para salvaguardar nosso desejo oculto de gritar que somos melhores que os outros em alguma coisa, nem que seja simplesmente na maneira que conduzimos a bola até o gol do adversário. Não é a toa que o brasileiro vaia o hino da seleção adversária, porque não há respeito nenhum, somente arrogância e desejo de vingança contra nem se sabe o quê.

Em 1990, eu tinha seis anos e não me lembro de ter torcido, mas lembro da coleção de copos da Pepsi, principalmente do que tinha o rosto do Careca, um craque que foi esquecido porque não foi campeão. Em 1994, enlouqueci e quase não ouvi a gritaria do Galvão Bueno na TV, porque estava batucando na panela com uma colher de pau debaixo da pia da cozinha da casa da minha vó, como se fosse um índio numa espécie de mandinga maluca. Em 1998, fiquei triste e chorei. Em 2002, comemorei, mas sem o mesmo entusiasmo, talvez porque os jogos eram cedo demais e eu estava sempre de ressaca. Em 2006, vi o Brasil ser desclassificado do camarim do teatro e logo em seguida entrei em cena pra fazer uma comédia, ou seja, “no time for tears”. E em 2010, eu juro que não me lembro. Acho que já faz algum tempo que deixei de torcer pela seleção brasileira. E isso é tão claro pra mim, que nem tenho dúvida quando alguém me pergunta porque não estou no Brasil durante a Copa. Me interesso por futebol amador, acho fascinante a galera jogando bola no campinho de areia e depois bebendo cerveja, mas profissional, não curto, não. Não gosto da Fifa, da CBF, do que o Ronaldo Fenômeno se tornou e não curto Copacabana quando lotada de turistas, a rua fica cheia de caixa de pizza da Dominos pelo chão. É deprê.

Não torço pro Brasil perder, porque acho ingênuo quem acredita que isso faria o pobre torcedor brasileiro refletir mais sobre política ou sua condição social. Pelo contrário, o alienado não se cura com tristeza, nem com alegria, mas com informação. Ele precisa ler Machado de Assis para saber que louco é ele mesmo e não o mundo. E também não gostaria que algo tão dramático, quanto a derrota na final de 50 pro Uruguai no Maracanã, voltasse a acontecer, porque acredito que essas lembranças ficam marcadas na memória das pessoas e só aumentam ainda mais o impulso de vingança e acumulam no coração do brasileiro um ódio, que só se cura com mais ufanismo.

Porém, não queria que o Julio César fosse o herói da semana. Ao invés da cria da Gávea (por sinal, a coisa mais estúpida que li, até mesmo durante a Copa, os flamenguistas inventam uma maneira de se sentirem superiores aos demais brasileiros, simplesmente pelo fato de terem nascido ou sido criados na Gávea, provando que além de ufanista o brasileiro é bairrista e provinciano) preferia que nosso herói fosse da Penha, como Augusto Boal, esse sim um cara que “salvou” o Brasil do “realismo” chato e mostrou que assim como o futebol, o teatro deveria ser experimentado como um jogo de reflexões sobre nossos papéis sociais e políticos.

Estou torcendo para outras seleções como Argélia, Nigéria e Grécia. Infelizmente, durante a elaboração desse texto, a Grécia perdeu pra Costa Rica (o que por um lado me agrada, afinal, a impressionante quantidade de seleções das américas derrotando seleções da Europa nessa Copa é um sinal da revolta pós-colonialista no futebol?). Porém, o que me comove é que os gregos tinham motivos de sobra para torcer por sua seleção, afinal, não lhes sobram muitas outras fontes de alegria, vivendo num país, que sofre a maior crise econômica da Europa e com os maiores índices de desemprego. Depois dos turcos e dos italianos, os gregos formam a maior colônia de imigrantes na Alemanha, e hoje a noite é possível ver um monte deles chorando pelas mesas dos bares. Isso prova que futebol nada tem a ver com justiça, nem com religião, pois se tivesse eles estariam muito bem amparados por Athenas ou Apolo. Mas esses são deuses do passado.

Na teoria, o brasileiro não precisa tanto desse título quanto os gregos, nigerianos ou argelinos, porque temos muitas outras vitórias para comemorar, como os dez anos do programa Fome Zero, ou o início da Comissão da Verdade. Mas quem paga R$ 999,90 num ingresso da Copa para xingar seus governantes, não deve estar muito feliz com essas conquistas. Afinal, elas só beneficiam o pobre torcedor brasileiro, que reza pra Deus todos os dias, agradecendo pela comida, pedindo saúde pros familiares nos corredores do SUS à espera de atendimento e rogando por proteção para seleção. Como Hulk disse, graça à Deus deu tudo certo! Bom, se Deus é mesmo brasileiro, ele já deve estar bastante cansado!

Fabrício Belsoff é ator, bailarino, artista visual e diretor da ocupação ‘No Lugar’ no Teatro Ipanema.
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Informação

Publicado em 01/07/2014 por em Fabrício Belsoff.
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