ORNITORRINCO

É CLARO QUE A COPA NÃO ESTÁ SENDO NO BRASIL

É claro que a Copa não está sendo no Brasil. Não sei de onde tiraram essa ideia mirabolante. Seria por demais incoerente, por demais ultrajante. Estamos assistindo filmes americanos demais.

A Copa não está sendo no Brasil, e, pelo menos no Rio de Janeiro, eu posso confirmar que a Copa não está sendo. Prova disso é que temos acompanhado os jogos como sempre acompanhamos: pela televisão. É preciso dizer mais? Não conheço um só amigo, nem amigo de amigo de amigo, que tenha estado em um estádio desses que dizem ter custado 11 bilhões, desses que dizem que há por aí.

É claro que a Copa não está sendo no Brasil, mas para que pudéssemos acreditar que está sendo, foi montado todo um esquema de se tirar o chapéu.

A começar que os estrangeiros que temos visto pelas ruas são na verdade brasileiros bilíngues ou poliglotas, contratados pelo governo para fazerem o papel de turistas da suposta Copa. Afinal, somos o país da teledramaturgia. Aprendemos desde muito cedo que, sem uma boa figuração, o espectador não acreditaria nas façanhas da vida dos protagonistas.

Os “estrangeiros” são, em sua grande maioria, professores ou alunos destacados do Fisk, CCAA, Aliança Francesa, Wise Up e Pink and Blue Freedom, devidamente caracterizados e roteirizados com magistral coesão. Há relatos de que os ensaios foram fatídicos e é por isso que temos a impressão de que todos são pessoas de verdade, com passado, presente, passaporte, pai e mãe, dores de amor mal cicatrizadas, sonhos inconclusos, tudo nos conformes. Não é uma tarefa fácil, pois além de fingirem torcer, eles têm que aprender os hinos, correr atrás dos ônibus das seleções, dar entrevistas à Patrícia Poeta, à Fátima Bernardes, ao Danilo Gentili e pagar R$ 18  em um açaí de 300 ml em qualquer casa de sucos.

No fim de um dia comum de trabalho, os que fingiram torcer pela Croácia se dirigem até um gigantesco depósito de figurino localizado em Curicica e trocam as camisas para amanhã fingir torcer pela Holanda, e assim sucessivamente. É um sistema de revezamento genial. Como os pseudo-torcedores são sempre os mesmos, têm de ser muito bem alimentados, o que não é um problema pois para isto o governo brasileiro conta com a parceria do Mc Donald’s.

Dormem em abrigos secretos instalados em bairros do subúrbio carioca, aqueles que não são abençoados por Deus nem bonitos por natureza, tais como Sulacap, Guadalupe, Marechal Hermes, Vila Militar, Realengo e Bangu.

A locomoção é feita por ônibus especiais cedidos pelos Nações Unidas, mas caracterizados especialmente por um discreto Romero Britto, para que se confundam em meio à selva da cidade com o transporte comum do cidadão comum.

Os ônibus e moto-homes de argentinos são uma obra-prima dos mesmos criadores de “Hoje é dia de Maria”. Os casais que se beijam, o fazem sem amor e sem língua. Pode prestar atenção. Está no contrato. É terminantemente proibido apaixonar-se durante a encenação do evento.

O motivo para tal brincadeira sem graça, confesso, ainda não descobri qual é. Mas toda essa nuvem negra certamente se dissipará quando for revelado oficialmente que tudo não passou de um Primeiro de Abril bilionário.

É claro que não destruíram o Maracanã pra colocar no lugar dele aquele imenso Shopping Center com um campo de futebol no meio. O que vemos pelas imagens aéreas nada mais é que uma capinha protetora do nosso Maracanã como ele era, como sempre foi. Na manhã seguinte à grande final, vão estacionar ali um Carvalhão pra retirar a tal capinha de milhões de toneladas e o Antigo Maracanã surgirá intacto, cheio de vigor e paixão, por debaixo dessa máscara temporária, feita apenas para agradar os pseudo-visitantes durante esse um mêszinho de elaborada ficção. É claro que o Maracanã nos será devolvido como gostaríamos que ele fosse. É claro que vamos voltar a encostar nossos ombros uns nos outros na arquibancada quando formos para lá torcer em partidas futuras com nossos times reais.

Estes corpos feridos, estes policiais armados, esta truculência: nada disso deve nos preocupar. É parte de uma intervenção urbana pensada por Make-up Artists hollywoodianos top de linha, sem falar na brilhante direção de elenco de Fátima Toledo. Não há o que temer. Sangue falso da melhor qualidade. Fuzil de plástico da melhor qualidade. Estilhaço de bala da melhor qualidade. Não há ferimentos reais, nem eles estão sendo impingidos em carne humana. Temos uma Constituição que nos protege. Vivemos em uma democracia. Temos nossos direitos garantidos. Devemos estar tranquilos. Tomar nossa Budweiser gelada em paz. Saltitar de felicidade estreando nossos Adidas em paz. Abrir nossa conta no Itaú em paz. Arrotar nossa deliciosa Coca Cola em paz. Buzinar nosso Hyundai zero quilômetro em paz. Fly de Emirates in paz. Telefonar e mandar mensagens ilimitadamente pela Oi em paz. Limpar o nosso cu com Johnson & Johnson em paz. E depois descansar. Merecidamente, descansar. Porque estamos diante da mais bem organizada e mais bem produzida novela brasileira da história. E também porque ver novela, meus amigos… ver novela também cansa. Não é mesmo, Galvão?

Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 22/06/2014 por em Keli Freitas.
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