ORNITORRINCO

O OLHAR MASCULINO SOBRE AS MULHERES

Causa-me nojo a maneira que alguns homens olham as mulheres. Enoja-me a maneira como alguns quebram o pescoço na rua, para olhar frente trás e quase dentro, seja de uma mulher, moça ou menina que passa.

O enjoo é de constatar como olham, analisam. Como transformam uma pessoa em coisa. Peito, bunda, perna, pele e carne. Como se escolhessem. Como se estivessem olhando uma vitrine. Um objeto de consumo. Uma peça de carne. Aliás, já me flagrei: é como quando escolho uma peça de carne no açougue, prum churrasco. Olho, julgo, comparo, analiso. Penso. Podia ser mais coradinha, mais carnuda. Até os adjetivos. Suculenta. Delícia. Boa. De primeira. Falta carne. Gostosa. Comeria.

Não se trata, pois, de bláblábá feminista. Disso pouco tenho. Não é apenas a questão de gênero: é a coisificação de uma pessoa que me dá náuseas. A operação mental de tornar o que antes era sujeito em um objeto despersonificado. Em objeto de consumo a ser analisado e comparado. Aí que reside o perigo: coisa não sente, coisa não tem direitos, coisa não tem querer. Quando olhamos para alguém e a coisificamos, esquecemos que ela é gente. Homens fazem isso com homens (acha que Capitão Nascimento chama aspira de 01 pra ser bonito? 01 não tem nome. Não tem nome e não é gente), mulheres fazem com mulheres. Coisificamos uns aos outros.

Machismo mata? Pode até ser, mas este não é meu ponto: toda e qualquer coisificação de pessoas é danosa e vil. Inclusive de homens por mulheres, que hoje vejo crescer. Mas é que as mulheres, ao contrário de nós, não aprendem o que aprendemos. Eu, que sempre fui instruído e educado a não tratar mulher como coisa e sim com o respeito que qualquer pessoa merece, desde pequenininho olho revista de mulher pelada. É normal. Faz parte da educação do menino. Ali, por exemplo, aprendemos a olhar mulher. Comparar. É gostosa, não é. A da outra edição era melhor. Criamos nosso padrão estético. Irreal. “As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.”. Alguém cale a boca do poetinha. Mulher não é comida, não se faz receita.

(Aliás, neste nosso sistema, neste modelo de sociedade, coisificamos tudo. Só vale o que é consumível, o que entretêm, o que dá gozo. O efêmero. Arte, só a vale a que vende. Poesia, blá. Livros, há de ser best-seller. Desenho só serve se for pra fazer design, marca, publicidade. Só vale o que tem valor de troca, como se tudo fosse um mercado. É a Civilização do Espetáculo, que denuncia Vargas Llosa. Perdemos os valores estéticos, e com eles, a moralidade que acompanhava o belo [o contrário de feio é bonito, o belo não tem contrário]. Porque afinal, tudo é relativizável. Escolha o seu teórico e mande bala, importante é que venda. E não é? Somos um grande mercado, a mão invisível resolve, e todos lucram. Então se tudo tem valor, e pode ser analisado, comparado e trocado. Relativizado. Até as religiões já o fazem. O que era dantes social e econômico é geral. É o sistema. Perdemos a dignidade. Perdemos a essência.)

O que quero dizer é que, enfim, voltando, é que sujeitos são sujeitos. E é na obviedade da constatação que reside o pulo do gato: devem ser tratados como tal. Homem, mulher. Olhar nos olhos, sorrir. Lembrar que o outro por nós é afetado, assim como somos. Cuidarmo-nos. Ouvirmo-nos

Como bom hipócrita ocasional, devo apontar pro meu umbigo e fazer uma ressalva final. Há um olhar de homem pra mulher que merece ser defendido, ou ao menos, explicado. Pra que não pareçam todos como o da propaganda indiana. Há alguns sujeitos, de natureza contemplativa, que olham com um olhar perdido, fixo. Longamente. Olham para o corpo inteiro, quase que sem um ponto fixo. Se demoram. Como se olhassem uma obra de arte. E o fazendo, esquecem de desviar, como se estivessem em transe. Desculpem-me, mas a essência da beleza (do ideal do belo, estético) é definitivamente feminina. Para alguns homens, não há nada neste mundo mais puro, mais belo que uma mulher. Quando menino, olhava a menina que eu gostava. Só olhava, perdido. E me demorava. E se ela me flagrasse, que vergonha! Um olhar de menino, sem testosterona, sem libido. Um olhar de quem não sabe nem dizer o que olha. “You see I’ve forgotten, if they’re green or they’re blue”. É isso, Sir. É o olhar de Rilke à dançarina espanhola, de Dante à Beatriz. Diria de poeta, mas seria injusto com os que não escrevem. Olhamos bobos, como quem se encanta, e por vezes, somos confundidos com os quebra-pescoço. Desculpem-nos. Somos apenas fascinados. Somos poucos, mas espero que sejamos muitos, que olham musas. Que escrevem, pintam, choram e dançam. Que sabem que toda mulher, moça ou menina, merece uma proposta de amor como a música de Tom Zé. Se for pra analisá-las, que seja a análise de Fernando Pessoa. Tenhamos Baião de dois à dois. Divino.

Homens, garotos, meninos, não coisifiquem as mulheres: as divinizem.

Gabriel Guarino de Almeida é estudante de Direito.

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Publicado em 18/06/2014 por em Gabriel Guarino de Almeida.
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