ORNITORRINCO

O DESAPEGO DE DUAS MULHERES QUE CONHECI

Adoro observar as pessoas e seu comportamento. Adoro igualmente me observar. Em pouco tempo as duas, a figurinista e a modelo foram foco da minha observação e fizeram com que me observasse muito e aprendesse muito.

Já me envolvi em relacionamentos de todo tipo. Já morei com mais de 20 pessoas diferentes em lugares variados desde que saí da casa dos meus pais com 18 anos pra morar em NY. Já fiz variadas terapias e já frequentei religiões e cultos diferentes. Recebi muita gente de Couch Surfing em minha casa, com algumas me envolvi. Já perdi parentes e amigos próximos.

Conto isso porque estas situações de conhecer e viver com tantas diferentes pessoas foram ótimas oportunidades de autoconhecimento. Paralelamente, sinto que tantas mudanças, experiências e tantas pessoas que amei, e amo, entraram e saíram da minha vida e me ensinaram muito sobre desapego, sobre perceber que tantas vezes não se tem escolhas sobre quando e quem sai da sua vida. Além disso, estas experiências me ajudaram a discernir quem realmente me causa interesse, quem acredito que tem a ver comigo, quem gosto já de cara e de quem gostaria de me apegar.

É evidente minha admiração e encanto pelo sexo feminino e por algumas mulheres em especial. É o caso da figurinista e da modelo. Além de descendência italiana, ambas têm características que me encantam: uma beleza simples e uma simplicidade linda de garotas que vem de cidadezinha do interior. Como se não fosse tudo, as duas mencionaram uma palavra em comum: desapego.

A figurinista é de Piumhi, ela é mignon, e a estrutura pequena inversamente proporcional a sua atitude. É irônica, de humor inteligente e rápido, se veste com muito estilo sem exagero, possui um perfume natural de maracujá com maçã que mistura com um artificial que dá vontade de cheirar, lamber e morder o corpo dela todo, um cabelo que dá vontade de cafungar com todo cuidado e depois puxar com selvageria, e uma nuca hipnotizante que quando ele prende o cabelo me desconcentra na gravação.

Eu casaria fácil com essa mulher, ela gosta de frio e tem espírito de gordo como eu, entende minha ironia no olhar, acordaria todo dia cheirando aquela nuca, sorrindo junto com ela que também acorda de bom humor. Ela, no entanto, acaba de sair de um namoro longo que a traumatizou e de outro em sequência porque o cara queria casar. Aliado a uma situação relacionada a saúde, fez ela ter medo, ojeriza, ou sei lá o quê, de se envolver e aprofundar suas relações amorosas e enfatiza isso o tempo todo. Ela fala em desapego.

A modelo é de Pérola, ela é tímida a princípio, mas falante, assim que se sente à vontade. Ela conserva seu ar de garota do interior que a deixa com um charme ímpar. É alta na medida exata, e tem uma postura ereta que chama atenção desde longe. Fecha os olhos quando ri, mostra os dentes num sorriso perfeito e fica com covinha maior do lado direito que do esquerdo, uma assimetria deliciosa. Tem senso de humor e entende rápido o que é piada com um sorriso de boca fechada de estilo Monalisa. Falando em boca, a dela é de Angelina Jolie e se se for bobo ou facilmente distraído não se ouve uma palavra perdido no abre e fecha junto com sua cara provocante de Lolita, de novinha – que é – mas tem maturidade e atitude de mulher. Isso tudo estando ela cansada e acabada de 300 horas de viagem numa segunda feira no terminal rodoviário Tietê às 6h da manhã.

Eu casaria com essa mulher, eu beijaria eternamente aquela boca e viajaria pelo mundo de mãos dadas com ela. Mas ela viajou muito, já morou em Paris, NY, Milão, e falou da frieza das modelos que moram com ela, de que viajar tanto, te faz ficar mais frio mesmo, é melhor evitar se envolver. Ela falou disso como sendo desapego.

Descrever essas duas mulheres é um pouco tentar explicar, ilustrar a minha admiração, desejo e interesse por elas, para chegar no ponto principal desse texto. Descrevi as duas não porque são mulheres interessantes, lindas e deliciosas, mas porque tocaram, de maneiras distintas, logo de cara num ponto chave do texto e da vida pra mim: desapego.

