ORNITORRINCO

SER UM OUTRO PRA SER EU MESMO

Sociólogos, antropólogos e historiadores costumam repetir que o Brasil é um país em busca de identidade. Que somos uma nação em construção – e parece mesmo que como povo estamos situados sempre no devir, como uma potência capaz de surpreender pela capacidade de sobreviver a infortúnios. Ao menos não temos terremoto, dizem alguns. Mas temos enchentes perigosas ocasionadas na maioria das vezes por um planejamento urbano que não respeita o meio ambiente.

Certa vez um amigo de descendência italiana reclamou que aqui as pessoas se importam muito com a vida dos outros, diferentemente do europeu – frio e individualista. Sim, somos um povo mestiço, acalorado, preocupado com a imagem que passamos para os que nos veem. E com máscaras nos vestimos para intermináveis papéis profissionais, sentimentais e familiares. Até para ir à padaria, tiramos alguma do armário.

A chegada à maturidade – que não vem com a idade, mas com a experiência de cada um – coloca de novo o olhar do outro sobre nós: o que realizamos na vida? O que somos, afinal? Essa obsessão por uma definição, ou uma representação de um papel social eficaz para sentirmos mais acolhidos pela sociedade não vem deslocada da obsessão do outro (um vizinho, um parente, um amigo, um namorado) em lhe dar um aval. É como se a construção da identidade – essa obssessão nacional – necessitasse de um avará. “Com firma reconhecida!” – cantou o poetinha Vinicius de Moraes em Samba da Bênção.

Não à toa, a indústria cultural funciona a plenos vapores e hoje o capital simbólico se tornou tão importante. A música que se ouve, os livros que se lê, o que se faz no tempo livre determina – na visão de um observador atento – quem se é de verdade. E onde está, afinal, a verdade? Aplacar essa dúvida ajudaria a tampar um grande vazio que é a necessidade tremenda de ser aceito.

Gasta-se anos tentanto provar – o que se é e o que não é – aos outros. No Brasil, quiçá deixemos de priorizar nossos desejos, nossos talentos, nosso tesão interior – como uma frase de efeito que se vende num livro de auto-ajuda – para enfim agradar aqueles que estão próximos. Ou para provar por A + B que somos, enfim, aqueles que decidimos ser. No meio do caminho, não há possibilidade de volta? Escolhas são definitivas e eficazes – feito máscaras que grudam ao rosto e não nos largam?

Como disse o poetinha: “A vida não é brincadeira, amigo”. É por essas e outras que continuo testando todas as possibilidades, e quando olho pro lado, e vejo alguém espantado me encarando, assobio o Samba da Bênção e peço a proteção de algum orixá.

Fernanda Fatureto é jornalista e poeta.

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Publicado em 19/06/2014 por em Fernanda Fatureto.
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