ORNITORRINCO

10 CONSIDERAÇÕES EM TEMPOS DE COPA

1. Eu não gosto de futebol. Das melhores coisas de morar sozinha depois de muitos anos namorando e casada é não ter som de jogo em casa há quase quatro anos. Descobri então que essa é a minha primeira Copa do Mundo solteira no século 21, e que a depender de mim podem correr pernas holandesas, italianas e croatas sem que eu me comova ou mova ou músculo pra ligar a tevê.

2. No primeiro jogo do Brasil fui à casa do Michel, que fazia aniversário. Não era Copa, era festa. Comi, bebi, conversei, dancei, ri. Fiquei sabendo tudo da Bruna. Aprofundei intimidades com a Nina. Ri com o riso da Leca. Durante duas horas, vinte pessoas sentadas olhavam correr outras vinte. Eu olhava seus rostos concentrados e ouvia seus comentários, ria das suas piadas e me entusiasmava com a sua emoção. Assistir seus amigos pode ser bem legal.

3. No segundo jogo não era aniversário de ninguém, mas a Carol convidou pra casa dela. Trabalhei até às 14h em Ipanema e o sol e a perspectiva do mar não me deixaram nem sombra de dúvida: de vestido colorido e bicicleta de florzinha fui passear no Arpoador. Pela orla torcedores e civis, gringos e brasileiros, nenhum frisson e a brisa fazendo carinho. Mergulhei, encontrei a Lélis, conversamos sobre encontros, desencontros, signos e viagens, até que era a hora do jogo e ainda estávamos pisando a areia. Pedalando de volta pra casa vi a praia ainda cheia se esvaziando, a cada quarteirão menos gente. Já quase no Leblon a surpresa: um casal abraçado na beira da água às 16h20, alheio a tudo, com jeito de sorriso. Quem é esse homem?, pensei. Não é brasileiro? Não é torcedor? Acaba de se apaixonar? Fez as pazes hoje de manhã?

4. No meu prédio, silêncio. Junior vendo jogo na tevê da portaria, já está no intervalo e ele não parece chateado por estar aqui e não num churrasco ou em casa. Uma mulher com três meninos sai do elevador. O mais velho carrega uma bola de futebol, o do meio é o Batman e o menorzinho se chama Hugo. Quem quer saber de Copa? Eles querem saber de play.

5. Tomo banho e percebo que não vou a lugar nenhum. Vestido, casaco, meias, pantufas, cobertor, ligo a tevê. Abro o computador, respondo mensagens, demoro a me interessar, resolvo fazer um esforço consciente, fecho tudo, deito no sofá. Amarelinhos contra vermelhinhos. Zero a zero. Os vermelhos se multiplicam, estão em toda parte, os amarelos chutam, correm mas não conseguem ser tantos nem chegar tão perto. Sozinha, quieta, começo a gostar. Taí, futebol pra mim combina com silêncio. Porque qualquer coisa me distrai, tudo me é preferido. Só assim, sem concorrência, sou torcedora.

6. Tem um homem chamado Thiago Silva. Ele é dos nossos, amarelinho, brasileiro. Quase quebra a perna de um vermelhinho chamado Hernandez, leva um cartão amarelo, e ao invés de reclamar com o juiz reclama com o time. O dele, o nosso, que o deixou ali sozinho e sem outro recurso a não ser dar uma tesoura no pobre do Hernandez, que no fim das contas é só outro homem que fala uma língua meio parecida e tem a mesma profissão. Uma certa dose de violência faz parte do jogo, aprendo. Ele aceita sem drama o cartão e se desculpa com o mexicano que acaba de se levantar. Me desculpe — diz em câmera lenta no replay. Certos gestos são internacionais. Um sorriso, um abraço. Achei bonito. Achei honrado.

7. Lembro da foto dos jogadores brasileiros vendo um jogo na Band que correu meu noticiário particular, o Facebook. Com dois cliques no controle me livro da voz do Galvão Bueno mas não dos comentários pedantes. “Sabe por que ele não fez o gol?”, diz o comentarista do interior de São Paulo. Até eu sei, e eu nem sei de futebol. Porque ele não conseguiu. Porque o goleiro foi mais ágil. Porque ele não teve sorte, porque não era pra ser, porque ele ficou nervoso. “Porque ele cabeceou no meio do gol, onde o goleiro estava.” Ah, jura? Nem seu ‘r’ típico, que transforma o nome Neymar numa fonte súbita de ternura pra mim, apaga o desejo de que houvesse uma tecla mute só pras vozes desses narradores, sem que eu precisasse com isso perder o som da partida.

8. Um amarelinho cai na área. O juiz diz que não é nada. No replay se vê claramente que não foi nada: nem puxão, nem empurrão, nem agarrão, nem pescoção. Ele se levanta revoltado e reclama e faz gestos e sacode a cabeça. Talento teatral também agrega valor, aprendo. Bater não é vergonha, fingir também não.

9. São três minutos de acréscimo. Os amarelos correm, os vermelhos fazem charme. O juiz apita, a torcida levanta, os homens em campo começam a tirar a camisa. “O empate já é um bom resultado?”, amacia o repórter. “Não”, diz o gaúcho Felipão. David Luís dá entrevista, não ouço o que ele diz atenta aos seus cachos que o suor deixou pra baixo, diferente do capacete de nuvens que é seu cabelo quando seco. De um jeito ou de outro bem que dá vontade de enfiar a mão.

10. 60.342 pessoas foram ao Castelão ver a seleção. A capacidade máxima do estádio de Fortaleza, diz uma das vozes ininterruptas. Acho que eles têm medo do silêncio, esses homens. E completa: agora o Brasil volta pro Rio de Janeiro. Bem que eu achava que o Brasil tinha mesmo saído da minha cidade. Volta Brasil, vem pra casa, vem.

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 19/06/2014 por em Maria Rezende.
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