ORNITORRINCO

HORROR À INVEJA BRANCA


Você posta uma foto na praia e pode apostar: alguém vai escrever “inveja branca”. Sempre tive abuso máximo de tal expressão, primeiro pelo racismo que ela acarreta. Dizer apenas “inveja” pode ser muito pesado, muito forte, pensa o ser. Ao acrescentar a cor “branca”, a pessoa acredita dar conotação leve à tal frase. Um absurdo tão descabido que sempre que leio tal frase, vem um horror nos meus dentes. E depois porque ao postar uma foto na praia, você poderia ser gentil e me desejar um lindo dia, me mandar aproveitar, comentar a cor da água, enaltecer meu dia de folga, enfim. Olha, você tem muitas outras opções de frases. Por que “inveja branca”, Brasil?

A inveja é o desejo de ter exatamente o que a outra pessoa tem. E obviamente ao ver uma foto de amiga numa praia deserta, eu gostaria de também estar naquela praia, mas estou satisfeita comigo mesma, não gostaria de ter a vida da minha amiga, só de estar na praia com ela. Acho que não é o caso de quem comenta “inveja branca”. Infelizmente, acabo julgando quem escreve tal frase nas minhas fotos. Sim, questiono um pouco o caráter. Se você não gosta da sua vida, batalhe por uma melhoria, mas não venha achar que a minha é melhor que a sua. Não é. Somos todos uns fudidos, em maior ou menor grau, mas as contas chegam para todos, as DR’s acontecem em todas as relações, familiares morrem em todos os lares, enfim. 
Nunca fui muito boa de ironia, consigo utilizá-la, mas não é minha preferência. Já acho a vida confusa por demais: pessoas dizendo coisas para impressionar, não porque sentem; então acabo optando por um estilo mais sincero e franco, por vezes prolixa, mas a ironia realmente me confunde, então quando é aniversário de uma amiga, eu não costumo colocar a pior foto dela no facebook e escrever: “VAI, VELHINHA”. Não sei, há amigos que a dinâmica é permeada por esse tipo de zombaria, mas eu gosto de enaltecer, de celebrar. 
De todos os comentários das redes sociais, o “inveja branca” é o que mais me dá asco. As críticas, ironias, sacanagens, eu até relevo, posso até dar risada, debocho e tudo mais. O “inveja branca” me cutuca mais que o próprio cutuque do Facebook. Come on! Tantas possibilidades, até mesmo de não comentar nada. Hilário pensar que quem comenta isso se expõe (pelo menos pra mim) de maneira ridícula. 
Outro dia alguém postou uma frase no Facebook e trocentas pessoas compartilharam, e é de fato, bem curiosa. Diz algo como: “Cada pessoa que você conhece está numa batalha que você desconhece, seja gentil.” Concordei, porque mesmo quando algum herdeiro posta fotos das viagens e de hoteis de luxo, nunca se sabe, NUNCA SE SABE, eu repito, porque felicidade pode não ser isso (não é), então, o que nos resta é desejar uma feliz viagem. Seja para Europa ou Iguaba mesmo. As coisas são profundas.
Da próxima vez que sua amiga postar uma foto dela boiando numa piscina, e você estiver trabalhando dentro de um escritório, deseje estar lá com ela, escreva isso: eu desejaria estar aí com você. Te garanto que o universo vai colaborar mais com a sua vida.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/06/2014 por em Letícia Novaes.
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