ORNITORRINCO

VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE… NÃO, NÃO VOLTO

A vida é um movimento só e por isso gosto de ir embora. E gosto de voltar. Às vezes gosto até de não voltar. Fugir me agrada. Muitas vezes gosto mais do longe do que do perto. Estar longe aguça a criatividade, treina o desapego, trabalha a imaginação, me dá espaço. Sei que a minha sina é partir e por isso não tenho pressa.

Desde que fiz minha primeira viagem de avião sozinha, aos 10 anos, de Paris para Lisboa, viajar se tornou algo essencial. Eu, minúscula e magricela na imensidão que era o Charles de Gaulle. Foi o primeiro hit, sentir toda aquela adrenalina de partir, aquele sentimento de power-woman prematuro, independência e medo – viajando encontrei um espaço entre espaços que é meu. Viajando entendi que o caminho é o que me interessa.

Por isso sempre me senti em casa em aeroportos, sempre gostei de viajar de avião, de trem e sempre fui fã de roadtrips. Porque para frisar o clichê, o destino realmente pouco interessa, ele é importante apenas para dar a direção.

No Brasil aprendi a gostar de viajar de ônibus e achar uma viagem de seis horas uma coisa perfeitamente normal e curta. Gosto de parar onde todo mundo corre. Gosto de observar as pessoas em seus movimentos, imaginar histórias, torna-los as personagens principais da minha sessão da tarde.

No que já percorri por aí, descobri que as rodoviárias brasileiras são mais fascinantes que qualquer aeroporto internacional. Aeroporto é cinema, Hollywood. As grandes cenas de reencontro, desde o casal que se vê de novo, a família que se funde em abraços, aos amigos que aparecem com cachos de banana na cabeça para receber a amiga. Aeroporto é mercado de luxo, espaço amplo, lojas de marca, restaurantes conhecidos, segurança.

Já as rodoviárias são telenovela, das baratas e antigas. Cenas de trama e traição, mil e um tons de pele, coragem de fazer 500 a 2000 km para ir visitar a mãe. Isso é amor, isso sim é vontade de viajar. E para quem não entende o que é fazer 25 horas de viagem só para ir para a Bahia, digo-vos é muito mais agradável do que parece, e atrevo-me até a dizer que é uma escolha bastante “civilizada”.

No mais, sempre gostei de andar, sempre tive dificuldade em ficar sentada e quieta durante muito tempo e ao que alguns são “commitment freaks”, eu sou também, mas com cidades. Dizer que vou ficar aqui nos próximos anos me dá falta de ar, assim como dizer que vou voltar ou que vou morar os próximos 3 anos em Berlim. Partir é preciso. E acredito que um dia, voltar seja necessário. Pois se me perguntarem “Quer passar um ano aqui?”, eu vou.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
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Publicado em 22/06/2014 por em Sahara Boreas.
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