ORNITORRINCO

SE VOCÊ É JOVEM AINDA

É só no que penso, a juventude. Antes de dormir, debaixo do chuveiro, na janela do ônibus, ao lado do meu amor, andando na rua. Sobretudo observando as pessoas. Quanto de juventude ainda lhes resta? Quando foi que perceberam que esta se esvaíra? Os muito jovens se preocupam em não mais sê-lo? Qual é o tempo da juventude? Eu ainda pareço jovem? Aquele fulano ali, é jovem? Gente, é sério, parece bobeira, mas não consigo evitar.

Happy Hour. Eu não quero frequentá-los. É decadente. Adultos com roupas sociais, mangas dobradas, colarinhos desabotoados, paletós na cadeira, aquelas bolsas grandes de mulher (que custaram R$ 60 na barraquinha), apoiadas na cadeira, salto alto preto, bege, cervejas, conversas fora do escritório, sobre o escritório, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre os casos, sobre o dinheiro e a falta dele, sobre as notícias da TV, sobre o trânsito, a política, os preços altos, o aumento que não vem. Sobre burocracias. Conversas burocráticas. Pessoas burocráticas. Vidas burocráticas. Corram para as montanhas!

Escritório. Eu não quero frequentá-los. É deprimente. Aquela luz branca, mesas com computadores, cada um no seu, horário a cumprir, ponto a bater, contra-cheque (eu nem sei o que é isso). Recursos Humanos, chefe, mais roupa social, mais conversa burocrática. Encher linguiça enquanto não se tem com o que preencher aquele tempo livre se o serviço está adiantado. Passar, seis, oito, doze horas dentro de um prédio, no mesmo andar, com a cara no computador. Corram para as praias, para as montanhas, para qualquer lugar, porque qualquer um é melhor.

Contas a pagar, seguros, planos de saúde. É muito confuso. Não entendo nada disso, eu queria passar sem entender. Ei, como assim vou ter que ir ao banco, entender de tarifas, siglas, letras de rodapés… Vou para uma ilha deserta, viver com os caranguejos, torcer para ser sempre jovem e ter uma boa saúde.

Falo por mim que sou mulher: os cabelos são alisados, encurtados e aloirados. Eis a forma dos cabelos das mulheres aos 50 anos. Daí elas vão ao shopping e entram em lojas de mulheres maduras, compram tecidos coloridos sobriamente ou estampados sobriamente. As bijuterias podem ser muito grandes ou bem pequenas. Sapatilhas. Não há liberdade, parece. Céus, estou impregnada de uma visão pessimista de “adultos”, eu sei.

A saúde não é tão boa, a visão piora, a pele resseca, a gordura se acumula. Ser adulto parece muito chato. Burocrático. Quando saio a noite e vejo um Happy hour, penso: nossa, ainda bem que eu nunca vou frequentar essas coisas, andar com pessoas de escritório e precisar ter uma brecha da semana pra poder parecer estar me divertindo. Qualquer dia é dia quando se é jovem, qualquer hora é hora. Não me importa se amanhã as 7h30 tenho aula em Botafogo. Se quero ir a Niterói depois do estágio numa quarta-feira à noite. Amanhã acordo cedo, mas talvez até falte a aula, talvez nem durma e chegue virada. Olha essas olheiras de juventude!

Ana Luiza Rigueto é estudante de Jornalismo.
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Publicado em 27/06/2014 por em Ana Luiza Rigueto.
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