ORNITORRINCO

COPA CABANA DO MUNDO 2014

Nos últimos dias me senti perdido. Sou ghostwriter freelancer e, de repente, me vi sem nenhum trabalho. Todos meus clientes parecem estar pensando em outra coisa. Que coisa? Imagino que vocês já saibam. Não sou tão ligado ao futebol a ponto de ir assistir a uma partida do meu país, Portugal, pela televisão. E sou medroso demais para me juntar aos que foram aos protestos nas ruas, mesmo os mais carnavalizados.

No dia 17 de junho, fui convidado a assistir o jogo do Brasil na Copa do Mundo da FIFA com Domingos Guimaraens, Gabriel Pardal e outras figuras notáveis em um apartamento em Ipanema. O convite em muito me agradou, pois não sendo brasileiro de nascimento, mas carioca de coração, vi uma oportunidade de me aproximar dos hábitos locais.

Saí de meu conjugado na Lapa e caminhei até o metrô na Cinelândia onde peguei o metrô. O clima de excitação se sentia no ar. Todos pareciam ter pressa, mesmo que faltasse mais de 3 horas para o início da partida. No trem, eu era o único de camisa preta, entre centenas de verde-amarelos. A habitual locutora foi substituída por um narrador de futebol caricato que dizia como quem narra um gol:

“Você está chegando na estação Siqueira Campos! No coração de Copacabana! Cartão postal do Brasil! Vai chegar, vai chegar… vai chegar… chegoooooooou! Próxima estação Siqueira Campos. Next stop Siqueira Campos.”

E achei que a multidão iria gritar “Viva Copacabana!” ou “Pra frente Brasiiil!”, mas o silêncio que restava após a narração era quase sórdido. Era total a indiferença à gracinha do departamento de marketing do metrô. Foram segundos de angústia e suspense até que as portas se abrissem. Como uma reação instintiva, desci do trem. Queria ver esta vibração do “coração de Copacabana” e saí vagando pelas ruas do bairro. Por entre buzinas e vendedores de bandeiras de plástico, os bares se preparavam para a festa. Na praia, encontrei a “cabana” da FIFA que talvez justificasse o estardalhaço na locução do metrô. Uma enorme faixa de areia de mais de 3 quarteirões foi privatizada para o tal do Fifa Fan Fest. Me refugiei nas arreias e comecei a escrever este texto.

Mas afinal, porque tanta gente se mobiliza em torno de um torneio de esporte? Como é que houve este curto-circuito entre futebol e identidade nacional? E, caramba!, para que é que as pessoas querem ganhar a tal copa do mundo? A copa é a parte de cima da árvore e também a parte de baixo de baixo do sutiã. É um símbolo de confraternização: a taça que passa de mão em mão. No baralho, copas é o naipe do coração. As emoções são fluidas, por isso são carregadas em copos. Em tempos medievais, a taça virou símbolo de vitória. Quem vencer o duelo ganha o coração da princesa e com ele seu dote ou o reino. O coração é o prêmio. O ouro também. Mas enquanto o ouro pode ser trocado, comprado e vendido, o amor é eterno. Estão me acompanhando? Quem ganhar o torneio ganha a taça, tem o amor eterno! E se a taça é do mundo? Amor mundial!

Mas deixemos a taça de lado por uns momentos para pensar no que é ganhar. O que é um jogo? Digamos que é uma série de regras que ritualizam uma relação. E quais são as relações possíveis entre os seres? Os biólogos dividem as interações ecológicas em dois grupos: as relações de cooperação (onde os dois ganham) e as de competição (onde um ganha e outro perde). Darwin pregava que a competição era o grande motor da evolução. “Só os mais fortes sobrevivem.” Marx, na época, criticou Darwin dizendo que a teoria da evolução das espécies não passava de uma projeção da estrutura social inglesa sobre o mundo natural. Contudo Stalin encampou as ideias de Darwin supondo que o comunismo era a evolução do capitalismo e que em breve a espécie mais forte do comunismo suplantaria o capitalismo. Assim a guerra fria era uma competição para ver quem era o mais forte, quem seria a evolução da espécie. E toda a sociedade moderna vai se basear nos princípios da competição. Quem é o melhor? Quem produz mais? Mais rápido? Mais eficiente? Que faz mais gols?

