ORNITORRINCO

CARTA COM FINS LUCRATIVOS

Querido Dinheiro, há quanto tempo! Já faz alguns meses que você não aparece, não me dá notícias, não sei por onde anda, embora tenho certeza das pessoas com quem você tem andado. Tá tudo certo contigo? Por que sumiu? Fiz alguma coisa que você não gostou?

Entendo que passamos por alguns momentos um tanto quanto conturbados, mas não posso dizer que chegamos ao exagero, pois sempre tentei ser sincero, nunca fingi um afeto que não tinha. Vivemos boas fases juntos, fizemos coisas que, só de lembrar agora, nem acredito. E sei que muitas vezes fui duro contigo, te criticando, questionando seu caráter. Mas, Dinheiro, devo dizer que realmente há algo em você que me deixa bastante incomodado. É verdade, eu sei, um dos grandes julgamentos que faço sobre você é a respeito da sua falta de personalidade. Já conversamos sobre isso, do quanto você é vulnerável, de como suas opiniões mudam dependendo de com quem você está. Sei lá, não quero parecer manipulador, nem muito rigoroso, mas você tem feito coisas realmente revoltantes. Você vai responder que a culpa não é exatamente sua, mas, francamente, Dinheiro, você é muito influenciável. Parece que nunca cresce. Só acho que poderia ser bem mais seletivo com suas amizades.

Desculpa, aqui estou novamente falando a mesma coisa. Não quero ser entendido como se eu estivesse me considerando a melhor companhia pra você, no entanto, conheço alguns dos seus outros amigos e não vou negar que você tem andado com uma gente de péssimo comportamento. Não estou dizendo que é todo mundo, só que, sei lá, abre teu olho. Tem gente dizendo que é teu amigo, só que na real só quer se aproveitar.

Eu me preocupo com você. Acho mesmo que essas amizades estão te desvalorizando. Não estou dizendo que essas amizades não gostem de você, mas elas te sugam, te exploram, te fazem parecer mau, porque acabam lhe convencendo a fazer essas coisas ruins que você acaba fazendo por influência. Não quero que as pessoas pensem o pior sobre você, e não quero ter que ficar te condenando o tempo todo. Já brigamos muito, mas gostaria que você pudesse me entender.

Acho que amadureci. Entendo certos limites, prioridades, privilégios, consigo separar o necessário do supérfluo, enfim, acho que agora estou mais preparado para te receber. Quero esquecer qualquer desentendimento do passado. Vamos apagar isso e iniciar um novo encontro. Sinto falta dessa companhia que nunca mais apareceu. Geralmente você vem e fica pouco tempo, dessa vez poderia ficar um pouco mais. Estou mesmo precisando de você. Saudade. É, não vou ser orgulhoso, estou com saudade.

Dinheiro, venha me visitar. Pode vir a qualquer hora, pode ser no café da manhã, no almoço, no jantar. Podemos passar dias e dias juntos, fazendo coisas por aí. Vamos ao cinema, ao teatro, à livraria, há quanto tempo não fazemos isso? Quero viajar com você, passar férias, posso te levar à lugares que você não está muito acostumado a ir. Também quero te apresentar à uns amigos, tem uma galera aí que você tem que conhecer (inclusive tem uma rapazeada que nem te conhece). E quero voltar a trabalhar com você, a gente pode montar uns projetos artísticos, hein? Criar umas coisas juntos. Tô com umas ideias… aparece aqui que eu te conto.

Espero que você me responda. Não me liga, não, porque vendi o telefone. Nem manda e-mail porque vendi o computador e não tenho mais internet. Pode ser por carta, mas o melhor mesmo seria se você aparecesse pessoalmente. Assim de surpresa! Bom, é isso, Dinheiro. Estou aqui, como sempre, no mesmo endereço, na mesma conta bancária. Chega mais.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 27/06/2014 por em Gabriel Pardal.
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