ORNITORRINCO

AMARGURECER

Schopenhauer já dizia, de maneira quase acertada, que o amor era o objetivo do ser humano; que amar, como sinônimo de fé, não era algo que podia ser forçado, e que o homem está fadado a cometer todos os erros possíveis em nome desse sentimento essencial e primitivo. Esse mesmo filósofo morreu sozinho, com seu trabalho desconhecido e rodeado de uma matilha de poodles.

Esse amadurecimento ou “amargurecimento” – como pode ser mais adequado chamar – do ser humano ao longo da vida, e a supervalorização da experiência como sendo uma ideia de se tornar capaz de não errar mais de uma vez, é o equivoco do século. Porque se ama, sofre, desama, para ao final amar-sofrendo, e só então finalmente não mais amar, sem deixar de sofrer, agora solitário. E de que vale esse equívoco, se não como alicerce a construção de barreiras para novas e distintas experiências? O ‘amor fati’ de Nietzsche e a ideia de posse de si mesmo através da aquisição do outro, não eram assim visões tão pessimistas, mas tão realistas eram, que o amor como fé, de Schopenhauer, parecia, parece e é menos cruel, mais aceitável. E tirando toda aquela análise, sobre a biologia do amor em função da prole, quase ignorante e certamente preconceituosa da época, o conceito é sem dúvidas o mais palpável, apesar da contradição da intangibilidade.

Não tão distante de Nietzsche, Bukowski definia amor como uma espécie de preconceito, uma forma egoísta de pensar sempre em si antes de mais nada. Para ele, apaixonar-se deixava as pessoas perigosas, impacientes e psicóticas. Bukowski ao longo da vida adquiriu tamanha consciência de si que o fez deixar-se fluir sob qualquer sensação perversa que provocava. Portanto, não existe no mundo nada menos prático, mais subjetivo e inexato que o amor.

Porque amar é crer, e crença é crer sem se provar fato; acreditar tão somente. Esse é o destino fatídico de nossa raça, pelo amor complexo, pelo “ser amado por completo”, ou amar-se, como se o fosse, ainda que remotamente, possível.

Pobre Narciso, que amou sua imagem pra negar o profundo ódio sentido pela sua própria essência. Se o amor próprio fosse real, e afirmativamente possível, não haveria vida em sociedade. A real vontade é a que já se sabe, de que se quer ser reciprocamente amado, ainda que em pedaços, parte por parte.

Amar como exercício de erro e acerto é um caminho sem volta para o ‘centrismo do ego’, para a negação dos impulsos, para a mecanização dos sentimentos, e consequentemente o isolamento e o caos. De que nos vale enquanto indivíduos em comunidade uma maturidade, uma segurança, que nos priva do outro? Enquanto coletividade, a interação ainda é um mal necessário e imprescindível para viver, e sobreviver, sem perder aquilo que é hoje conceituado como “estado da mente sã”. Sem entrar no mérito clichê da benção da ignorância, é claro, pois isso também não é fato averiguado, apenas sejamos francos, sobre a lei da natureza que nos cabe enquanto bichos pensantes.

Na selva de pedras é amar ou morrer, sobrevivem os mais fracos, e assim portanto, os mais insensatos. Não sem dor, não sem sofrer, ainda que bem acompanhados. Aquela máxima já se fez inválida desde o século passado, e nem cabe mais ser aqui citada. Mas deixando o idealismo intrínseco de lado, a nova da época é antes estar mal acompanhado que na companhia de si só.

Freitas de Góis é estudante de Filosofia.
*Imagem no topo: Zara Davis
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Publicado em 26/06/2014 por em Freitas de Góis.
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