ORNITORRINCO

POR QUE FALAR?

Pessoas reclamam que outras não lhe atenderam certas expectativas e, ao serem questionadas se estas outras sabiam do que era esperado, logo há uma esquiva e a desculpa de que estava “subentendido”. Este é o pretexto para muito se evitar falar das intenções, dos sentimentos, dos pressupostos e das experiências: o “subentendido”, que significa, se já não ficou claro, entender abaixo da aparição ou da evidência. Em um exemplo, você guarda as próprias chaves sempre na gaveta azul. Para você, as chaves estão subentendidas à ideia da gaveta e de sua cor. Se alguém procura uma das chaves, você aponta a gaveta azul e isto é o suficiente. Contudo, o outro pode só ficar parado, olhando para o ponto indicado, porque não sabe que você liga uma coisa à outra.

Muitos alegam que falar contraria o “mistério”, fonte de encanto para relações. Falar seria racionalizar, analisar, o que é oposto à sensação. Neste caso, confunde-se falar com explicar. Posso dizer o que são as coisas para mim, sem tentar criar um sistema a partir destes significados. No romance “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera, o autor vê um casal de personagens se desentender e cria para os dois um dicionário, a fim de que saibam o tom que cada um carrega para as palavras mais importantes. Mas só o leitor tem acesso ao léxico, e a distância dos significados logo corrompe o casal, que atribui à distância e à separação o mesmo “mistério” que os uniu.

Também se acredita que falar é o mesmo que já saber: só dizemos o que já pensamos e concluímos, e se não concluímos, ainda não podemos dizer. Falar assim não seria arriscar, não seria duvidar-se, mas garantir a palavra. Falar é prometer, e promessa é forte. Um amigo, um familiar, um namorado pode ficar tempos em especulação sobre o outro enquanto está com ele, sem que este desconfie do que é considerado em seu nome. Às vezes só o descobre na anunciação conclusiva, em que já é despedido, ferido ou mesmo exaltado injustamente, sem que o outro tenha podido intervir ou reinventar. Este outro ainda carregará para si a culpa de não ter entendido a tempo “os sinais”.

E quais recursos se têm quando a outra pessoa se cala? Uns deles são as próprias experiências. Podem ser suficientes em algumas situações, se ainda há uma grande intuição, mas o acerto é incompleto, deixa uma sobra para a próxima rodada, e ainda gera um esforço que logo sofre desgaste. Em tantos outros casos, o que acontece é se projetar o que se viveu para enxergar aquilo que a outra pessoa guarda. O impasse para o propósito é que “cada pessoa é um ponto singularíssimo na Natureza, onde acontecimentos se cruzaram uma única vez”, como escreve Hermann Hesse em Demian. Hoje, pessoas podem conviver tendo sido criadas em países diferentes ou em religiões diversas ou vindo de outra camada econômica. A piada e a gíria de um bairro já não funcionam no bairro seguinte. Como meia palavra pode bastar, se seu complemento pressupõe um mundo que talvez não esteja ali?

Outro recurso é a generalidade. Para compreender uma pessoa em particular, eu utilizo o que parece pensar o gênero a que ela pertence. Para saber como pensa uma mulher e como ela reagiria ao que pretendo, eu extrapolo para o que deve pensar ou reagir A Mulher em geral. Aos mesmos fins existe O Homem, O Nordestino, O Favelado, num tempo em que uma das grandes lutas é vencer rótulos e conceitos preconcebidos. O silêncio pode levantar, sob as bandeiras da “naturalidade” e da “espontaneidade”, uma série de preconceitos velados, e pelo bem do fluxo se preferir a convenção. Esquece-se que em nossa “naturalidade” e “espontaneidade” mora uma legião de modelos arcaicos vinda de geração a geração, que em nós causa uma luta constante. Superá-la é também um passo que marca um indivíduo, e uma oportunidade de alguém se tornar singular em meio às generalidades é se mostrando para além delas.

Temos a ideia antiga de que o momento mais singular e pessoal, na verdade, é quando meditamos, isto é, ao nos retirarmos com os nossos pensamentos. Penso, logo existo. Chega a ser expressivo o número de pessoas que pedem um “tempo para pensar” ou que estão em uma fase de “autodescoberta”, e ninguém acha curioso o porquê de isto ser atribuído à solidão com tanta obviedade. Não poderia um tema ser encarado com uma presença, ganhando-se inclusive no empenho de fazer sentido para um novo olhar e percebendo-se nas lacunas do próprio discurso? Não haveria com alguém a possibilidade real da pergunta? Uma pessoa leva muito a sério os seus meses de meditação, mas gargalha se um garoto joga damas sozinho na calçada.

As palavras podem ser imprecisas, traduções infiéis da realidade, códigos feitos por convenção, o que seria um perigo nosso colocar tanta confiança no seu uso. Eis uma ideia que pode servir de defesa para o silêncio, mas se a tomamos em outro ângulo, ela mesma pode servir ao propósito contrário. Falo porque sou e o mundo é impreciso, infiel e inventado, pois se houvesse a precisão, a fidelidade e a realidade por ela mesma eu não precisaria provocar significados. Em outro exemplo, tome uma pessoa que se sente mal com o cheiro de uma comida, pois a lembra da morte da avó. O motivo é que, no instante em que lhe deram a notícia, cozinhava-se o alimento em sua casa! Qual é a melhor possibilidade de não lhe prepararem o prato no aniversário?

Saulo Dourado é escritor e professor de filosofia.

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Publicado em 25/06/2014 por em Saulo Dourado.
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