ORNITORRINCO

TRAJETÓRIAS INDIVIDUAIS EM UM DESTINO COLETIVO

Há fases em nossas vidas em que ansiamos o dia de amanhã. É uma espécie de ansiedade juvenil pela qual projetamos no [incerto] futuro, a vontade de realizar os nossos desejos ainda “naquela idade”. Muitos falarão – no alto de suas experiências – que essa é uma projeção ingênua dos mais jovens. Talvez eles só falem isso por estarem em uma fase de suas vidas em que eles mesmos já se tornaram mais incrédulos sobre a própria capacidade de sonhar. Ainda assim, convenhamos que a realidade – racional que só ela – pesa bastante sobre a descrença humana em relação aos sonhos que poderia produzir.

Sonhadores convictos ou racionais pragmáticos, cedo ou tarde, criarão a noção de serem os maiores responsáveis pela trajetória que construíram ao longo de suas vidas. Desse momento em diante, o indivíduo, na vivência de seu caminho pessoal, aguça o seu olhar e se torna até mesmo mais responsável. Compromete-se em encontrar caminhos alternativos que o leve para um futuro diferente e alinhado às suas convicções.

Por vezes e não raro, só restará a ele seguir conforme os caminhos forem sendo oferecidos pela vida. Isso porque a realidade é forte e se impõe sobre nós. Logo ela trata de ensinar que as nossas trajetórias não se bastaram na mera realização de vontades individuais. Apesar dessa constatação, mesmo com essa constatação, a realidade – como nos é dada – não nos convence. Sobreviver a ela parece ser muito pouco. Na verdade é absolutamente frustrante. Já que estamos aqui queremos mesmo é existir.

Dá-se, então, um embate brutal com a realidade da vida. O indivíduo, ousado que é, ignora as evidências das circunstâncias que lhe cercam e projeta na capacidade de trabalhar arduamente a possibilidade de fugir à regra e, assim, viver a vida imaginada para si. Sem medos, arregaça as mangas e se lança a ávida determinação de escrever a própria história. Tanto empenho resultará em algum tipo de mudança. Geralmente, é daquela que aproxima indivíduo um pouco mais do que ele havia previamente projetado alcançar. Quando essa aproximação finalmente se conclui e a vivência do objetivo de desejo se estabelece, por um instante, no indivíduo emana a sensação de ter “dominado” os rumos de sua própria história.

No alto dessa auto-suficiência – e, portanto, num patamar de absoluta ingenuidade – esse mesmo indivíduo se apressa em idealizar a próxima conquista. E vai pra ação. A fórmula já lhe será velha conhecida: trabalhar arduamente para sobrepor o pouco que a realidade lhe oferece. Instaura-se, então, um ciclo compulsivo aonde o indivíduo “paga pra ver” se a força da realidade o vencerá ou não. Sem perceber, ele está tão brutal quanto à própria realidade que combate. Inicia-se o jogo… Feito pra alguém perder. Na verdade, pela ânsia de ganhar, o indivíduo não nota que ele já perdeu essa partida. Isso aconteceu no momento em que ele mesmo transformou os seus desejos pessoais em meros alvos a se atingir. Sem surpresas, quando, de fato, o objetivo desejado é alcançado, ele percebe que a conquista obtida não era exatamente como havia ele imaginado no passado. E quem chegaria igual após uma empreitada como essa?

Para que não façamos da própria vida um jogo vazio, em alguns casos e para algumas conquistas, precisamos desconstruir idealizações feitas no passado para darmos uma boa sequência à história. Isso porque os nossos planos e desejos estão, a princípio, sempre susceptíveis a uma nova revisão. Revisão essa que ocorre ao estarmos atentos aos sinais emitidos ao longo do caminho vivido em nossa trajetória. É dessa atenção sutil aos detalhes que, muitas vezes, surgem direções até mais interessantes a se seguir. Mudamos, então, os nossos rumos e planos. Ainda assim, completamente alinhados as nossas convicções.

De certo, a aproximação de vida que dialogue com as nossas convicções será sempre mediada por muito trabalho. Dedicação e um pouco de sorte também. Só precisaremos ter o cuidado de não tornar a própria vida em um jogo incessante que nos cega. Vale muito mais aproveitarmos os caminhos conhecido ao longo de nossas trajetórias. Será dessa observação atenta que modificaremos a forma como pensamos e sentimos o nosso fazer. Quem sabe assim, não “caia a ficha” de que as situações impostas pela brutal realidade são pontualmente necessárias, pois são elas as circunstâncias que nos convocam a refletir sobre as direções de nosso próprio destino coletivo.

André Silva é doutorando em Administração de Empresas pela FGV/EAESP.

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Publicado em 27/06/2014 por em André Silva.
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