Em muito pouco tempo as duas me fizeram sentir coisas boas e o desapego começa por aí. Quando se trata de algo que não te faz falta ou que você não considera bom, não há desapego.

Para você modelo, digo que pra haver desapego há que ser bom, ter calor, querer, porque afinal, que desapego existiria em deixar pra trás algo que não te fez sentir nada de bom? Algo que você não liga em largar? Pessoas que você não desejaria aproveitar a presença em sua vida? Aí reside o desapego: aproveitar o que existe, quando existe, mas não lamentar quando não está presente, e não se desesperar por sua ausência. Por mais que seu destino de modelo seja incerto, cheio de possíveis viagens e desfiles, me diga: qual futuro está escrito em pedra? Quem pode com absoluta certeza dizer que daqui há seis meses estará aqui ou lá?

Desde que voltei de NY, estive sempre na iminência de mudar de cidade novamente. Por oito anos estive no Rio e se você me perguntasse em fevereiro desse ano eu não teria razão alguma para imaginar e dizer que hoje, em junho, eu não continuaria no Rio. E, no entanto, estou vivendo em São Paulo. Imagine você quanta coisa sensacional com tanta gente maravilhosa teria deixado de viver caso me abstivesse, me precavesse da possibilidade de mudar de cidade.

E minha cara figurinista, você me fala do caso de saúde e de como só através dessa situação você passou a pensar que tudo podia acabar, simplesmente assim. Mas me diga, quando é que tudo não pode acabar simplesmente? Quando é que houve alguma garantia que você, eu ou qualquer um, vai viver o dia de amanhã? Para morrer, basta estar vivo, dizia meu pai, falecido há 12 anos. Eu tenho que te dizer que desapegar não quer dizer não se apegar, pelo contrário, quer dizer ter muita vontade de se agarrar e até se agarrar de fato, mas saber deixar ir, é a vontade de guardar na prateleira, mas mostrar para o mundo, é gostar tanto a ponto de não querer usar para não gastar, mas usar a ponto de quase desperdício. Desapegar quer dizer se apegar muito e com todas as suas forças mesmo que só por um segundo, para no segundo seguinte, saber desapegar.

Não há desapego se não houve apego, figurinista, não há do que desgarrar-se se não houve aprofundamento, se não há raízes na relação a ser deixada pra trás, não há desapego algum se a gente fica na superficialidade.

O desapego não é triste. Pelo contrário, é feliz. É saber que aquele momento é só aquele momento, e aí desapegar não é ser frio e não sentir, pelo contrário é sentir mais e mais intenso pela consciência que aquele momento com aquela pessoa é sempre único, mesmo que se repita. É aquele ensinamento que diz que um homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes, nem o homem nem o rio serão mais os mesmos. E assim você não reclama e chora tudo o que você não viveu ou não poderá viver com a modelo ou com a figurinista, mas agradece e aprecia cada segundo que tem, teve ou terá, junto a estas pessoas ou momentos aos quais você gostaria de se apegar.

O que acontece é que as expectativas que se criam são uma forma de apego. Eu não estou apaixonado por nenhuma das duas, mas eu vislumbro claramente o quanto de possibilidades maravilhosas eu gostaria e poderia viver com essas mulheres. Só que se me irrito, me entristeço ou me revolto, uma vez que o que esperava e imaginava não acontece, é não saber desapegar. É uma forma de apego a essas projeções da minha cabeça, esses possíveis futuros. Tenho e busco os meus objetivos, mas consciente de que não depende apenas de mim e do meu querer. Pode vir a ser diferente do que esperava e, assim, procuro desapegar das minhas expectativas, estar sempre aberto pra acolher o que venha a acontecer.

Eu sentiria inenarrável, indescritível, prazer caso me relacionasse de forma um pouco mais profunda, intensa e “apegada” com uma dessas duas mulheres incríveis, mas o significado, os propósitos e a alegria da minha vida não mudariam caso eu nunca mais as encontrasse. Talvez isso soe mal, minhas caras, mas não achem que é cuspir no prato que comeu, pouco caso, arrogância ou soberba. Sou agradecido a vocês. Vocês também me ensinam um pouco mais sobre o desapego.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 23/06/2014 por em Franco Fanti.
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