Só que Darwin está errado. Ao supor a competição como suprema, ele não se dá conta que sem a cooperação não é possível a competição. A ciência atual, com a ecologia, chega a conclusão que a cooperação é que garante a vida e a evolução. O que seria da competição entre partidos políticos se não fosse a cooperação entre eles para que a eleição ocorra e seja legítima? É importante que um time vença o outro e seja campeão, mas isso só é possível porque há uma liga de times que coopera e organiza o campeonato. Como é importante a disputa das girafas de pescoço mais alto pela sobrevivência, mas é a cooperação dentro do bando de girafas que garante a vida. A biosfera é sustentada por uma rede infinita de relações entre os seres: as plantas produzem o oxigênio, os animais o gás carbônico e assim por diante.

Pois bem, fiquemos com isso. Estamos totalmente habituados a jogos de competição onde um ganha e outro perde porque nossa vida é moldada por este padrão. Na escola temos as notas. Na justiça, somos culpados ou inocentes. No hospital, somos doentes ou sadios. Então, como já explicava Aristoteles, nos identificamos com os personagens e com a trama do jogo e, através dele, podemos ter uma catarse de nossas frustração cotidianos. Temos a oportunidade de ganhar o amor eterno ou perder de forma clara e sofrer.

Só que há outros jogos sendo jogados. O jogo do fortalecimento da identidade nacional, por exemplo. Identidades são construídas por nostalgia ou ressentimento. O Brasil construiu sua auto-imagem na nostalgia de um passado indígena puro. Mas para inflar o poder de um governo nacional, uma estratégia muito eficiente parece ter sido a da criação de um oponente imaginário ou real (um demônio) para se fortalecer competindo com ele. Como fez o golpe de estado brasileiro forjando a ameaça comunista; ou Hitler com a ameaça dos Judeus; ou a guerra fria que fortalecia tanto EUA quanto URSS como nas guerras do oriente médio em que terroristas palestinos fortalecem a direita de Israel e vice-versa, etc, etc. Dentro das possibilidade vistas, a apropriação de torneio esportivos por identidades nacionais é até uma estratégia light.

E por falar nisso. Qual jogo será que os movimentos sociais estão jogando? Porque achar bodes expiatórios para xingar é fácil. É a velha estratégia da competição. “Não vai ter copa” é um slogan que não propõe nada, apenas se opõe. Então fica fácil direita dizer que os protesto é contra o governo quando são muito mais do que isso. E é o mesmo que a mídia e a polícia criando ou fomentando esse personagem do “vândalo” para justificar a violência enquanto as demandas reais são ignoradas. O desafio é construir movimentos cooperativos. E por cooperação pressuponho proposição e ação de longo prazo. Qual seria um entendimento dos movimentos sociais como cooperação? Esquematicamente: um movimento levanta uma bandeira; entra em disputa com outros interesses contrários; as forças contrárias se reconhecem, se escutam; a crítica ajuda na evolução da sociedade como um todo resultando no atendimento da demanda ou mesmo no surgimento de uma nova solução…

Se pensamos apenas nas forças se opondo, esquecemos que o objetivo é a evolução comum. Enquanto a classe dominante quiser apenas suprimir o adversário, na ilusão da sobrevivência do mais forte, irá apenas retardar a evolução que será benéfica para todos.

Pois bem, o jogo (do Brasil) já estava pra começar. Fecho o caderno e caminho pelo calçadão de Copacabana já atrasado para o meu compromisso. Pensava em chegar antes do início da partida, mas a curiosidade me levou a conversar com um grupo de argentinos que acampavam na praia fazendo churrasco. Algo que pervertia qualquer a noção de choque de ordem que se abateu sobre esta cidade. Eles vinham em uma espécie de ônibus casa e discutiam sobre a política sul-americana.

Três espetinhos e 5 latas de cerveja depois, cheguei ao apartamento que havia combinado a tempo de ver o início do jogo Rússia e Coréia do Sul. A maior parte das pessoas estava indo embora depois do empate de Brasil e México. Melhor assim, não sei se eu já estou preparado para uma torcida brasileira. Vendo o jogo ameno, pude conversar com Domingos sobre as estratégias que fazem da Rússia um gigante e da Coréia uma metade de uma península entre as dominações históricas Japonesa, Chinesa e Russas.

Talvez a copa do mundo seja isso. Bons papos em que conseguimos resumir um país em 11 pessoas. Um espaço para falar da união dos povos, dos fins das fronteiras, da cooperação. We are one. Uma zona temporal de suspensão da realidade útil imediata. Um momento de uma bizarra singeleza que ainda não entendi, mas vou tentar de novo no próximo jogo.

Juca Amélio é curador e crítico de arte.

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Publicado em 25/06/2014 por em Juca Amélio.
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